História 7 - História de Adriana - "Aquela que sabe, por que, não?"

 



  Diz que era uma vez uma menina que morava na roça, em Campos Gerais, das Minas Gerais. Adriana era o seu nome. Ela tinha um desejo: andar sempre de salto. A mãe emendava:

- Salto no chão de barro? Na roça não tem jeito, menina.

  Mas Adriana era daquele tipo de menina que sempre pensa: "Por que, não?". Se salto ela não podia usar na roça, seu salão de beleza ela ia começar era ali mesmo, debaixo do pé de laranjeira, porque aos dez anos, ela já sabia fazer tranças e pintava unhas, todos os sábados. Tinha muitas clientes e com o dinheiro do seu trabalho, comprava os cadernos da escola. "Por que, não?" Meninas do tipo "Por que, não?"  têm sede de caminhos nos pés. Ainda mais Adriana, que queria andar sempre no salto. Se no barro não era possível andar de salto, então, já crescida, chegou a hora de partir. Partiu para São Paulo. Adriana tornou-se cabeleireira, como sempre tinha sido, desde menina, e continuou a labuta de embelezar o mundo. Antes, ela teve seus sapatos de salto e não somente um, mas 32 pares. Tanto sapato assim, vinham de sua própria fábrica de sapatos, dela e de seu primeiro marido. Era só escolher a forma e lá vinha o sapato. Por que, não? Para quais caminhos levariam tantos sapatos? O primeiro e lindo caminho foi o nascimento de sua filha. Mais tarde, veio a separação e Adriana, não sentiu medo nenhum em deixar todos os sapatos para trás, pois os pés eram seus, livres, para traçar outros caminhos. O segundo caminho foi um segundo amor, um segundo casamento e o nascimento de seu menino, Pedro. Infelizmente, um erro médico, fez com que Pedro nascesse com uma paralisia, que o tornou cadeirante. Mas desde esse instante, Adriana compreendeu que Pedro "está" cadeirante e não "é" cadeirante. Naquele momento, Adriana desejou de todo coração, não ser uma mulher inteligente, mas uma mulher sábia. Só esse desejo já era a semente da mulher que sabe. Parece que Adriana sempre foi aquela que sabe. Adriana, aquela que sabe, quando se viu diante de seu menino, Pedro, não viu paralisia e até hoje não é isso o que ela vê, pois ao parir seu filho, ela aprendeu a ver com os olhos de dentro e a escutar com o coração. Adriana, aquela que sabe, só via um bebê, seu filho, e a cada fala dos médicos, de que tudo era limitado, limitante, ela apenas escutava, mas não acreditava, porque a menina que ela tinha sido, ainda estava ali e a menina era aquela que perguntava: Por que, não? E assim, Adriana ia colecionando perguntas: Pedro não vai poder comer sozinho? Por que, não? Pedro não vai desenvolver-se mais e mais? Por que, não? Pedro não pode aprender mais? Por que, não? Pedro não pode ir à escola? Por que, não?  E jamais deixou guardada a grande pergunta: Pedro, não vai poder andar? Para essa pergunta, ela nem espera a resposta, pois aquela que sabe, não soube sempre, que Pedro "está" cadeirante, apenas "está", pois já não deu seus primeiros passos? Adriana era sabida, desde menina. Queria tanto andar de sapato de salto, porque no fundo, ela sabia que jamais perderia a elegância e a visão de quem olha de cima, não para "ser" mais, mas para "ver" mais. Adriana, aquela que sabe, já tinha colecionado tantos sapatos, como quem coleciona pés, pés para seu filho, pois se andar ele não poderia, por um tempo, ela e o pai de Pedro, seu companheiro, seriam os pés do menino. Pedro é um menino que tem muitos pés e pernas. Pés e pernas da sua irmã, pés e pernas do seu pai e pés e pernas da sua mãe. Pedro é um menino que "está" cadeirante, que vai à escola como toda criança. É um menino feliz. Adriana, sua mãe sempre se pergunta:

- Por onde andam, os meninos que "estão" cadeirantes, as meninas que "estão" cadeirantes, que não estão na escola? 

  Os pés de Adriana, ainda que sem salto alto, mesmo quando descalços, parece que, naturalmente, posicionam-se na elegância daquela que sabe, e, plainam do alto da sua empatia, é quando Adriana enxerga a mãe de todos esses meninos e meninas que estão cadeirantes. Lá do alto, de sua elegância de mulher que sabe, ela sente as mães cansadas, sem apoio, principalmente de um companheiro, diferentemente dela e de Pedro, que tem um pai que é seu abraço, suas pernas, seus pés e sua alegria. Mães que pouco conseguem cuidar de si e Adriana olha e sonha, em ser o apoio dessas mães, ser o colo de cada uma delas, por que, não? Ser a advogada delas, por que, não? Ou quem sabe parar e arrumar seus cabelos, embaixo de um pé de laranja, como fazia quando menina, junto de suas amigas, por que, não? Adriana, ainda não sabe muito bem para onde vai esse sonho de dar uma mão, duas mãos, três, quatro, para todas as mães cansadas, que empurram as cadeiras dos filhos em chãos esburacados e com os olhos de pena do mundo ao redor. Tudo que Adriana mais quer é que substituam os olhos de pena por olhos de, "pois, não"? 

- "Digam as mães e as crianças do que necessitam e todos, nós, que em sociedade vivemos, faremos nossa parte para amenizar os chãos esburacados, abrir as escolas e tudo o mais, que só a pele de mãe pode saber e assim, indicar a todos nós."

-" Digam, mães, é um direito, não é pena, digam, por que, não?"

 Ah, aquela menina que a Adriana foi, ela vive e sonha, do mesmo jeitinho, sempre perguntando, "por que, não?". Ela vai mudando a realidade de Pedro e deixando sua vida cada vez mais humana, porque é um direito desse seu menino. Ela vai vendo sua filha estudando engenharia, crescendo nesse pé de sabedoria, porque Adriana sempre foi e é, aquela que sabe, uma mulher sábia, de pés que não se cansam.



História de vida de Adriana

Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk



Link para escutar a história de vida de Adriana:


https://youtu.be/AKYM-DX4uhQ


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