História 3 - História de Adrienne - "Uma viajante sonhadora"
Diz que era uma vez, uma mulher sedenta por bem-viver. Estar bem no mundo para ela é sempre um direito e por isso, atravessou o oceano, numa mesma ponte já cruzada tantas vezes, do velho continente, o berço do mundo, mais precisamente, Camarões, para o Brasil, esse pedaço de América e cria de mãe África. Vinha cansada, pois em seu país, vivendo um governo autoritário, com o mesmo presidente, desde 1982, vivia o povo na maior desigualdade. Vinha cansada, mas esperançada, e, mal sabia ela, que não vinha sozinha. Deixara seu filho sofridamente com sua família, numa dolorosa separação, mas chegava ao Brasil, já acompanhada em seu ventre, de mais um menino. Disso, ela ainda não sabia, quando a sua história com o Brasil começou, em 2014. Essa é a história de Adrienne, que primeiro foi trabalhar num restaurante africano, quando aqui chegou. Quando deu-se conta do filho querido, em seu ventre, ainda precisou escondê-lo, para não perder o trabalho. Lágrimas lhe escorriam, mas até que por fim, elas secaram, pois Adrienne compreendeu que o filho era a grande benção. Com o filho, ela teria a documentação e não viveria mais ilegalmente no novo país. Era um novo país, mas o engraçado é que tudo que tinha em Camarões, aqui também, Adrienne encontrava. As mesmas frutas, os mesmos alimentos. Mas tudo era usado de outra maneira, o que tornava tudo muito diferente. De menina, Adrienne carregava o sonho de ser médica. Mas em seu país, estudar ainda não é gratuito para ninguém. É preciso sempre, pagar pela escola e estudar medicina era quase impossível. Aqui no Brasil, Adrienne precisou contar muito com o apoio da sua família, que para lá do Oceano a ancorava, pois como conciliar o trabalho com um filho, sozinha? Tendo, Anderson, seu filho, ficado doente certa vez, foi mandada embora do trabalho de camareira, sem mais explicações. Sobre isso, sabem muitas mães do Brasil e de todos os lugares do mundo. Adrienne é uma mulher corajosa e a semente do bem-viver estava ali guardada, ancorada em sua alma. Não secará jamais, disso ela sabe. Pois foi ser professora de francês. Aprendeu a tomar gosto pelo ofício de ensinar e também, conseguiu fazer um curso de enfermagem. Ser enfermeira em seu país, que carece muito de profissionais da saúde, será muito valioso. Essa mulher, então, guarda o sonho de voltar para Camarões e ser enfermeira, mas não somente isso, ela quer que seu trabalho e de outros trabalhadores da saúde, da educação, sejam oferecidos gratuitamente, pois não sai de suas entranhas, o fato de que saúde e escola é direito, não se pode pagar pelo que nos é devido. No seu sonho de menina-mulher, Adrienne consegue ver direitinho um centro de cuidados, uma escola, um parque bonito para que as crianças possam brincar. Só fechar os olhos, e ela escuta os burburinhos das crianças, a vida, brilhando nos olhos, quando as pessoas são cuidadas com humanidade. Enquanto isso, ela vive no Brasil, em São Paulo, guardando tesouros numa mala cheia de conhecimentos, que em seu país vão virar cuidado humanizado e direito de ser humano, de estar bem no mundo. Direito de bem-viver. Quem encontrar Adrienne por aí não enxergará a mala, mas ela anda cheia, sem jamais pesar, porque é feita de vento, carregada por quem quer espalhar e não guardar para si. Sabedora de sua história, pois em solo africano todo mundo sabe e muito bem, o valor de uma história, ela conta muitas histórias para o Anderson, quer dizer, talvez, é ele, quem conte para sua mãe. Em Camarões, as histórias são guardadas pelos velhos, pelos avós e avôs e eles não vivem nas cidades grandes, moram em lugares onde tudo ainda é manual, tudo ainda é feito tradicionalmente. Esses lugares são chamados “villages”. Quando uma criança não pode ir à escola, ela ainda têm os avós, que são os guardadores de histórias e as contam embaixo de pés de manga. Adrienne não conviveu muito com os avós, viveu sempre em cidade grande e foi à escola. Porém, ela carrega sua história de vida como um tesouro e os pés de manga são recriados pela vivacidade de Anderson, seu filho, brasileiro, que quer ouvir histórias e que conta histórias, toda noite, antes de dormir. Eu que conto a vocês essa história, só porque escutei a Adrienne contar, posso dizer, que embora, ela pouco tenha convivido com os avós contadores de histórias, seus olhos brilham quando ela fala de uma história, ainda mais a sua. Ela sabe que já viveu só uma parte da sua história e que ainda tem muito para contar. Essa sua mala de viajante sonhadora, onde estão tesouros de conhecimento, quando for aberta vai causar um pé de vento e por onde ela passar, as coisas vão mudar.
História de vida de Adrienne
Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk
Link para escutar a história de Adrienne:
https://youtu.be/2dKA_fKDgB0

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