História 4 - História de Mafoane Odara - "Da raiz até à lua"


                                                               



  Diz que era uma vez, uma menina que nasceu com alma de astronauta. Ela viajava por lugares que ninguém tinha ido antes. São lugares dentro da gente mesmo, que poucas pessoas chegam, talvez por falta de alma perguntadeira ou de um empurrãozinho. Essa menina tinha muita vida vibrante à sua volta e incentivo, vinha como o sangue que corre nas veias. Sua mãe estava sempre pronta à ir para Marte se preciso fosse, para lutar por um mundo melhor, principalmente pelas mulheres negras e todo o povo negro e por toda injustiça, que por um acaso atravessasse o seu caminho. Seu pai também. Os dois, pai e mãe, ajudaram a fundar o Movimento Negro Unificado, e, inspirados pelos Pan-africanismo, vestiam roupas africanas típicas, usavam cabelos nas mil e uma possibilidades do cabelo negro, jamais aceitando a imposição do cabelo raspado ou alisado e colocaram nomes africanos, em seus filhos. Foi assim, que chegou ao mundo, essa menina da nossa história, com o nome de Mafoane Odara, que significa, joia rara e bonita. Os pais pareciam já predizer o futuro da menina, pois se não é uma joia rara e bonita, a pessoa que não só fica descontente diante das injustiças, mas que consegue insuflar nas pessoas e no mundo, a semente da mudança? Uma mudança real, no coração e na vida, que tira cada pessoa da inércia e a põe em movimento, direto para a lua e até para Marte, caso ela queira, pois não foi dito no começo dessa história, que Mafoane queria ser astronauta? Ela sabia, desde menina, lançar foguetes cheios de perguntas, de ideias que movimentavam o mundo, que faziam as pessoas mudarem de rumo e assim, no seu maior sonho de menina, ela ia fincando bandeirinhas. Fincar bandeiras era quase genético, na sua família de ativistas. Toda essa gana de lutar, nascia também, do tamanho da injustiça racial que sempre existiu no Brasil. Lutavam, não só porque tinham nascido com essa gana, mas porque sofriam com o racismo, todos os dias. Quando ela era um bebê, todos da família foram para Angola. Seu pai foi fundar escolas e sua mãe, dar aulas. Por causa da guerra, as salas começavam cheias e terminavam vazias. Mafoane foi crescendo ali, junto de sua mãe, dentro das salas de aula. Aos seis anos, estava de volta ao Brasil.  Aqui ela foi sentindo o racismo, a cada dia, nas escolas públicas ou particulares pelas quais ia passando. Num dos colégio em que estudou, de freiras, certo dia, ela foi enviada à diretoria por estar de batom rosa. Mafoane não estava de batom, rosa, era a cor natural dos lábios da menina negra, que ela era. Aos dez anos, nossa pequena astronauta das almas exploradoras, cansou-se do racismo que sofria na escola e do quanto era estigmatizada pelo seu cabelo. Com o apoio da mãe, sempre pronta para lutar, Mafoane iniciou um  movimento de protesto que parecia pequeno, mas constante e cheio de determinação, foi provocativo o bastante, para tudo mudar. Tratava-se de ir à escola a cada dia, com um penteado diferente. Restavam ainda, para que aquele ano terminasse, 180 dias letivos. Pois foram 180 penteados diferentes. Mafoane transformou a sua realidade pela raiz dos seus cabelos e tocou na raiz dos problemas do Brasil: o racismo. Dali em diante, lutar, trabalhar, viver a partir dessa raiz foi sua toada. Ela tinha esse dom, de buscar a força da raiz, mas não ficava no chão, o que já seria muito bom, ela de fato tocava a lua. Da raiz para a lua, a menina-astronauta tinha o dom de mudar pontos de vista e realidades, pois carregava o universo como horizonte, infinito em possibilidades e ia traçando pontes, por onde passava. Foi assim que descobriu-se ativista, onde quer que estivesse. Quando tornou-se mãe, sempre ia trabalhar com sua filha. As pessoas ficavam incomodadas, sentiam um grande estranhamento. Por que ela não deixava a filha em casa, na creche, com a avó? Foi assim, que Mafoane fez até o palácio de Brasília, adaptar o banheiro para receber uma mãe e seu bebê. Aconteceu no "Conselhão", órgão criado pelo Lula e que vigorou nos governos posteriores, quando Mafoane então participou, compondo a ala representante da sociedade civil, na discussão das políticas públicas. Sem a presença de Mafoane e sua filha, talvez, nunca alguém tomasse consciência de que muitas mulheres que trabalhavam ou passavam por aquele espaço, eram mães. De forma odara, Mafoane vem assim, lutando para abrir espaços emocionalmente seguros nas relações de trabalho e por isso, tornou-se psicóloga, mas sempre ativista, é porta-voz das desigualdades e das violências cometidas contra as mulheres, principalmente, mulheres negras. Assim, nomear as violências, equilibrar as relações de poder, construir um mundo mais justo são bandeirinhas que ela segue fincando. Bandeirinhas difíceis de fincar. Muitas são arrancadas, certamente. Mas o vento, sempre espalha as bandeirinhas arrancadas, e, elas sempre deixam um ponto marcado, uma joia bonita, que da raiz até à lua, poderá ser vista, pois não é, Mafoane Odara?




História de vida de Mafoane Odara

Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk



Link para escutar a história:

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