História 12 - História de Claribel - "Doces frutos de Claribel - Azedo é para quem não amadurece, o doce é para quem floresce"

  



Azedo é para quem não amadurece, pois o doce é de quem floresce


  Diz que era uma vez, uma incansável professora, chamada Claribel, de sorriso claro como o azul do céu. Parece que talvez seu nome pudesse ser a mistura de Clara e Isabel. O pai queria chamar sua filha única, entre dois filhos homens, de Clarisbela ou Clarisbel, mas no cartório, só permitiram Claribel. Nascida no interior de São Paulo, Claribel, não é Clara e nem Isabel, mas é quase duas e se preciso for, será mais. Aos 64 anos, tendo exercido seu ofício por 30 anos, como professora, aposentou-se pelo Estado de São Paulo. Ainda está em exercício pela Prefeitura de São Paulo, há 15 anos e desde 2019, compõe a equipe da EMEI Monteiro Lobato. Claribel, trabalha agora, não mais pelo sustento ou pela necessidade humana de colocar-se no mundo, apenas para deleitar-se. Só tendo a liberdade dos 64 anos, para deixar o riso escorrer solto, mesmo narrando agruras e vicissitudes. Claribel, que conta sua história e fala rindo, colocou leveza nos caminhos e de fininho, sempre saiu para fazer o que bem quis. Imagine, ainda na década de 1970, uma mulher do interior, decidir ir embora da casa do pai, trabalhar e sustentar-se? Claribel era bem assim, decidida, simplesmente ia e fazia. Seu pai era muito rígido com ela, por ser a única filha, entre os dois filhos homens. Trabalhava o pai no cemitério e a mãe, como lavadeira. Eram uma família bastante pobre, mas o pai jamais permitiu que Claribel fosse trabalhar como doméstica. Queria que ela estudasse e a menina era dedicada. Antes mesmo de formar-se no Magistério, já dava aulas para adultos, no antigo "Mobral". Tempo de ditadura, de machismos sem muito espaço para a grande maioria das mulheres se atreverem a dialogar e a contestar. Por isso, Claribel, nem perdia tempo discutindo, decidia e fazia, antes que lhe roubassem a chance. Vivia de brechas e assim, ia tentando escapar da sociedade patriarcal, que implacável, a impedia de tornar-se a mulher que ela queria. Se não fosse assim, ela não teria cortado o seu cordão umbilical. Quando formou-se foi trabalhar numa creche de sua cidade, além de substituir uma colega numa escola da zona rural, onde ficava uma colônia de japoneses. Era um desafio trabalhar com uma sala multisseriada, na qual os alunos, ainda por cima, só queriam falar japonês. Mas como ela se divertia com essa turma e voltava para casa, sempre carregada de abóboras e alfaces, presentes carinhosos dos alunos. Quando acabou a substituição, os alunos não queriam mais a professora titular. Claribel guarda com carinho esse tempo e ela, que não nasceu para ficar parada, resolveu passar as férias na casa do irmão, em São Paulo, arrumou um trabalho numa firma e não voltou mais para a casa do pai. O pai ficou muito bravo. Claribel estava cansada de tanto que o pai ficava enraivecido por tudo que ela fazia e ainda brigava com a mãe, como se ela fosse a culpada. Claribel  tinha vento nos pés e foi-se. Trabalhou numa firma, que ficava no Brás. Foi quando apareceu mais uma vaga e ela a indicou para a sua amiga. O pai de sua amiga, antes de dar sua permissão para a filha trabalhar, foi conhecer o escritório e disse que o bairro não era apropriado para uma moça. A amiga foi proibida de trabalhar. O irmão de Claribel, que nunca tinha se preocupado com o lugar em que sua irmã trabalhava, também não permitiu que ela continuasse. Claribel tentou outra firma. Não deu certo também e ela acabou retornando para a casa do pai. O irmão foi buscá-la e a incentivou a tentar novamente. Como Claribel tinha vento dentro, ela foi e arrumou um trabalho no escritório da Enciclopédia Barsa, enquanto ia tentando uma vaga como professora em escolas do Estado. Não desistia do sonho de ser professora. Seguia a vida assim, indo sempre visitar os pais no interior. Numa dessas viagens, conheceu, dentro do ônibus, o seu companheiro, com quem viveu junto por 36 anos. É bonito quando esses encontros acontecem, ninguém nunca imagina o quanto vão crescer, virar uma grande árvore e dar frutos. Mas Claribel foi uma menina e é uma mulher, que sempre está de olho nos frutos. Quando era criança, o seu vizinho, o Jorginho, que era um menino rico, tinha um pomar em sua casa. Claribel já se achava muito sortuda em ter um pé de laranja lima e regalar-se com o mel das frutas. Mas o Jorginho, tinha um pomar e eles brincavam que as árvores eram castelos. Claribel brincava, mas sempre com olhinhos para o alto, para as frutas do pé de ponkan, a mais doce das tangerinas. Assim viveu Claribel, quebrou regras, deixou os donos das regras bem azedos e continuou doce. É a sua natureza. Ela bem viu o moço do ônibus, que inclusive era de sua cidade, embora ela nunca o tivesse conhecido. Logo começaram a namorar, para desespero do pai. Claribel finalmente passou no concurso do Estado, mas não foi chamada. Começava, no entanto, a caminhar para mais perto de seu sonho. Cada vez mais. Aconteceu, porém, que ela ficou grávida. O moço prontificou-se a casar e mesmo assim, o pai não quis saber de sua querida filha. Claribel sofreu tanto. Acabou perdendo o bebê. O moço do ônibus, continuou ao seu lado e pela sua vida toda. Casaram-se do mesmo jeito, mesmo sem gravidez. Logo, ela ficou grávida de novo, de uma menina. Depois nasceu mais outra menina. Foi um período difícil. Claribel só cuidava da casa e das meninas, acontece que ela queria trabalhar. O sonho de dar aulas continuava formigando-lhe os pés. Só não tirar os olhos dos frutos, Claribel. Lembra-se do pé de ponkan? Eles têm seu tempo certo de brotar. Era esperar. Com os olhos na copa e nos galhos altos, seguiu Claribel. Em 1985, os primeiros frutos apareceram e Claribel conseguiu aulas no Estado. Quando os frutos aparecem é preciso saber a hora certa de colher, ficar atento, para que os passarinhos não comam tudo. Passou no concurso do Estado e muito bem, como uma das primeiras. No dia de pegar as aulas, chegou atrasada e não foi efetivada. Frutos não nascem uma só vez. Brotam uma vida toda. Só esperar uma outra estação. Continuou dando aulas no Estado, mesmo sem ter sido efetivada, com todo o desafio de conciliar as filhas e depois seu menino, que logo nasceu. Quatro filhos e um belo dia, finalmente, os frutos caíram por toda parte, de maduros e prontos que estavam. Em 2007, passou no concurso da Prefeitura e do Estado e foi chamada para os dois. Os frutos deixaram todo o chão de Claribel cheiroso e alimentado. De alma bem nutrida, veio o grande e maior desafio. Seu marido perdeu a mãe de uma doença grave nos rins. Logo, o marido começou a fazer hemodiálise, desenvolvendo a mesma doença que a mãe. Seguiu assim, por dez anos e em 2017, faleceu. Uma parte de Claribel foi junto com ele. Por isso, ela decidiu não morar mais na casa que ela e o marido haviam construído, tijolo por tijolo. Nem os filhos queriam ficar ali. Ninguém queria beber da tristeza de alguém tão querido que se foi para sempre. Nossa Claribel não perdeu aquele seu olhar que alcançava as copas e os frutos. Os olhos de quem espera pelo doce das frutas, que espera passar o azedo. Foi assim com o pai, inclusive. O azedo passou num pé de vento. O marido ainda vivo, os filhos crianças e um dia, sua vizinha, que também era do interior, de uma cidade que ficava ao lado da sua, convidou Claribel e os filhos para irem junto com ela para o interior. Claribel achou a ideia ótima, pois a irmã de seu marido, morava na mesma cidade da vizinha. O marido não gostou. A vizinha apertou e ela acabou indo. No entanto, a vizinha não entendeu que ela e os filhos seguiriam até o fim do trajeto, junto com ela. Simplesmente, deixou Claribel na porta da casa de sua mãe e continuou a viagem para sua cidade, que ficava mais à frente. Claribel ficou sem reação e nada disse à vizinha, mesmo vendo o carro seguindo uma rota tão sua conhecida. A casa de seus pais, que desde seu casamento, nunca mais tinha entrado. Sua mãe, seu pai, com quem nunca mais havia falado, abraçado. Aquele seu jeito de vento fez com que ela só soprasse e nem titubeasse. A vizinha parou o carro. Ela e os filhos desceram e com aquele jeito de filho, que nunca deixa de ser filho, Claribel, gritou: "Mãee". A mãe saiu correndo e emocionada abarcou a filha e os netos todos. Chorou e lamentou toda a dor que sentia da saudade apertada de todo dia. O pai ainda titubeou, mas quando viu as netas e o neto, o coração amoleceu e logo estava nos braços da filha. Quando o povo da cidade soube que Claribel estava de volta foram todos para a porta da casa de seus pais. Logo mais, chegou o marido, que tinha viajado de ônibus. Foram três dias de casa cheia, pois todos queriam rever Claribel e conhecer sua família. E de Claribel brotou um sorriso claro como o azul do céu. O azedo passou e o doce virou calda derretida na família inteira. Os frutos um dia amadurecem e viram doce guardado em compotas cheirosas para amolecer a vida. Assim, Claribel, depois de tanta história já vivida, sentindo ainda a dor da ausência de seu companheiro, deixou a casa e os tijolos todos que eles ergueram juntos. As compotas cheirosas ainda estavam em algum recanto da alma, prontas para adoçar, porque quem planta, um dia colhe. Foi morar num apartamento, no centro da cidade e dar aulas na EMEI Monteiro Lobato. Sempre de olhos virados para cima, como quando era menina, de olhos nas ponkans, as mais doces tangerinas, que ainda vão aparecer no seu pé de caminho, porque todo azedo passa e frutos não nascem uma só vez. Brotam uma vida toda. Só esperar por uma outra estação e Claribel está sentindo um vento, daqueles que tiram tudo do lugar até passar o azedo e a vida florescer. 


História de vida de Claribel

Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk


Link para escutar a narração da história de Claribel:

https://youtu.be/J-imVu01nnc


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