História de Vida 34 - História de Cema: "Se o mar eles pudessem dar, eles dariam"

 





Essa é a história de Diracene, mais conhecida pelo apelido de Cema. A história de Cema é a de uma família, porque ela não anda sozinha. Anda com os seus. Um pai e uma mãe, mineiros de Pirapora, da roça, da nascente do Velho Chico, que se pudessem, dariam o mar para suas sete filhas. Dois filhos homens, eles tristemente perderam. Sempre perguntaram ao pai de Cema, se ele não sentia falta de braços de filho homem, para o trabalho pesado da roça. O pai dizia-se abençoado, nada lhe faltava, porque tinha suas filhas. As sete filhas construíram com seus braços de mulher, suas famílias, pariram filhos, ergueram casas, tudo com muito trabalho pesado, de triplas jornadas. Cema e seus irmãos moravam na roça e estudavam como podiam. Os pais mudaram-se para a cidade, quando não havia mais as séries para prosseguirem. Cema conseguiu estudar até à sétima série, porque de repente, a vida foi dando nós, daqueles bem doloridos. Um de seus irmãos ficou doente e todos achando que era amarelão e tratando com chá, até que um dia, médicos do Hospital das Clínicas, passando pela cidade, numa pesquisa que faziam, perceberam a gravidade da doença do menino. Ele estava com leucemia. A mãe estava para parir gêmeas. Cema era a mais velha. Aconteceu pois, que assim que as meninas nasceram, a mãe foi para São Paulo, acompanhar o tratamento do filho. Cema tinha dez anos e precisava cuidar das irmãs recém-nascidas e mais, das outras. Os vizinhos ajudavam. O pai trabalhava ainda mais,  para sustentar a casa e as despesas da esposa, em São Paulo. Era tanta criança sem mãe, na casa de Cema. Tanto medo. Tanto não-saber. Até que um dia, chegou a notícia de que todos os filhos precisavam ir para São Paulo fazer o teste da medula, para salvar o irmão. O hospital das Clínicas por meio da assistência social conseguiu as passagens. Fizeram o exame, mas depois, para o desespero da mãe e do pai, disseram que cada filho iria para uma casa de apoio, numa ambulância diferente, para descansarem, comerem, até que desse a hora de voltar para Minas. Foi um desespero. Cada irmã separada da outra. Cada filho para um lado. A mãe na dor de um filho, sentindo o medo de perder todos os outros. Cema, a mais velha, chegando na casa de apoio que lhe coube, disse que não comia sem suas irmãs e seu irmão. Não comia de jeito nenhum. Dali a pouco, as irmãs e o irmão foram chegando. Não havia lugar nas outras casas e todos ficariam ali, junto de Cema, que chorava aliviada. Como poderiam separá-los? Desde então é assim. Elas vivem sempre juntas. As sete irmãs. Perderam dois, dos irmãos. Ficaram sete mulheres. As sete protetoras do pai e da mãe. Quando Cema era criança, a época de que mais gostava era a de Reis e a chegada da santa. A casa que a santa batesse tinha que servir um banquete, daqueles simples mais cheirosos, de comida de fogão à lenha. Cema ficava na porteira esperando pelos tropeiros. O pai perguntava: "Você não se cansa de esperar?" Cema não se cansa de esperar. Ela tem fé na vida. Sabe que a comida, estando pronta e na panela "quentanu" no fogão, a santa chega. Esperar, sempre, mas de banquete pronto. "Quem traz essa marca, possui a estranha mania de ter fé na vida". É a marca da porteira aberta, do caminho que se faz é no passo. Quando saiu o resultado do exame, três irmãos poderiam doar para o irmão, que estava muito doente. Cema pediu, então, para a mãe, que fossem todos para São Paulo, pois ela não aguentava ficar longe dela. O pai vendeu o que tinha e foram. Mas o dinheiro só deu mesmo, para comprar um barraco na comunidade "Rocinha Paulistana", já desativada, que ficava próxima ao aeroporto de Congonhas. Foi tão dolorido. Quando o pai disse que ia comprar uma casa em São Paulo, Cema imaginou uma casinha branca, de portão branco. Mudaram-se para o barraco e logo, o irmão faleceu. Foi uma tristeza lavada com trabalho, afinco e amor. A roda da vida girou e compraram um barraco fora da comunidade. Cema foi trabalhar limpando aviões. Limpar sem jamais voar. O voo chegou quando ela foi trabalhar na livraria cultura. Estar perto dos livros era voar, para além das nuvens. Mas também era um “voar” emprestado. Os livros não eram dela, a vida seguia sempre difícil. No entanto, Cema gostava muito desse emprego. Acabou indo trabalhar depois, num escritório de arquitetura. A vida foi arquitetando tudo, pois neste trabalho, Cema permanece até hoje. Esse trabalho permite que ela fique morando na casa do escritório, localizada justamente, próxima à EMEI Monteiro Lobato, onde seu filho estudou, para quem seu marido, Luciano, presta serviço como jardineiro. Nos finais de semana, Cema, o marido e seus dois filhos, um menino e uma menina, passam tranquilos, numa casinha branca, perto da sua antiga comunidade. Essa casa é simples, mas é deles, como Cema sonhou. Com a casa do trabalho, Cema não precisa atravessar a cidade, enfrentando com os filhos, a loucura que é o transporte público de São Paulo. Assim, a vida segue bonita para essa família, apesar de muito difícil. Os pais  moram num sítio e estão, finalmente, perto da terra. Se os pais pudessem dar o mar para suas sete filhas, eles dariam. Mal sabem eles, que deram foi um mar de possibilidades no coração das filhas, pois Cema e as irmãs têm mania de ter fé na vida. São todas elas, as "Marias" cantadas por Milton Nascimento. Todas possuem essa marca. Perderam o irmão ainda criança, saindo de Minas para São Paulo. Já crescidos, toda a família viajou de São Paulo para Minas e lá, perderam num acidente de carro, o outro irmão. Nessa família, a vontade é infinita, como o mar e o que eles sabem mesmo, é plantar coragem e afofar a tristeza, jogando semente de recomeço. Trabalhadores incansáveis, o pai e a mãe, vivendo no sítio deles, ficam sendo amorosamente vigiados pelas sete filhas. Elas ficam a vigiar se os dois já velhos, só de corpo, pois de alma, jamais, estão subindo em árvore ou aprontando das suas. A alegria do pai e da mãe é estarem perto da terra. A terra foi arrancada deles, mas as sete filhas semearam de novo, um chão. Pois a terra não é como ver o mar, para quem é da roça? As sete Marias, lideradas pela mais velha irmã, nossa querida Cema, narradora dessa história que eu, aumentando alguns pontos, tentei narrar para vocês, vivem em eterno "dia de Reis". Sempre de banquete pronto para a chegada dos tropeiros. As sete irmãs sabem que eles chegam. Cema sabe que eles chegam. Chegarão sempre, por isso, ela já vai abrindo caminho, arrancando mato, porque essa é uma história de "esperançar", como dizia Paulo Freire. Não é esperança de esperar. É "esperançar" de levantar. E digo mais, mulheres não esperam, "esperançam". Dizem que são os homens que abrem estradas, mas são as mulheres que abrem-caminhos. É por isso, que se o pai e a mãe de Cema pudessem dar o mar para suas sete filhas, suas sete "Marias'', eles dariam.



História de Vida de Diracene, mais conhecida como Cema.

Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk


Link para escutar a história de Cema:

https://www.youtube.com/watch?v=ykCT3qCOXdk

 

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