História 5 - História de Elanine - "Doces janelas de memórias"
Diz que era uma vez, uma moça-mulher que nunca em seu caminho, havia encontrado alguém com nome igual ao seu. Elanine, era esse o seu nome, que fazia a moça-mulher sentir-se a única. Também pudera, sua força vinha das águas de sua caboclinha, mãe Francisca, que a vida levara antes de sua filha, Emilly, nascer, já em terras de São Paulo. Pois, Elanine, saíra de Simplício Mendes, no Piauí, aos dezoito anos. Nascida em casa de telha de barro sem forro. Casa assim, têm aquelas em que a parede vai até o forro e têm aquelas, em que fica um vão. Um vão onde se ouve tudo. Casa que não guarda segredo jamais. Aliás, nem nas ruas é possível guardar segredo. As conversas acontecem no pé da parede, que dá para a calçada. Até hoje, quando Elanine chega na casa de seu pai, de manhãzinha, ela escuta na parede da calçada: - "Coisa boa, compadre, sua filha chegou lá de São Paulo?" Em Simplício Mendes, mesmo quem vive na cidade, acorda cedo com as conversas debaixo da janela . Falando em janela, certa vez, Elanine, moça-mulher danada, pulou a janela, à noite, e não era para se dar esse acontecimento, pois o pai, homem mais danado que a filha, havia pensado em tudo. Quando do erguimento da casa, botou janela no quarto do filho, mas não no quarto das filhas. Era o medo que elas pulassem a janela. Mas quem disse que Elanine não pulou? Ora, bastava ir ao quarto do irmão e pronto, um pulo só e já estava na praça. Mas na volta, o chicote de cavalo, a moça-mulher conheceu. Elanine em São Paulo, não era de janelas, pois a cidade grande não tem respiros. Janela de cidade grande não dá em lugar nenhum. Às vezes, o barulho tranca as janelas, mas quem disse, que mais uma vez, Elanine não encontraria a sua? Era uma parede inteira de janelas, na casa de Elanine. Eram janelas de memórias, penduradas em muitos porta-retratos na parede da sala. As fotos nas paredes, essas sim, davam para um lugar. Um lugar cheio de histórias. Dos piqueniques de adolescentes, lá no Piauí, só para namorar. Mas namorar naquela época? Era brincar junto, de olho brilhante. Era só. Debaixo de um pé de manga. Nessas janelas, Elanine, vê passar as chuvas e uma turma de adolescentes saindo de casa para tomar banho, rindo pelas ruas. Em algumas casas, saíam uns canos que corriam água feito cachoeira, a turma se fartava debaixo das biqueiras. Dessas janelas-fotos, dá para ver as vaquejadas, festas que duravam quase dois meses. Na cidade, chegavam vaqueiros de todos os arredores. Tempo bom para namorar. Mas namorou pouco a moça-mulher, logo, chegou em São Paulo, onde estudou radiologia e começou a trabalhar como doméstica. Trabalhou para uma família, no começo, para cuidar do filho, uma criança com autismo, e, como herdeira das doçuras de sua mãe, Francisca, cuidou tanto, desse menino, que o tempo passou e ele, virou um moço feito, que já nem precisava mais de cuidados. Então, quem sabe, Elanine não poderia continuar cuidando da casa? Assim foi, tudo feito para que Elanine não fosse embora e recebiam a Emilly, sua filha, sempre que fosse preciso. Que Elanine pegasse sua bolsa, no fim do dia, para namorar as janelas de ônibus e trens, do centro de São Paulo até Osasco, mas que não partisse jamais. Elanine quando menina, batia o pé e fazia birra, porque queria ir à praça conversar, o pai lhe dizia que só depois de servir café para as visitas. Elanine vai assim, aceitando esse trabalho e ficando, para servir mais um café, mas sente orgulho disso, pois vinte anos num só lugar, é carinho de um lado e de outro. Nascida das águas doces de sua mãe caboclinha, Francisca, Elanine sabe ser ponte. Sabe navegar do centro de São Paulo até Osasco, junto da filha, Emilly, todo dia, pois tem sua parede de fotos para abrir horizontes quando finda o dia. Feito namoradeira, fica a olhar suas janelas doces de memórias e cheiros das comidas de sua mainha e um dia, ela até me disse: "entre trancos e barrancos, estou aqui, contando minhas história e eu nem sabia que tinha uma história pra contar". Pois, foi bem assim.
História de vida de Elanine
Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk
Link para escutar a história de vida de Elanine:
https://www.youtube.com/watch?v=-gv7n23lyzM&t=327s

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