História 2 - História de José - "A saga de José"
Eram dois "Josés" e uma mãe. Certa vez, a mãe, cansada do marido violento, fugiu com os dois "Josés". Já combinada com uma amiga, tirou sofridamente, um José seu, dois pedaços seus, um de cada braço seu. José Antônio era um dos "Josés" e essa foi sua primeira e dolorosa separação, ao passo que outra, ainda estaria por vir. José Antônio foi criado, então, por um casal de fazendeiros, em Monte Santo, entre matos e caatinga, sem nada saber de seu outro irmão, José, e sua mãe de dois "Josés". Cresceu feliz. Gostava quando desciam a serra de Monte Santo, uma única vez por semana, era um acontecimento. Outro acontecimento foi começar a escola e ter uma professora só sua. Pois foi essa professora, quem um dia, indagou, José:
- José, por que seu sobrenome é diferente dos seus irmãos, da sua mãe e do seu pai?
José nem sabia o que dizer. Tal fato nunca lhe chamara a atenção. Nem conseguia entender o alcance daquela pergunta, que não era um detalhe, era a chave. Eis José com uma chave na mão. Mas que porta vai abrir, José? Eis que a professora, chama seu irmão mais velho, e ele conta toda a história que nunca contaram à José. José abriu uma porta dolorosa, que por um instante, ele desejou fechar. Mas José era corajoso e depois de abrir a porta, soube de tudo e tomou a grande decisão. José soube que a família que o adotara, que ele considerava tão sua, não havia mudado seu nome, para não dividir herança. Aquilo para José era demais. Tomou a grande decisão e mesmo sem cavalo, José galopou para bem longe. Tinha ouvido falar de São Paulo. Ele só tinha 15 anos e veio com a coragem e a solidão, e no bolso, a indicação de uma pensão de um conhecido do conhecido, que ficava no Brás. Essa foi a segunda e dolorosa separação. Quando em São Paulo chegou, quem disse que o dono da pensão aceitou hospedar um menino, um menor desacompanhado? Acontece que o dono da pensão ali não morava, sua casa ficava por perto. Então, depois de tudo fechado, lá foi o dono da pensão para sua casa. Os funcionários, com dó do menino José, correram atrás dele.
- José, forramos o chão da cozinha com jornal. Você dormirá na pensão, mas antes que o sol nasça, você precisa sair, José.
- E para onde vou? - disse, José menino.
- Fique na Praça da Sé, até quando a noite cair. Faremos um lanche para você, uma bengala com mortadela. É o que podemos oferecer, menino. Depois que a noite chegar e o dono da pensão for para sua casa, abriremos a porta e você poderá dormir no chão da cozinha.
O menino José aceitou, mas perdido ainda vivia. Nunca antes, tinha estado numa cidade tão grande, tão cheia de carros. E como é que se atravessavam aquelas largas ruas? José pensou que uma hora, os carros iam parar. Tinham que parar e assim, ele primeiro parou e esperou. Quando não viu nenhum carro sentiu-se aliviado e atravessou, mas de repente, apareceu uma kombi buzinando e quase o atropelou. O motorista reclamou:
- Não viu o farol?
-Farol? - pensou José. Farol de dia? Pois já não está tudo mais que alumiado pelo sol mesmo?
“Farol” para José era o lampião. Mas como nessa vida, tudo se aprende e é muito mais fácil um cabra do mato aprender a viver em cidade grande, do que gente de cidade viver na sabedoria do mato, José logo foi sabendo das coisas, porém continuava ali, na Praça da Sé, com a bengala de mortadela, que os trabalhadores da pensão compravam, fazendo uma vaquinha, todo santo dia e à noite, dormindo no chão da cozinha, sem banho e sem comida. Todavia, numa dessas tardes, na Praça da Sé, o coração de José acelerou de medo, um sanfoneiro que tocava na praça não parava de olhar o menino, José. E agora, José? Ele foi arredando para perto das escadarias e pensou em refugiar-se na igreja. O sanfoneiro, então, disse ao menino José:
- Mal eu não vou lhe fazer, menino. Pelo contrário, estou vendo que tu precisa é de ajuda. Se não tem que lhe dê essa ajuda, então, precisa mais do que depressa, voltar para seu pai e sua mãe, menino.
José olhou fundo na menina dos olhos do sanfoneiro e soube de algum modo, que ele lhe dizia a verdade.
- Olha, menino, disse o sanfoneiro, você precisa tomar um banho, comer. Venha comigo, em minha casa encontrará repouso.
José contou ao sanfoneiro que dormia numa pensão e que gostaria de voltar lá, para contar sobre a ajuda que ele lhe daria. E assim foi. Depois de tantos dias difíceis, José tomou banho, comeu uma comida boa, na rua 21 de abril, no Brás, onde morava o bom homem, tocador de fole. Mas à noite, José, ainda voltava para a pensão. Até que um dia, o homem que tocava sanfona, disse que ia arrumar um pai para José, porque ele, artista das estradas, não tinha muita parada. E José ganhou um pai, também chamado José. Seu José Augusto, mais conhecido mesmo, como Babazinho. José foi morar com José e agora, tinha uma porta para abrir toda noite, uma cama, uma janta, um trabalho e um norte. José foi trabalhar como office boy numa papelaria. Mas certo dia, um homem, vendo o ainda menino, José, ofereceu-lhe trabalho pelo qual ele receberia o dobro do que então ganhava, José, menino que era, aceitou, e nada contou ao Babazinho. Passou a trabalhar como metalúrgico, sem registro, sem nada. Foi então que ele machucou a mão e o homem que tudo prometera o mandou embora sem receber um tostão. Só então, Babazinho, soube do acontecido e foi ensinando ao menino, as espertezas da vida e dos caminhos. Foram tantos caminhos, que levaram José a outros trabalhos, ao casamento e muitos filhos, netos e bisnetos. Um trabalhador brasileiro, depois de muitas léguas, de bodas de ouro e partida dos seus, ainda trabalha. Então, José, depois de já ter perdido sua primeira esposa, de já ter tantos netos, bisnetos e de já ter encontrado, a Edna, seu amor, seu segundo casamento, ainda se perguntava: “e agora, José”? Você que é um trabalhador brasileiro, desde menino, José, trabalhando, ainda procurando trabalho, José?
Um amigo seu, indicou-lhe o trabalho de vigia. José, de primeiro recusou a sugestão, mas no fim, acabou por prestar concurso e tornar-se vigia de uma escola pública. E lá estava de novo, José, na escola. Essa escola era a Monteiro Lobato. José era sempre contador de causos e um dia, ali na escola, contou a uma professora da EMEI Monteiro Lobato, a sua história. A história da mãe de dois Josés. A vida, nas suas cruzadas é tão bonita, que assim como no grande momento da história de José, que deu início a esse conto que agora narro a vocês, foi uma professora quem chamou a atenção de José:
- José, pois você nunca tentou encontrar a sua mãe?
- Não, respondeu, José. Tal ideia nunca lhe ocorreu e nem conseguia compreender o alcance daquela proposta.
- Eu vou, então, ajudá-lo, José.
José mais uma vez tinha agora, uma chave e sabia bem, que porta poderia abrir. A professora chamava-se Perla, já tendo partido dessa vida, mas cumprira a promessa prometida. Procurou um programa de tv e de fato, o apresentador entrou em contato com José e começaram a procura. Depois de um tempo, ligaram para José e disseram:
- Achamos, sua mãe, José!
Tinham encontrado a mãe dos dois "Josés". Como ela já tinha 76 anos, disseram a José que não fariam o encontro ao vivo, pela tv, pois havia muita gente desencontrada numa grande fila da saudade e a mãe de José, sendo mais velha, não podia esperar. José respirou aliviado, pois era só o que faltava encontrar a sua mãe e ter que esperar em fila de saudade. José já não tinha esperado a vida toda? O primeiro encontro, ainda foi pela rádio. José chorava e a mãe também. Não se viam, mas podiam se ouvir. Ouvir a mãe já era tanto. A mãe só conseguia pedir perdão. Perdão, perdão. José já tinha perdoado. Uma vida separados e quando finalmente se encontravam, José nem se lembrava da dor, queria finalmente, sentir o amor da mãe dos "Josés". Logo mais, José, finalmente, viajou para Brasília, onde ela morava e foi conhecer sua mãe e seus quatro irmãos. A mãe não demorou a partir dessa vida, mas antes, conviveu muito com um dos seus "Josés". Seu outro José, também acabou sendo encontrado, porém, mais arredio ficou mais apartado. Mas o nosso aqui, José, aquele que jamais desiste, vez ou outra encontra seu irmão, José, que do nordeste nunca quis sair. José, ainda trabalha na EMEI Monteiro Lobato e continua contando a sua história, porque uma história é tudo o que se tem e como diz José, quem gostar de você só pode gostar pelo que você é e José, que é tanto, conquanto, vive pelo tanto que recebeu e deu, mas vive de pé no chão, no agora, não é, José?
História de vida de José Antônio
Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk
Link para escutar a narração da história de José:

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