Postagens

Mostrando postagens de janeiro, 2023

História de Vida 35 - História de Fernanda: "Minha voz"

Imagem
    No encontro entre dois rios, em terras baianas, um português deu as terras como sendo suas, nomeando-as de "Barra do Mendes", hoje uma cidade. Desde sua origem, quer dizer, desde o carimbo dos brancos, num papel inventado por brancos, numa lei de brancos, aconteceram muitas brigas de coronéis, pela posse dessas terras. Na zona rural de Barra do Mendes existe um povoado chamado Melancia. Neste lugar nasceu Fernanda. Sua tataravó materna tinha sido escravizada, numa fazenda de Salvador. Ela e o filho do dono fugiram para essa região, num tempo longínquo. Os ancestrais de seu pai e de sua mãe, também tiveram um tronco indígena, os verdadeiros donos de todas essas terras. Da mãe, ela sabe que descendem dos tapuias, embora esse termo, também não especifique corretamente, a nação do povo de sua mãe. Fernanda, também não sabe a nação dos povos indígenas, do qual descende seu pai. Ela tem amor pela História. Gosta de saber os começos, para compreender o desenrolar das coisas, no ...

História de Vida 34 - História de Cema: "Se o mar eles pudessem dar, eles dariam"

Imagem
  Essa é a história de Diracene, mais conhecida pelo apelido de Cema. A história de Cema é a de uma família, porque ela não anda sozinha. Anda com os seus. Um pai e uma mãe, mineiros de Pirapora, da roça, da nascente do Velho Chico, que se pudessem, dariam o mar para suas sete filhas. Dois filhos homens, eles tristemente perderam. Sempre perguntaram ao pai de Cema, se ele não sentia falta de braços de filho homem, para o trabalho pesado da roça. O pai dizia-se abençoado, nada lhe faltava, porque tinha suas filhas. As sete filhas construíram com seus braços de mulher, suas famílias, pariram filhos, ergueram casas, tudo com muito trabalho pesado, de triplas jornadas. Cema e seus irmãos moravam na roça e estudavam como podiam. Os pais mudaram-se para a cidade, quando não havia mais as séries para prosseguirem. Cema conseguiu estudar até à sétima série, porque de repente, a vida foi dando nós, daqueles bem doloridos. Um de seus irmãos ficou doente e todos achando que era amarelão e tra...

História de Vida 33 - História de Maria Cláudia: "De quem é feita de chão"

Imagem
  Para conhecer a história que agora começo a narrar, guarde bem esta paisagem. A personagem principal dessa história bebe, vive e é nutrida, como um retrato dessa terra. Mulheres atravessam uma capoeira de algodão. Mulheres colhem o algodão, entre elas, uma menina de nove anos, parida do ventre de Maria do Socorro, a segunda, de seis meninas. Nascida no Ceará, na Fazenda de Cajazeiras do Ivos, no Anel do Algodão, Maria Cláudia, nesse começo da nossa história, vive com sua família na Paraíba, numa vila de Uiraúna chamada Quixaba. Se fecharmos os olhos, poderemos ver as casas simples. Não existe cerca. As casas se comunicam com as outras casas, com as estradas, com a plantação. O trabalho, a vida familiar, a natureza, tudo corre, vive, seca, nasce, morre como um todo. Os rios enchem, secam e vazam. Nas secas, as crianças correm pelos leitos. Nas cheias, meninos e meninas fazem barcos de folha de bananeira, para soltarem nas correntezas. Os homens entram nos brejos e colhem feixes de...

História de Vida 32 - História de Marta: "De asas e afetos passarinheiros"

Imagem
  Diz que era uma vez, uma menina chamada Marta. O pai e a mãe tinham vindo do sul para tentar novas possibilidades. Compraram uma casa na periferia da zona leste e tiveram sete filhos. Seis mulheres e um homem. A sétima era uma mulher, a Marta, dessa nossa história. Ela queria brincar na rua e os pais não deixavam. Então, a rua toda vinha para dentro de sua casa. Marta é uma criadora de possibilidades. Ela aprendeu a ler sozinha. Com cinco anos queria muito ir à escola para escrever, já que lia tudo, desde os quatro anos, talvez por influência de sua irmã mais velha, que fazia magistério. Mas seu primeiro dia de aula foi uma grande decepção. Tentou fugir cinco vezes. Então, era aquilo, a escola? Ninguém ainda sabia ler e muito menos, iriam aprender a escrever, no tempo que Marta sonhava. No tempo de quem já lia tanto. No entanto, sua professora foi bastante paciente e a ajudou a compreender que a escola era aquilo, mas nem tudo ficava perdido, porque os nossos sonhos sempre podem ...