História 13 - História de Camila - "Mudas de Felicidade"
Diz que era uma vez uma mulher chamada Camila, que aprendeu a fazer um caminho às avessas, de sair do que está bem estabelecido para o que vai sendo construído. Esses movimentos bonitos da vida, acabam muitas vezes, sendo descobertos, quando nasce uma criança. Crianças fazem essas coisas, elas distorcem essa ideia de relógio. Nada parece caber no dia e ao mesmo tempo, uma pequena coisa dita por eles ou um pequeno gesto, tomam conta de todo o tempo e eis que paramos um pouco. Foi assim com Camila, que resistiu em parar e ter um filho, que trabalhou até a bolsa estourar, que continuou trabalhando até que pensou: e esse menininho que canta, inventa e ri e é meu "companheirinho"? Seu filho, Felipe, quando entrou na EMEI Monteiro Lobato ganhou quintal, encantou-se em aprender e a mãe, Camila foi gostando de estar mais perto, de fazer menos, correr pouco, para estar com ele. Até mesmo quando somos crianças, damos um jeito em estar na rua, na terra, em árvore, porque infância é liberdade. Camila era de uma família de cabeleireiros, que viviam muito bem, no bairro de Pinheiros. Mãe, pai e tia comandavam salões, como quem navega em mares de fios, com total destreza. O pai era professor desse ofício. Camila sempre teve muito orgulho deles e nunca pensou em ser outra coisa. Desde menina, acompanhava a mãe ao salão e segurava para ela, os grampos e ia ajudando a colocar os bobes nos cabelos das senhoras e ganhava gorjetas, que iam compondo o dinheirinho das férias. Camila vivia em apartamento, mas ela e a família tinham sítio, casa na praia, portanto, viviam correndo entre sol, terra e areia. Além disso, em muitos finais de semana, iam visitar a tia que morava na periferia e ela brincava muito na rua, de queimada, esconde-esconde, passa-anel. Criança encontra pedrinha, formiga, cheiro, flor, nos menores buracos do tempo. Quem disse que criança criada em apartamento não come fruta do pé? Na frente da casa da avó, mãe da mãe, tinha pé de amora. Faro de criança encontra essas preciosidades, só para sujar a roupa e deixar a avó de cabelo em pé. A alegria dos netos era roubar dessa avó, mineira, o doce de leite em pedaço, que ela fazia e guardava numa lata, bem no alto do armário. Camila ainda tinha outra grande sorte, morar com a avó, mãe do pai, que mimava os netos, o dia inteiro, que contava histórias, levava para a escola e cozinhava delícias. Camila desde menina era independente. Com quinze anos, avisou ao pai que iria procurar um emprego. O pai não perdeu a chance de convidá-la para trabalhar com ele, no salão. A filha concordou e achou que administrar o salão seria sua função. No entanto, o pai, que também era professor de seu ofício, logo ensinou a filha a arte de cortar e lidar com os fios. A partir daí, ela nunca mais parou de lidar com fios de cabelo e comandou por tantos anos, aquele salão, mesmo após a morte do pai, que foi embora quando ela tinha 27 anos. Ter escolhido trabalhar com o pai deu-lhe tempo com ele, dos mais preciosos, antes de sua partida. Camila lutou sempre para que esse salão, que era do pai, não fechasse. Mas as coisas caminham, precisam tomar novos rumos e o mundo todo foi obrigado a mudar sua direção, durante o período da pandemia. Camila, mudou também, não de ofício, pois foi herdado e desde a raiz dos cabelos, sua sina é cuidar de tantos outros cabelos, mas já não tem um grande salão, o que lhe tomava muito tempo. O tempo agora é outro. É de trabalhar e muito, mas com horinhas destemperadas de correria, para estar junto do seu menininho, Felipe. Essa família, que Camila construiu com o companheiro, Alexandre, com quem vive há 17 anos, habita uma casa, na Vila Sônia. Ao lado da casa, há um terreno que pertence à prefeitura e eles foram autorizados a plantar e cuidar da terra. Uma forma de evitar que o terreno fique entregue ao lixo e entulho. Camila e seu filho, Felipe, então, plantam temperinhos, morangos. Separam mudas que Felipe diz serem as "bebezinhas". Esse pedaço de terra fez Camila aproximar-se da horta da EMEI Monteiro Lobato, para aprender mais. Aprender mais é o que as crianças nos ensinam. Parar a vida e aprender mais. Parar a vida e ganhar mais vida. É o que tem feito Camila. Aquela menina que ia para EMEI na Vila Madalena, de saia vermelha e conga e que gostava de gibis, sempre de mãos dadas com o pai, agora dá a mão para um menininho, chamado Felipe, que gosta de livros e estuda na EMEI Monteiro Lobato. O tempo gira a sua roda e as mudas não param de se multiplicar, quando a gente aduba o peito e floreia o próprio chão. Camila corta os fios já gastos com a tesoura, como sua mãe e seu pai. Camila aduba sua família, como seu pai e sua mãe há um tempinho atrás. O pai e a mãe deixaram-lhe mudas, que Camila deixará para Felipe. Mudas de felicidade, daquelas que só o amor é capaz de nos dar.
História de vida de Camila
Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk
Link para escutar a narração da história de Camila:

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