História 6 - História de Omo Afefê, o filho do vento, soprando sua família
Essa na verdade, é a história de uma família, que começou com um sopro, de Omo Afefê, filho do vento. Como o vento sempre quer se espalhar, Omo Afefê, espalhou o seu amor e fez da sua família, o ar, que lhe enche o peito e as rimas que sopra em batalhas de rap. Diz que o nosso vento, quando era só um ventinho, nasceu menina, numa família empoderada de sua negritude, na periferia de Taboão. Mas todo mundo sabe bem, como vive uma família negra na periferia do Brasil. Tudo era muito precário, o que tornava a vida muito difícil. Mas nem por isso, a família do nosso então, ventinho, deixava de viver na beleza. Tinham vento nos pés. Seus pais dançavam samba rock no bailes blacks. Sua avó era dos bailes de carnaval. No entanto, eram outros tempos e a vida de tantos casais era sempre permeada por muito machismo, como é ainda hoje, só que antes não havia muitas discussões sobre isso. Antes, as violências não eram nomeadas e o amor acabava sendo confundido com abuso. Nosso vento, que ainda vivia sendo menina, com 13 anos, certo dia, foi assistir a uma batalha de rap. O organizador olhou para Omo Afefê e viu naquela menina, algo inusitado, e, disse a ela:
- Venha para a batalha! Não tem nenhuma mulher pra rimar.
Venha para a batalha, parece que era de fato, o mote de Omo Afefê. Ele está sempre indo para a batalha, não para vencer ou destruir, mas para espalhar liberdade e diversidade. Nosso ainda ventinho, sendo a única menina, foi para a batalha enfrentar o melhor Mc daquele pedaço. Perdeu, é claro. Mas na verdade, não, porque aprendeu o gosto da rima e mesmo querendo fugir à sina da sua família, naturalmente musical, a batalha da música começou a conduzir esse vento, onde quer que ele soprasse. Com 13 anos, começou a fazer rimas e com 13 anos já era a melhor. Nosso vento, aprendeu a assoviar rimas contundentes. Essa menina, mais tarde, teve um menino e continuou espalhando tempestades de rimas, com o filho na barriga. Nascido, seu menino, com um mês, já estava junto da mãe, gravando no estúdio. Mas aconteceu, que nosso ventinho, que de brisa, agora já era tempestade e vendaval, uma mulher-mãe, percebeu-se no mundo como homem trans. Deixou então, aquela pele de mulher cis e vestiu-se da pele de sua alma. Colocou-se no mundo, como homem trans, na verdade, binário, mulher cis e homem trans. Veio um vento bom, daqueles que até espalham cheiro de flor, pois é quando alma e corpo entram em sintonia. O pequeno Malcom, sentiu o cheiro bom do vento, olhou nos olhos da sua mãe, que agora seria um pai e ninguém sabe direito o que pensou. Escutou seu nascido pai e abriu os braços para ele. Seria bom ter um pai presente, porque um homem trans, sabe bem o que é ser mãe, sabe na pele. E foi um grande espanto no mundo, pois, Omo Afefê, mostrou por onde soprou, o que é ser um pai, totalmente presente. Um pai que gesta. Isso é coisa que nunca se viu e as pessoas ficavam enternecidas, com aquela dupla, de filho e pai. Porém, quando muitos percebiam que aquele pai era trans, a conversa, em grande parte, mudava de tom. Lá vinha o preconceito.
-Que irresponsável! Vai dar um nó na cabeça do filho!
-Um pai trans vai criar um outro pai trans e o mundo ficará sem a família!
A tal da família cis, sempre e obrigatoriamente cis, carcomida por tantos preconceitos, onde a violência se fantasia de amor, tantas e tantas vezes. Essa não era mesmo a família de Omo Afefê. Seu filho, seu menino, compreendeu naturalmente, como toda criança que enxerga alma e não documentos. O que importava era que seu mais novo pai era um amor de pai e o enchia de orgulho. Malcom queria fazer rimas como as do pai.
A vida seguia assim, quando o amor veio de novo, bater na porta dessa família. Matusa, um dia, encontrou Omo Afefê, mas já o conhecia, de escutar as suas rimas. Matusa escutava os assobios de vendaval de Omo Afefê e quando um encontrou o outro, o amor quis fazer ninho, soprando uma brisa quentinha. Matusa era uma mulher trans. Nascida em Minas, tinha sido expulsa de casa, aos 14 anos, por declarar-se trans, por ser apenas o que ela podia ser. Foi condenada mais uma vez, pela ideia de família, que pesa no corpo de tanta gente. Matusa foi ser o que ela era, sendo aprovada ou não, pois não é isso apenas, o que cada um pode fazer nessa vida, ser o que se é? Ela foi tornar-se a primeira mulher travesti a presidir uma Ong. Foi abrir caminho para que pessoas trans possam ser reconhecidas em cartório. Dando a mão a tantos outros, para que jamais desistam de seus direitos. E assim foi, que também deu a mão a Omo Afefê, para que em 2019, ele fosse reconhecido em cartório, como homem trans, pai de Malcom. Foi quando o amor de Matusa foi aceito também por Malcom, e, ele ganhou uma mãe, uma mãe trans. Pai e mãe trans, nessa família totalmente prenhe de feminino. Pois talvez, seja de feminino que a família tradicional e o mundo todo esteja tão carente. Um homem mais feminino e uma luta da mulher, menos masculina e mais feminina. Essa família, que começou com o sopro de Omo Afefê, segue essa melodia, a do feminino, do cuidado e do amor. Malcom é um menino feliz, pois como não seria, se tem amor e além da mãe, Matusa, um pai que gesta e está sempre ao lado? Omo Afefê, seu pai, já percebeu que Malcom será um homem cis, o que põe abaixo as teorias transfóbicas de que famílias trans seriam uma ameaça, pois uma criança ficaria totalmente confusa quanto à sua presença no mundo. Crianças são caminhos abertos e límpidos, o que pode poluir esse caminho é a falta de amor e a violência. Apenas isso é pedra no caminho de criança.
Essa família bonita era um grande sonho de nosso vento e foi recebida como brisa na EMEI Monteiro Lobato, onde o pequeno Malcom estuda. É uma família passarinheira. Passarinhos sabem andar em bando, mas também sabem afastar-se e ficar sozinhos, apostando seu pouso em outras árvores, ainda nunca antes avoadas. Omo Afefê e Matusa souberam voar para longe do bando e pousaram em árvores que ninguém queria e souberam esperar pelos frutos, pelas flores e pelas sementes que agora, já podem espalhar. Quando essa família passa, muitos nem chegam a perceber que se trata de uma família trans. Passam por uma família cis. Já outros olhares, logo os reconhecem como trans e querem a distância, o embate. Isso cansa, às vezes. Omo Afefê, às vezes, só queria ser brisa, mas precisa ser tornado e tempestade, para que sua família possa caminhar. Omo Afefê, às vezes, só queria sair um pouco dessa linha de frente e ver o mundo um pouco mais amoroso, mas essa semente de amor, ele sabe que está plantada em Malcom, um menininho que nem sabe o que é preconceito. Desconstruir para construir outro mundo, outra família. Afastar-se do bando para ser possível fazer um outro ninho. Mas o sonho será sempre, ser possível estar e não estar com o bando, ser o que se é, com o bando ou sem o bando.
Sopra, sopra o vento e segue Omo Afefê, com Matusa, segurando as mãozinhas de Malcom, só porque se amam, pois não é segurando as mãos, que se anda com o amor?
História de vida de Omo Afefê
Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk
Link para escutar a história de Omo Afefê:
https://www.youtube.com/watch?v=pCI-8_i5sMI&t=8s

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