História 24 - História de Regina : "Uma professora anunciada"
Diz que era uma vez e ainda é, uma professora chamada Regina, que passou a sua vida lecionando em escolas municipais. Em 2018, chegou à EMEI Monteiro Lobato, após ter se aposentado na rede municipal de Taboão da Serra. Chegar à EMEI foi para Regina, como aportar no paraíso. Para ela, uma das escolas mais bonitas em que já trabalhou. Quando ela olha para essa escola, só consegue pensar na menina serelepe, que ela já foi e ainda é. Em como ela teria gostado de brincar e balançar, num parquinho tão cheio de árvores e vida. Essa menininha que ela já foi, brincava e muito, numa rua de terra, na zona leste de São Paulo. Sempre junto de sua irmã, com quem ela aprontava. A mãe sempre comprava dois yakults, para cada uma das filhas. Disfarçadamente, Regina, furava os dois yakults da irmã e colocava leite no lugar. A irmã sempre dizia que tinha gosto de leite. A mãe dizia que era assim mesmo, uai, o que mais ela queria. Até o dia em que a mãe experimentou, após tanta reclamação, da filha mais nova e descobriu tudo. Nada que mudasse, o tanto que Regina e a irmã, eram parceiras, de descer os morrinhos de terra vermelha, escorregando no papelão. Também foram muito companheiras da mãe, nos momentos mais difíceis. A mãe e o pai de Regina ainda são para ela, suas duas forças, que a carregam no colo, mesmo já tendo partido. O pai sempre foi muito amoroso e de boa escuta. A mãe, sempre muito prática e tendo trabalhado a vida toda, como faxineira, zelava para que as duas filhas estudassem. Na sua formatura, do magistério, sua professora entregou uma rosa para sua mãe e o seu diploma, para o pai. Mas para Regina, devia ter sido bem o contrário. Quem lutou e guardou a filha, para a conquista deste diploma, foi sua mãe. A rosa deveria ter sido entregue para o pai, que sempre exalou amorosidade. Talvez tenha lhe faltado espinhos, para guardar sua melhor parte. O pai e a mãe eram muito apaixonados, um pelo outro, nascidos em Minas, se conheciam desde sempre. Mesmo assim, o avô materno de Regina foi contrário ao casamento. No entanto, assim foi e eles tiveram duas filhas. O pai demorou a reconhecer que era alcóolatra. Isso só aconteceu depois que sua esposa foi embora com as filhas. Regina, a irmã e a mãe foram morar com a avó materna. Regina tinha uns treze anos. A mãe saía cedo para trabalhar. A avó queria então, que as netas, deixassem a escola, para ajudá-la nos afazeres domésticos. A mãe de Regina não permitiu de maneira alguma, pegou suas coisas, agarrou suas filhas e foram embora. Disse que suas filhas jamais iriam repetir a sua sina, de trabalhar tanto e ganhar tão pouco, como faxineira. As filhas não iriam parar de estudar. Quem recebeu as três, mãe e filhas, com muito amor, foram os tios de Regina, o irmão de sua mãe, casado com a tia Marilene. Nessa época, outro irmão de sua mãe, havia se casado com uma professora e ela sempre pedia para que Regina ajudasse a corrigir os cadernos dos alunos. Pronto, a mãe de Regina encontrou um destino para suas duas filhas. Seriam professoras e de fato, assim foi. Portanto, receber o diploma era dividi-lo com a mãe, zeladora de seus estudos, guardiã de uma vida menos sofrida, para ela e a irmã. Seu primeiro trabalho como professora foi justamente na escola em que a mãe trabalhava como faxineira. Uma grande emoção ser colega de trabalho de sua mãe. O coração dessa mãe batia feliz, ao ver a filha mudando um pouco, o destino das mulheres da família. Mais tarde, Regina casou-se e teve uma filha. Foi quando descobriu e compreendeu o amor de sua mãe, por ela e a irmã. A vida ganhou outro sentido. Sua filha, Aline, é o seu chão fértil, de onde brota flor o ano inteiro, de todos os cheiros e cores. A mãe cuidava de sua filha, para que ela terminasse a faculdade de pedagogia. Em muitos momentos, Regina pensou em desistir, mas a mãe não permitia. Dizia-lhe sempre, que faltava menos, do que quando ela tinha começado. Portanto, que erguesse a cabeça e continuasse. Hoje, Regina, olha para seu casamento e compreende que foi uma relação abusiva. Uma pena que tais discussões não eram tão abertas, entre as mulheres, naquela época. De fato, é sempre difícil nomear a violência. Mesmo assim, seu pai e sua mãe a apoiaram. Em todos os momentos, eles foram um chão seguro, para ela e sua filha. Seu pai conseguiu recomeçar a vida, ao lado de sua mãe, e compreendeu o tanto que deveria cuidar-se. Continuou sempre, exalando seu cheiro de rosa. Sua mãe, foi sempre uma guerreira e de seus instrumentos de trabalho, vassoura, rodo e pano de chão, varreu toda e qualquer pedra do caminho. Ela sempre dizia: "de uma faxineira, vou fazer duas professoras". Regina e a irmã sempre foram, de coração, duas professoras. Nascidas para o ofício. Souberam disso, quando pisaram numa sala de aula, pela primeira vez. Sentiram a naturalidade, com que caminharam pela educação. Regina prestou concurso para escolas públicas, em Taboão da Serra e depois, para escolas municipais, em São Paulo. Assim, voltamos ao começo dessa história. O começo, na verdade, foi o fim de um ciclo. Regina aposentou-se numa das redes em que trabalhava, e agora, na EMEI Monteiro Lobato, vive numa outra estação e parece que nessa escola, encontrou tudo que lhe faltava. Continua sempre ao lado de sua filha, Aline, que já é uma mulher, da qual Regina, muito se orgulha. Mas uma coisa em nada mudou, mãe e filha, continuam tecendo bonitas histórias, de amor e companhia, como um dia já fizeram, Regina, sua mãe e sua irmã.
História de vida de Regina
Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk
Link para escutar a história de vida de Regina:

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