Postagens

Mostrando postagens de julho, 2022

História 7 - História de Adriana - "Aquela que sabe, por que, não?"

Imagem
    Diz que era uma vez uma menina que morava na roça, em Campos Gerais, das Minas Gerais. Adriana era o seu nome. Ela tinha um desejo: andar sempre de salto. A mãe emendava: - Salto no chão de barro? Na roça não tem jeito, menina.   Mas Adriana era daquele tipo de menina que sempre pensa: "Por que, não?". Se salto ela não podia usar na roça, seu salão de beleza ela ia começar era ali mesmo, debaixo do pé de laranjeira, porque aos dez anos, ela já sabia fazer tranças e pintava unhas, todos os sábados. Tinha muitas clientes e com o dinheiro do seu trabalho, comprava os cadernos da escola. "Por que, não?" Meninas do tipo "Por que, não?"  têm sede de caminhos nos pés. Ainda mais Adriana, que queria andar sempre no salto. Se no barro não era possível andar de salto, então, já crescida, chegou a hora de partir. Partiu para São Paulo. Adriana tornou-se cabeleireira, como sempre tinha sido, desde menina, e continuou a labuta de embelezar o mundo. Antes, ela teve ...

História 6 - História de Omo Afefê, o filho do vento, soprando sua família

Imagem
  Essa na verdade, é a história de uma família, que começou com um sopro, de Omo Afefê, filho do vento. Como o vento sempre quer se espalhar, Omo Afefê, espalhou o seu amor e fez da sua família, o ar, que lhe enche o peito e as rimas que sopra em batalhas de rap. Diz que o nosso vento, quando era só um ventinho, nasceu menina, numa família empoderada de sua negritude, na periferia de Taboão. Mas todo mundo sabe bem, como vive uma família negra na periferia do Brasil. Tudo era muito precário, o que tornava a vida muito difícil. Mas nem por isso, a família do nosso então, ventinho, deixava de viver na beleza. Tinham vento nos pés. Seus pais dançavam samba rock no bailes blacks. Sua avó era dos bailes de carnaval. No entanto, eram outros tempos e a vida de tantos casais era sempre permeada por muito machismo, como é ainda hoje, só que antes não havia muitas discussões sobre isso. Antes, as violências não eram nomeadas e o amor acabava sendo confundido com abuso. Nosso vento, que ainda...

História 5 - História de Elanine - "Doces janelas de memórias"

Imagem
    Diz que era uma vez, uma moça-mulher que nunca em seu caminho, havia encontrado alguém com nome igual ao seu. Elanine, era esse o seu nome, que fazia a moça-mulher sentir-se a única. Também pudera, sua força vinha das águas de sua caboclinha, mãe Francisca, que a vida levara antes de sua filha, Emilly, nascer, já em terras de São Paulo. Pois, Elanine, saíra de Simplício Mendes, no Piauí, aos dezoito anos. Nascida em casa de telha de barro sem forro. Casa assim, têm aquelas em que a parede vai até o forro e têm aquelas, em que fica um vão. Um vão onde se ouve tudo. Casa que não guarda segredo jamais. Aliás, nem nas ruas é possível guardar segredo. As conversas acontecem no pé da parede, que dá para a calçada. Até hoje, quando Elanine chega na casa de seu pai, de manhãzinha, ela escuta na parede da calçada: - "Coisa boa, compadre, sua filha chegou lá de São Paulo?" Em Simplício Mendes, mesmo quem vive na cidade, acorda cedo com as conversas debaixo da janela . Falando em ja...

História 4 - História de Mafoane Odara - "Da raiz até à lua"

Imagem
                                                                  Diz que era uma vez, uma menina que nasceu com alma de astronauta. Ela viajava por lugares que ninguém tinha ido antes. São lugares dentro da gente mesmo, que poucas pessoas chegam, talvez por falta de alma perguntadeira ou de um empurrãozinho. Essa menina tinha muita vida vibrante à sua volta e incentivo, vinha como o sangue que corre nas veias. Sua mãe estava sempre pronta à ir para Marte se preciso fosse, para lutar por um mundo melhor, principalmente pelas mulheres negras e todo o povo negro e por toda injustiça, que por um acaso atravessasse o seu caminho. Seu pai também. Os dois, pai e mãe, ajudaram a fundar o Movimento Negro Unificado, e, inspirados pelos Pan-africanismo, vestiam roupas africanas típicas, usavam cabelos nas mil e uma possibilidades...

História 3 - História de Adrienne - "Uma viajante sonhadora"

Imagem
    Diz que era uma vez, uma mulher sedenta por bem-viver. Estar bem no mundo para ela é sempre um direito e por isso, atravessou o oceano, numa mesma ponte já cruzada tantas vezes, do velho continente, o berço do mundo, mais precisamente, Camarões, para o Brasil, esse pedaço de América e cria de mãe África. Vinha cansada, pois em seu país, vivendo um governo autoritário, com o mesmo presidente, desde 1982, vivia o povo na maior desigualdade. Vinha cansada, mas esperançada, e, mal sabia ela, que não vinha sozinha. Deixara seu filho sofridamente com sua família, numa dolorosa separação, mas chegava ao Brasil, já acompanhada em seu ventre, de mais um menino. Disso, ela ainda não sabia, quando a sua história com o Brasil começou, em 2014. Essa é a história de Adrienne, que primeiro foi trabalhar num restaurante africano, quando aqui chegou. Quando deu-se conta do filho querido, em seu ventre, ainda precisou escondê-lo, para não perder o trabalho. Lágrimas lhe escorriam, mas ...

História 2 - História de José - "A saga de José"

Imagem
 Eram dois "Josés" e uma mãe. Certa vez, a mãe, cansada do marido violento, fugiu com os dois "Josés". Já combinada com uma amiga, tirou sofridamente, um José seu, dois pedaços seus, um de cada braço seu. José Antônio era um dos "Josés" e essa foi sua primeira e dolorosa separação, ao passo que outra, ainda estaria por vir. José Antônio foi criado, então, por um casal de fazendeiros, em Monte Santo, entre matos e caatinga, sem nada saber de seu outro irmão, José, e sua mãe de dois "Josés". Cresceu feliz. Gostava quando desciam a serra de Monte Santo, uma única vez por semana, era um acontecimento. Outro acontecimento foi começar a escola e ter uma professora só sua. Pois foi essa professora, quem um dia, indagou, José: - José, por que seu sobrenome é diferente dos seus irmãos, da sua mãe e do seu pai?   José nem sabia o que dizer. Tal fato nunca lhe chamara a atenção. Nem conseguia entender o alcance daquela pergunta, que não era um detalhe, era ...

História 1 - História de Jaci - "Jaci, a que encontrou o seu sol"

Imagem
Diz que era uma vez, uma família que começou como o Brasil, desde a colonização. Uma família negra, baiana, escravizada nas suas mais antigas gerações, ainda vivendo na mesma terra, na mesma casa de seus antepassados, trabalhando para a mesma família de brancos, donos de terra, que até a década de 1970, ainda impunham suas leis, com a presença de jagunços. Do encontro dessas duas famílias nasceu, Jaci, a lua dessa nossa história, que agora começa. Jaci nasceu com a mesma dor, que nasceu nosso "Brasil". Sua mãe era só uma menina de 13 anos, uma menina negra que trabalhava na mesma casa grande de fazenda, que sua mãe, sua vó, sua bisavó, sua tataravó haviam trabalhado, na mesma escravidão. Ela já não era considerada escrava e sim, trabalhadora da casa dos brancos, mas teve que se casar, com um viúvo de 55 anos, o fazendeiro, o dono de todas aquelas terras. Ela era só uma menina. Isso por um acaso, era ser livre? Essa menina teve tantos filhos e como era quase criança, mal sabia...

Abertura da Roda de Histórias de Vida da EMEI Monteiro Lobato

Imagem
    Hoje é o grande dia, quando as histórias começam a ser compartilhadas. Mas antes de começar essa bonita roda será necessário pedir toda licença, aos donos e donas das histórias escutadas, escritas e narradas. Ouça o pedido de licença da narradora de histórias e poeta, Elaine Dauzcuk, no link abaixo e logo mais, será postada, a primeira história de vida, da comunidade escolar EMEI Monteiro Lobato.  https://youtu.be/GgFLklKp4h8