História 10 - História de Greice

 






Essa é a história de uma menina, hoje mulher, chamada Greice, filha do meio, abraçada sempre pelo irmão caçula e pelo mais velho. Sua narrativa é quase um conto de fadas. Toda princesa ou príncipe, no mundo das histórias, precisa passar por uma jornada, vencer uma prova. Para isso, contam com objetos mágicos, que vão surgindo pelo caminho. As provas pelas quais passam esse príncipe ou princesa, começam quando algo se rompe e terminam, quando um tesouro é encontrado ou um nó é desfeito, pela nobreza do coração. Portanto, preparem-se, pois nossa valente princesa irá começar a sua jornada e quando chegar ao mar, ela terá encontrado um grande tesouro. Diz-se então, que nossa valente princesa, morava no fundo do bar, de seu pai. Ali, reuniam-se tantos homens, como cavaleiros na taverna, sempre a tomar mais uma e a brindar pela vida ou pela desdita. Enquanto os homens brindavam, mais a amargura do que a alegria, Greice, seus irmãos e tantos primos brincavam no fundo do bar, onde ficava o pequeno castelo dessa nossa princesa. Era uma casa para seus irmãos, seu pai, sua mãe e sua avó, a grande matriarca. Pela presença da avó, é que a casa vivia cheia de primos, tios e tias  A fada dessa história, a que trazia magia, era a mãe de Greice, que tinha a alma de educadora, mas que depois do casamento e com os filhos, havia abandonado esse sonho. Conquanto, com os filhos, vivia a lecionar e a brincar no quintal. Os filhos, por sua vez, sentiam imensa alegria com isso, e, nem se davam conta, de que os pais brigavam muito. Afinal, o pai de Greice, punha abaixo, as contas do bar, quando bebia, mais do que servia. Tinham vivido com muita fartura, até então, pois tudo que se cozinhava para o bar, também era servido para a família. Quando tudo começou a afundar, o pai de Greice resolveu ser caminhoneiro. Comprou um caminhão e ganhou as estradas. Ele era bom em abrir caminhos, mas depois, ficava perdido nas encruzilhadas e lá se ia sua fortuna, restando apenas a desdita. Foi quando veio a ameaça de despejo. O tio, irmão da mãe de Greice, preocupado com a matriarca, resolveu levá-la para sua casa. A avó quis levar os netos, a filha, mas não permitiu que seu genro, o pai de Greice, acompanhasse a comitiva, para tristeza dela e dos irmãos. Seguiram os três amorosos irmãos, entre eles, bem no meinho, nossa pequena Greice, mais a mãe e a avó. Aqui, deu-se início a um rompimento e a necessidade de nossa pequena princesa, descobrir suas melhores qualidades, para atravessar florestas escuras, assustadoras e desertos de dor, até chegar ao mar. A matriarca foi acomodada na casa do tio, e, para o espanto de Greice, seus irmãos e a mãe, foram encaminhados para o jirau, o mezanino, de um grande salão, onde o tio administrava uma fábrica de estátuas religiosas. Nesse salão, iam sendo enfileiradas as imagens de santos e orixás, nos mais diversos formatos. Algumas eram quase do tamanho de um homem alto e as menores, ficavam em prateleiras, nos mais diversos formatos, desde as que se podiam guardar no bolso, até as que se podia admirar de longe. Era quase como um exército de estátuas. Um exército de barro milagreiro. Mas era assustador demais. Quando a luz era apagada, o temor invadia o coração de Greice e seus irmãos. Era como se atravessassem uma floresta das mais escuras e como se pudessem ouvir barulhos nas moitas, de onde brotavam olhos e mais olhos de barro, de todos os tamanhos. Em algumas histórias, já muito narradas, pai e mãe, como mais velhos e sabidos, dão o conselho de se carregar consigo, tudo o que lhe assustar o coração. Parece que Greice, carregou com ela, esse exército de barro milagreiro. Esse momento, parecia um pesadelo, mas eram os objetos mágicos do caminho de Greice, nossa valente princesa. A vida no jirau era triste, ela e os irmãos e a mãe, viviam como uma ninhada de gatos borralheiros. Greice e os irmãos, porém, tinham seus dias de abóbora. A fada agora, era o pai mesmo, que apesar das imensas dificuldades, quando vinha buscar os filhos, trazia alegria e magia, para dias tão assustadores, levando-os para passear. Os mortais não conseguem viver por muito tempo, entre deuses e deusas, portanto, logo surgiu outra morada para Greice, os irmãos e a mãe, longe da "santaria". Abandonaram a floresta de estátuas. Venceram a primeira prova do caminho. Mais uma vez, acompanhando a avó, foram morar num apartamento, desses mais antigos e espaçosos, que um dos tios havia alugado para sua matriarca ficar bem alojada. O estranho é que a avó, não quis ou não pode ser a velha boa das histórias, que nos conforta o coração com narrativas e pão quentinho e escolheu ser quase uma madrasta. Greice e seus dois amorosos irmãos, a mãe e a avó, desfrutavam agora de um apartamento inteiro para eles. Porém, como foi dito, a avó de Greice, resolveu viver na sombra de seu coração e declarou que os netos não podiam sair do quarto. Viviam como prisioneiras as três crianças, mais uma vez como uma ninhada de borralheiros. Greice, uma menina ainda, cuidava do irmão caçula, cozinhava para ele, o pouco que tinham para comer, pois desfrutar da dispensa também não era permitido pela avó. Os três irmãos sentiam muita fome e lembravam saudosos o reinado do bar do pai, cheio de alegria e fartura. À noite, outra vez, os três irmãos amorosos passavam grande temor, pois a mãe começou a trabalhar como recepcionista na Santa Casa, no horário da madrugada. As três crianças tinham medo de que acontecesse algo com a mãe. Quando ela enfim, chegava, dormia para descansar e os três, sozinhos ficavam, proibidos de circular pelo apartamento da avó. O tempo passou, a barriga dos três irmãos amorosos quase sempre vazia, a mãe a dormir de dia, como bela adormecida de cansaço e tristeza e a vida,  no seu emaranhado de fios, achou por bem, cortar o fio da avó, que partiu. Acabava a segunda prova. Greice, os irmãos e a mãe foram morar com o pai, na periferia do Jaraguá, num quarto, cozinha e banheiro. Nossa, mas como ali foram bem mais felizes. Greice e os irmãos, sabiam que os pais já tinham perdido e gastado todo o "felizes para sempre", mas ao menos, eles riam, eles comiam e muito. Viviam como os camponeses, numa cabana simples, mas a floresta agora, era mais encantada e acolhedora. O pai de Greice fazia questão de que os filhos estudassem. Nada de trabalhar, deviam estudar. No entanto, o pai, de nossa valente princesa, não conseguiu esticar mais o seu já gasto fio de vida, pois a doença havia lhe roubado a seiva. Num triste 31 de um dezembro, dolorido, ele partiu. O ano terminou, um outro começou e não havia mais um pai, naquela pequena casa. A mãe de Greice, entrou numa profunda depressão. Greice e os irmãos, então, precisaram trabalhar para comer e viver, pois a mãe de novo, queria dormir, como a bela adormecida. O sangue na roca da vida, tinha machucado o seu coração e ela não queria ver o dia. Com muita dificuldade, Greice havia cursado o magistério, depois havia parado, até que concluiu. Trabalhou, assim que o pai morreu numa papelaria, depois conseguiu ser auxiliar de classe, numa escola pública. Foi então que a mãe teve câncer e tudo ficou cinza e difícil. Mas em todo caminho, de um príncipe ou princesa, existe um objeto mágico, lembram-se? O exército de estátuas de barro, as imagens de santo, de orixás eram um sinal. Aqueles olhos todos, sempre estiveram postos sobre Greice. Não tinha sido à toa, que ela havia morado junto de tantos santos e orixás, naquele jirau. Eis que num dia, dos mais terríveis, quando os médicos haviam dito a Greice, que chegava para a mãe, o fim da vida, em total desalento, ela entrou numa igrejinha, a primeira que estava no caminho. Buscava de novo aqueles olhos de barro, pois como simbólicos, carregam um infinito, que às vezes, precisamos mergulhar. Ela não tinha uma religião, mas achou que ali, sua alma podia descansar um pouco. Havia a imagem de uma santa no altar, que ela nem sabia o nome. O altar estava naquele dia, todo regado de vasos de rosas vermelhas. Greice fechou os olhos e começou a pedir que os céus lhe abençoasse, pois sem a mãe, ela não podia ficar. Quando abriu os olhos, todas as rosas haviam despetalado, cobrindo o chão de vermelho. Não havia uma rosa inteira. Todas as pétalas se soltaram. Gastaram-se as rosas, num milagre, de olhos de barro e de "santeria". A mãe de Greice, milagrosamente, curou-se e vive hoje, nos seus mais que belos 87 anos de fios desenrolados. Mas ainda falta à essa história, à chegada ao mar. No mar, não tem imagem de barro e nem igreja, mas lá vive uma grande deusa. Porém, naquele exército de estátuas, na fábrica do tio, haviam muitas estátuas dessa grande mãe dos orixás. Eram muitas as Iemanjás de barro, que já haviam posto seus olhos sobre a nossa valente princesa. Greice acha, que foi por graça de Iemanjá, que enfim, encontrou o seu tesouro, ali, na beira do mar. Ela estava noiva de um homem, que ninguém à sua volta acreditava que valesse a pena gastar seu precioso tempo. Cansada de tantas brigas, Greice foi visitar o irmão, que morava na praia. Bastou sentir o suor da grande Deusa, bastou respirar a maresia, para farejar o amor, bem ali, no meio da rua. Assim que chegou à cidade, para passar suas férias, conheceu o amor, que se fez manso e sempre pronto à velejar, por toda e qualquer onda. Greice encontrou seu companheiro, com quem vive até hoje, um amor enluarado de paz. Tiveram um filho e por causa disso, Greice conheceu a EMEI Monteiro Lobato. Primeiro, ela foi uma mãe, na escola. Depois, ela passou no concurso e entrou para a equipe pedagógica, onde trabalha, há vinte anos. Toda princesa ou príncipe, no mundo das histórias, precisa passar por uma jornada, vencer uma prova. As provas pelas quais passam esse príncipe ou princesa, começam quando algo se rompe e terminam, quando um tesouro é encontrado ou um nó é desfeito, pela nobreza do coração. Greice viveu muitas tristezas que poderiam ter-lhe contraído o coração. No entanto, diz-se que ela encerrou essa jornada de princesa e tornou-se uma mulher muito alegre e leve, desfez um nó e teceu lindos fios. E parece mesmo, que foi bem assim.



História de vida de Greice

Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk


Link para escutar a narração da história de Greice:

https://youtu.be/ahwXN6GrRbc


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