História 1 - História de Jaci - "Jaci, a que encontrou o seu sol"
Diz que era uma vez, uma família que começou como o Brasil, desde a colonização. Uma família negra, baiana, escravizada nas suas mais antigas gerações, ainda vivendo na mesma terra, na mesma casa de seus antepassados, trabalhando para a mesma família de brancos, donos de terra, que até a década de 1970, ainda impunham suas leis, com a presença de jagunços. Do encontro dessas duas famílias nasceu, Jaci, a lua dessa nossa história, que agora começa. Jaci nasceu com a mesma dor, que nasceu nosso "Brasil". Sua mãe era só uma menina de 13 anos, uma menina negra que trabalhava na mesma casa grande de fazenda, que sua mãe, sua vó, sua bisavó, sua tataravó haviam trabalhado, na mesma escravidão. Ela já não era considerada escrava e sim, trabalhadora da casa dos brancos, mas teve que se casar, com um viúvo de 55 anos, o fazendeiro, o dono de todas aquelas terras. Ela era só uma menina. Isso por um acaso, era ser livre? Essa menina teve tantos filhos e como era quase criança, mal sabia cuidar deles e muitos, iam morrendo e no fim, apenas nove de fato, viveram. Entre eles, estava a nossa, Jaci, a lua de nossa história. Jaci nasceu com o dom de iluminar as noites mais escuras, pois sua vida não havia começado com belezas. Jaci era uma menina mestiça, mas de pele mais clara, muitas sardas e muito parecida com seu pai. Ser parecida com seu pai foi a dor de sua mãe, que não a aceitava. Sua mãe vivia naquela casa de fazendeiros, mas jamais com o consenso da família do marido, o pai de Jaci. Os filhos do primeiro casamento do pai de Jaci ficaram revoltados, abandonaram a casa, mas deixaram todos os jagunços em volta das terras, sempre à espreita de ameaçar a vida da mãe de Jaci, a menina negra, que jamais poderia ocupar a casa grande, mas que ocupou, sem que ninguém lhe perguntasse se ela queria, talvez ela só quisesse viver seu tempo de menina, que mais uma vez, os brancos donos da terra haviam lhe roubado, e, essa, foi uma grande dor, ao que parece. A ameaça dos jagunços ficou tão séria, que o pai de Jaci foi morar com ela e os filhos, mais perto do comércio. Comprou três casas e um açougue, para que a mãe de Jaci tivesse um respaldo, quando um dia, ele partisse, pois estava entrando na velhice e sentia que não ia viver muito. Jaci foi então, conhecendo o que era ser lua. Ser lua era viver na escuridão e na solidão, aprendendo a iluminar seus próprios caminhos. A vida de Jaci não tinha dias de vento e sol. Sua mãe olhava para ela e via o marido, o pai de Jaci e a menina então, apanhava e apanhava. Trabalhava e muito, desde pequena. Seu pai, às vezes, para que a menina não apanhasse tanto, a levava de trem para Salvador, em suas viagens de negócios. Mas Jaci, a nossa lua, já sabia que só podia contar era com ela mesma. Não teve infância a nossa Jaci, que hoje, na sua sabedoria de tantos anos de vida, sabe que a dor de sua mãe e o que ela fazia, era só repetir a dor do começo de um Brasil racista. Mas Jaci sofria, sem infância, trabalhando por trocados que a mãe às vezes, até lhe roubava. Certa vez, depois da morte do pai, a mãe vendeu a menina. Jaci, um dia, fugiu da mulher que havia comprado sua vida preciosa de menina. Fugiu e como criança, que sempre quer se esconder, embaixo da saia da mãe, escondeu-se embaixo da cama da mãe. A mulher que havia comprado Jaci estava de mudança e veio reclamar da menina, que estava sumida. A mulher xingou a mãe de Jaci, de tantos nomes feios, que doeram na menina. Afinal, sua mãe, depois que a mulher havia ido embora, a encontrou embaixo da cama e nesse dia, Jaci, apanhou como nunca. Até hoje, Jaci tem uma dor que não se cura, nas costas, pois todo o tempo de menina, carregou gamelas de carne, do matadouro até o açougue de sua mãe. Jaci não tinha fantasias de encontrar o sol. Jaci sabia que estava sozinha e precisava partir. Foi o que ela fez. Aos 16 anos, com a ajuda de uma mulher, para qual ela trabalhava, fugiu para São Paulo. Carregava apenas o endereço e a indicação de um trabalho, na casa de uma rica família baiana. Jaci não sabia ler, mas sabia fugir de uma história sem fim, que o Brasil racista queria e ainda quer, que se repita. Sabia querer outra vida. Sabia que tinha um brilho seu e que ele daria conta de mantê-la viva e bem. Ao chegar em São Paulo, mais duas moças que haviam acompanhado a menina, Jaci, deixaram-na sozinha na rodoviária. Jaci só tinha um pedaço de papel com o endereço da casa em que ia trabalhar e mal sabia ler. Pegou um táxi e seguiu. Acontece, que o motorista parecia nunca chegar ao destino. Ela percebeu que ele estava passando pelas mesmas ruas. Ela viu um posto policial e pediu que ele parasse. Jaci, muito esperta, gritou, chamando os policiais e disse:
- Esse motorista está há um tempão rodando pelas mesmas ruas comigo e nunca chegamos. Eu não conheço nada, acabei de chegar e preciso ir à essa rua - e mostrou o papel. O motorista ficou pálido com o susto. Os policiais mandaram que ele descesse do carro, olharam os documentos. Disseram ao homem, que seus dados estariam ali, nas mãos deles, que o homem levasse a moça até seu destino, que aliás, estava muito perto, era a Rua Maria Paula e que não cobrasse nada dela. Quando, enfim, Jaci chegou à casa de Tereza, sua nova patroa, esta estava desesperada, pensando que tivesse acontecido alguma coisa. O motorista não cobrou nada e sumiu. Jaci começou a trabalhar ali, mas logo entendeu que na verdade, sua nova patroa, a mantinha prisioneira e ainda por cima, seu marido começou a assediá-la. Jaci vivia em pânico e a filha do casal, tudo percebendo, acreditou nela, por sorte, mas em nada mudava a ameaça do homem e para piorar, sua mulher nunca estava em casa. Os muros da mansão eram enormes e era impossível fugir dali. Mas havia um pedaço do muro, que era um pouco mais baixo e dava para a casa vizinha. Jaci, então, conseguiu chamar a empregada do lado, que chamou sua patroa e elas ficaram sabendo de sua condição de prisioneira e resolveram ajudá-la. A vizinha arrumou outro trabalho para Jaci, no apartamento de uma senhora chamada Eva, na Avenida Angélica. Depois, ajudaram Jaci a pular o muro e finalmente, a liberdade conquistada outra vez. Era para ser livre, que Jaci tinha fugido. Por isso, doeu ganhar as estradas, passar fome por três dias, para chegar em São Paulo, saindo dos muros de sua mãe, para no fim, ser encerrada outra vez, em outros muros, como os daquela mansão assustadora. Sua nova patroa era uma ótima cozinheira. Acordava cedo, para cozinhar, sempre em fogo baixo. Jaci, tudo observava e nada, perguntava. Guardava cada gesto, cada aroma, cada tempero. Certa vez, sua patroa foi viajar para Israel, pois era uma família de judeus. O filho e o marido ficaram aos cuidados de Jaci. Quando estava próximo, o retorno de Dona Eva, Jaci preparou uma mesa linda, com todas as comidas, que ela costumava cozinhar. Ao chegar, sua patroa não entendia, pois nada tinha ensinado à Jaci:
- Mas, Jaci, quem te ensinou a cozinhar todos esses pratos?
- A senhora, Dona Eva. Eu vi cada coisa que a senhora cozinhou e guardei comigo.
Dona Eva chorava e Jaci, também. Não tinha sido Dona Eva quem lhe ensinara, mas Jaci, mesmo, que aprendera com os olhos. Acostumada à sua solidão e silêncio de lua, aprendia assim, com os olhos, sem nunca perguntar. Assim foi, que Jaci revelou-se a cada dia, uma cozinheira das melhores. Trabalhou muitos anos, na casa dessa família. Conheceu um dia, seu marido, seu amor, seu companheiro de uma vida toda. Lázaro, trabalhava como frentista de um posto. Logo, casaram-se e foram morar numa pensão, depois na Brasilândia. Tiveram seus filhos. Morando tão longe, Jaci demorava muito para chegar e Dona Eva, facilitou para que eles se mudassem para uma kitnet, no centro da cidade, para ficarem mais perto. Depois, a vida deu a Jaci uma oportunidade bonita. Ela e uma cuidadora de idosos, Hilda, tornaram-se muito amigas. Vendo o tanto que Jaci trabalhava, a nova amiga resolveu ajudá-la a conquistar seu próprio cantinho. Encontrou um apartamento pequeno e assinou as notas promissórias para Jaci, como garantia e assim foi, que ela conquistou a posse de um lugar seu. Mas há que custo? O apartamento só seria dela e da família, depois de pagas todas as promissórias. Jaci e o marido, quase se mataram de trabalhar. Eram dois, três, quatro trabalhos. Jaci passava roupas e começou a fazer salgados para os bares. Ela nem dormia mais. Passava a noite, fazendo os salgados. De manhã, bem cedo, entregava nos bares. Foi então, que ficou muito amiga da diretora da escola dos seus filhos, que era justo, a EMEI Monteiro Lobato. Isméia, sabendo do tanto que labutava, Jaci, conseguiu uma vaga na escola para ela, como cozinheira. Esse trabalho, Jaci amou, desde a primeira vez. Mas continuava limpando o apartamento de Dona Eva e ainda, limpando uma capela para as freiras. Levava seus filhos, nesses trabalhos extras. Com o tempo, aprendeu a fazer jantares congelados e tinha muitos clientes, nos prédios todos, por ali. Os anos foram passando, seus filhos crescendo e o trabalho, sempre ocupando todo o tempo. Um dos seus irmãos, acabou lhe encontrando e quis que ela voltasse e ocupasse sua terra, herança do seu pai, um direito dela. Jaci ,nunca quis essa terra, marcada pela dor da sua mãe e de tantas gerações passadas, de mulheres escravizadas, por gerações de homens brancos. Reencontrou sua mãe, mas já não havia uma mulher, só a dor e a culpa. Jaci a perdoou. Jaci entendeu que era assim, para tantas mulheres negras, desde sempre no Brasil e não eram todas, que escapavam da dor e da miséria. Jaci perdoou, mas era demais ficar perto, daquelas terras, daquela história e voltou para São Paulo, para a escola e seus pratos, que alimentavam, acalentavam, para sua cozinha, sempre tão afetiva, para perto do fogão que lhe esquentava o coração. Foi então que uma outra amiga sua, uma corretora, conseguiu um desconto muito grande num apartamento, que estava à venda. Jaci, vendeu o antigo, e ela e sua família mudaram-se para outro maior e melhor. E ainda, mudariam para um terceiro apartamento, mais bonito, grande, onde vivem todos, Jaci e os filhos, até hoje. Os filhos cresceriam bem, todos formados e sua neta, também. Ela e o companheiro Lázaro conseguiram educá-los bem, não esqueceram de passear, suavizar a vida dos pequenos, para que tivessem menos dores do que eles, menos tristezas para contar. Jaci é uma trabalhadora incansável, desse nosso Brasil. Ela deu a si mesma, a luz que lhe roubaram. Ela iluminou as noites da sua vida, com sua incansável doçura de ser Jaci, a lua. Jaci, desde que saiu de sua terra, a Bahia, passou muita fome, mas por quarenta anos, ela cozinhou para as tantas crianças, que entram e saem da EMEI Monteiro Lobato .
História de vida de Jaci
Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk

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