História 11 - História de Raquel - "Quando uma mãe também vai para a escola"
Essa é a história de Maria Raquel, mas ela gosta mesmo, de ser chamada de Raquel, para viver um capítulo bordado agora, em outras tonalidades, de barro, de tinta, de amor e de alegria, na companhia de seus dois meninos, Leonel e Thelmo. A "Maria Raquel" vive lá na sua infância, quando brincava junto com a Maria Carolina. Eram duas irmãs Maria, como hoje, são dois irmãos, Leonel e Thelmo. As duas Marias só não faziam ideia de que brincar tanto, juntas, havia perfumado a mãe que hoje, a Raquel tornou-se, de sorriso largo e que só deseja que os filhos sejam felizes. Raquel não sente a menor preocupação com o que vão ser quando crescer, os seus dois meninos. Apenas gostaria muito que eles sentissem o quanto viver é maravilhoso. Ela mesma, sentiu isso, assim bem grande, quando eles nasceram. Parece que os filhos perfumaram sua vida, com esse frescor de casa bagunçada, brinquedo espalhado, barro no pé e colo quentinho. Maria Raquel e Maria Carolina, quando eram meninas, sentiam que os pais não tinham planejado muito a chegada delas, ainda mais por serem eles, tão jovens. Talvez por isso, Raquel-mãe deixou-se levar por toda a bagunça que toda criança faz na vida da gente. Raquel adorou essa bagunça, esse tirar tudo do lugar para ver no que vai dar. As duas irmãs Maria, bagunçaram elas mesmas, suas vidas de menina. Mesmo morando em São Paulo, sempre tiveram contato com o interior, pois toda a família vinha de lá. Portanto, houve espaço para andar descalço, subir em árvore, estar a um passo de uma vaca. Os pais tiveram suas duas filhas muito jovens e não quiseram abrir mão de estudar, terminar a faculdade, trabalhar, o que comprometeu o tempo de estarem juntos com as filhas e bagunçar a vida. As duas Marias, então, viviam muito soltas, com asas sem tesoura nenhuma. As duas, como dizia a tia, irmã do pai, se bastavam. Elas haviam criado um mundo à parte. Só pediam de presente, brinquedos que se complementavam, porque elas haviam criado "o mundo das bonecas grandes" e todas as suas famílias e o "mundo das bonecas pequenas" e todas as suas famílias. As duas Marias eram parceiras inseparáveis. Até à adolescência, Maria Raquel, nem sentiu falta de tantas amizades, pois não via a hora de sempre estar com a irmã. Quando a Maria Raquel nasceu Raquel, ela se viu diante de uma grande questão para as mães: "onde meus filhos vão estudar? Raquel e seu companheiro viviam muito bem, mas escola particular, era cara demais e a escola pública também não parecia ser a ideal, no entanto, ela foi a escolhida, como a opção da necessidade. Raquel, na sua vida de menina e adolescente, tinha estudado todos os anos em uma escola particular, tradicional e elitista. Não guardava boas lembranças da escola. Tudo tão quadrado, nem criava nela, a curiosidade em aprender. Mas aprender, que prescinde de uma alta dose de curiosidade, Raquel conheceu quando os filhos foram para a escola. Pois ela foi junto com eles, porque a escola pública não está pronta. Ela precisa ser construída pelos pais, junto com os educadores. Raquel não gostou da creche, assim que o primeiro de seus meninos entrou para o mundo escolar. Foi buscando outra vaga e até que o mais velho, crescendo, chegou à escola EMEI Monteiro Lobato. Foi como ver a liberdade que ela e a irmã tinham quando criança. Um quintal no meio da cidade. Apareceu a oportunidade de ser presidente do Conselho. Ela candidatou-se e ganhou, já nessa primeira vez, porque ninguém queria essa responsabilidade. Raquel queria e muito, porque entendeu rápido que era ali, no Conselho, a oportunidade de dar aos filhos a escola que ela sonhava. Para isso, ela deu as mãos para outras mães, pais e professores e começaram a ciranda da mudança. Foi presidente do Conselho três vezes e aprendeu tanto, que considera que foi para a escola junto com os filhos. Aprendeu a escutar, a se colocar. Foi sua primeira participação democrática. Saiu do umbigo e viajou para os infinitos mundos, que cabem numa só escola pública. Crianças de todas as realidades e que merecem dos adultos, todo empenho para que as coisas funcionem. Raquel, na EMEI Monteiro Lobato, aprendeu a cirandar a mudança e levou essa aventura para a Creche, onde seu filho menor estava matriculado. Ali, a ciranda também cresceu e até merenda orgânica eles conquistaram. O seu menino caçula, agora, cresceu mais e também foi para a EMEI Monteiro Lobato. Raquel sente que a escola pública foi a melhor opção para os filhos, que crescem do jeitinho que ela sonhou, felizes e de mãos dadas com o mundo. Mas não foi só isso, Raquel aproveitou a experiência dos filhos na escola, para crescer como mulher, para colorir de novos significados a sua história de menina. Ela conseguiu propiciar não com dinheiro, uma escola mais humana para os filhos. Foi se irmanando de outras mães e pais. Seus filhos lhe trouxeram mesmo, outra vida. Até sua relação com o trabalho ganhou alma. A família de Raquel, entendia que profissão e trabalho precisavam ser escolhas nobres e cheias de propósito. Raquel, com a bagunça que é ser mãe e deixar-se ser, aprendeu a fazer as coisas por puro gosto. Sente seu coração mais aberto, porque mais aberta é a escola pública. Afinal de contas, essa é a história de uma mãe que também foi para a escola dos filhos, derrubar muros e construir pontes, para além de todos os umbigos, porque o mundo é largo e cabem todos. Cirandando, sempre haverá espaço.
História de vida de Raquel
Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk
Link para escutar a narração da história de Raquel:

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