História 14 - História de Rosivânia - "Quem vem da terra quase nasce professor, pois não quer o fruto, quer a semente

            



Quem vem da terra quase nasce professor, pois não quer o fruto, quer a semente

Diz que era uma vez, uma menina que trabalhava tanto, que mesmo tão pequena, valorizava e até mesmo precisava, desse tempinho de ócio, para descansar e refazer-se um pouco. Deitava-se embaixo de uma árvore e punha-se a sonhar. Sonhava com um tempo mais à frente, quando se tornaria uma mulher. Queria estudar, isso ela já sabia. Morava na roça essa menina, em Pernambuco e seu nome era Rosivânia. Em sua família, todo mundo tinha um nome que começava com a letra "R". Seus pais tinham sido retirantes. Haviam morado em lugares improvisados, sempre próximos à terra, onde houvesse trabalho. Por isso, se achavam muito abastados por terem conseguido com o suor e as rugas, um pedaço de chão, só deles, o sítio da família, onde labutavam muito para viver. Mas nem por isso, a vida era fácil. Nem para as crianças. Rosivânia e a irmã, quando não estavam com a mãe e o pai, na lida da roça, estavam em casa fazendo todo o serviço. Cozinhar no fogão à lenha, lavar a roupa no rio, descer muitas vezes para buscar água, com a lata na cabeça. Um dia, Rosivânia lavando roupa na beira do rio, caiu em suas águas e afundou. Não se sabe como, sua irmã conseguiu tirá-la do fundo, sozinha. O pai queria muito que os seis filhos estudassem. Assim como Rosivânia, o pai deitava-se embaixo de sua árvore dos sonhos, quando era aceso o candeeiro, no final do dia e punha-se a sonhar “planos” para os filhos. "Um vai ser médico", dizia o pai, "o outro advogado" e a mãe emendava: "um, terá que ser padre". O sonho para as filhas era sempre um bom casamento. Mas Rosivânia sonhava em estudar. Quem lida com a terra tem sede de aprender, pois sabe o valor de uma semente. A semente não está pronta e precisa de conhecimento para que dela brote o alimento. Essa hora dos sonhos e planos, acabava sempre, com a narração das muitas histórias da vida de seu pai e sua mãe, em volta do fogo, aluminando o escuro do mato. Hoje, Rosivânia é uma mulher com seus dois filhos, que casou-se com Rodrigo, filho de Rosa e Ramiro. A família do marido também gostava muito da letra "R". Trabalhou e ainda trabalha muito, como quando era menina, mas estudou e ajudou a plantar nas crianças e adolescentes, dos quais foi professora, a semente que frutifica o gosto por aprender. Pois assim é Rosivânia, não quer comer o fruto, quer plantar, para ter sempre, o que comer. Como já foi dito, quem vem da terra, quase nasce professor, pois quer é aprender o mistério do fazer e do saber. A vida no sítio era difícil. Precisavam ajudar a mãe a colher o café, apanhar castanha. Para comer era preciso plantar. Se não plantassem, não colhiam e muito menos, comiam. Às vezes, quando chegava o meio da tarde, ela e os irmãos sentiam tanta fome e a mãe dizia: "vão procurar no mato o que comer". Se tinham fome precisavam buscar fruta, na andança cansada, de todo dia. Estudar, ela e os irmãos estudavam, porque o pai fazia questão, pois não queria que fossem quase analfabetos, como ele e a mulher. A mãe de Rosivânia era autodidata, aprendera a ler sozinha. Os filhos iam para a escola. Aprenderam a tabuada, a ler e a escrever, na cartilha do ABC. Mas ausentavam-se muito, porque quando chegava a hora de colher, lá estavam todos eles, na plantação, na lida dura de quem é do campo. No entanto, aos 11 anos, Rosivânia bateu o pé e disse: "Eu não vou mais faltar à escola para trabalhar". Foi aos 13 anos, que ela terminou o quarto ano. Para iniciar o quinto teria que sair à noite, na boléia do caminhão, para outra cidade, pois na roça, a escola só ia até o quarto. Pois ela foi. Tinha muito medo na hora de voltar pelas estradas escuras. Ela guardava tantos medos. Medo das assombrações, das histórias todas que a mãe lhe contava. A mãe punha o medo, depois não acreditava que os filhos tivessem acreditado, pois não era tudo história? Era como o caso do Pedro Mirico, que a mãe dizia ser um papa fígado. Rosivânia tinha tanto medo do Pixita, esse Pedro, que o povo chamava de Mirico. Um dia foi buscar leite em outro sítio, pois era costume fazerem isso, quando as vacas não davam leite suficiente. Encontrou o próprio, o Pedro Mirico, em pessoa, pelo meio do caminho. Correu tanto que perdeu chinelo e nem leite trouxe. Noutra feita, a mãe pediu que ela fosse à venda, comprar sabão. Quando lá chegou, encontrou Pedro. Isso mesmo, o Pedro Mirico, o Pixita, o papa fígado, ele mesmo, na porta da venda. A menina correu para casa sem sabão. A mãe lhe passou um sabão e a fez voltar com ela, até à venda, para encarar o papa fígado. Essa sua mãe, inventava os personagens que punham medo e depois queria que os filhos abandonassem o medo na marra. A vida no mato não é para qualquer um. Certa vez, a menina Rosivânia levou um susto, que até hoje lhe causa arrepios, pois ao lavar roupa na beira do rio, pisou numa cobra e a danada ficou enrolada em sua perna. Foi quase uma morte, tamanho o medo e o susto. Falando em morte, duas delas assombraram a vida dessa menina. O pai mandou furar um açude. As pessoas vinham da cidade tomar banho. Certa vez, duas meninas morreram afogadas no tal açude. Rosivânia não mais dormia, nem queria ir ao banheiro. Demorou a contar esse segredo doído, até que aos poucos foi superando. Era preciso. Rosivânia era uma menina que desde cedo trabalhava e ganhava seu dinheirinho. O pai contratava "panhadeira de castanha". Pagava por lata. Pois ela ia e fazia esse trabalho de gente grande e cuidava de galinha e de boi, tudo para comprar o próprio tecido e fazer sua roupa. Aprendeu com sua mãe, a ser assim, "fazedoura" de coisas. A mãe, além do trabalho de plantar, sabia costurar e cortar o cabelo. Aos domingos, ia à cidade e cortava o cabelo o dia inteiro. Não parava nem para comer. Rosivânia era sua ajudante e colocava até comida na boca da mãe, porque ela nem parava, tantos eram os clientes. Mas aos 15 anos, Rosivânia, não quis mais saber. Embora cortar o cordão umbilical fosse muito difícil, de novo era preciso, pois ela tinha um sonho, o de aprender e não queria só a semente da terra, mas a do conhecimento também e queria ser professora. Tinha aprendido muitos dos mistérios da terra, das sabenças das plantas, do chão, mas queria a semente dos letramentos e livros. Veio para São Paulo. Seus tios moravam em Diadema. Mas ela chegou mesmo, para trabalhar como cuidadora, de uma senhora de quase 80 anos, em Santo André. Logo, apareceu um trabalho de doméstica, na casa de uma senhora, a Dona Zeli, com seu marido e suas duas filhas, em São Paulo. Trabalhava logo que acordava, arrumando cedinho o café para os patrões saírem para trabalhar, ainda levava as meninas à escola e era assim, labutando sem parar, até às dez da noite. Se Rosivânia tinha vindo para São Paulo, com o intuito de estudar, isso era quase impossível. Sábado fazia curso de cabeleireiro e só à noite, finalmente, ia estar com os tios e suas primas e sentir a alegria da família, o clima de sua terra, matar de algum modo, a saudade dos pais. Na casa de Dona Zeli, aprendeu a preparar uma mesa de café e conheceu tantos alimentos que ela jamais tinha visto. Na roça, ela só comia o que a família plantava. Só conhecia alface, couve, coentro, cebolinha. Nesse novo trabalho, ela tinha que cozinhar e preparar brócolis, rúcula, tantos alimentos que ela não conhecia. Ela foi nomeando tudo ao seu redor. Mas o serviço era muito pesado. Acabou desenvolvendo um sério problema na coluna. Sua patroa morava em um prédio, num andar bastante alto e lá em cima, Rosivânia escutava o burburinho de crianças. Um som que tanto lhe agradava. Às vezes, parava o trabalho, só para escutar essas vozes infantis, que pareciam chamar-lhe para o sonho de ser professora. Mas ali, na casa dos patrões, o que lhe chamava mesmo, era um trabalho sem fim, cronometrado. Uma dia, a irmã de sua patroa veio visitá-la e perguntou à Rosivânia:

- Pois, menina, você não tinha se mudado para São Paulo, para estudar? E, então?

A pergunta ressoou tão forte, que Rosivânia foi falar com sua patroa, perguntando se ela poderia estudar. Dona Zeli disse que permitiria, desde que ela estudasse de manhã, enquanto suas filhas estavam na escola, pois precisava dela em casa, à noite, já que ela e o marido, chegavam tarde. Acontece que não existia supletivo em escola pública, no horário da manhã. Rosivânia encontrou apenas um, próximo da casa da patroa, de manhã, mas numa escola particular. E assim, metade do seu salário foi para pagar o supletivo e ela tinha que dar conta, de todo o serviço da casa, buscar as meninas e estudar. Mas foi nesse supletivo, que conheceu seu marido, Rodrigo, de uma família que também gostava da letra "R". Quando se conheceram, Rosivânia não tinha coragem de contar a ele que era empregada doméstica. Mentia que morava na casa em que ela trabalhava. Com o namoro apaixonado, ela acabou contando-lhe a verdade e percebeu que seu medo não tinha sentido para Rodrigo. O problema na coluna ficou sério e Rosivânia aproveitou que sua irmã, que também morava em São Paulo estava indo morar num kitnet, sozinha, para acompanhá-la, deixando o trabalho sem fim, de empregada doméstica. Mas era mais do que preciso encontrar outro trabalho e rápido. Assim, foi de porta em porta procurar um emprego. Preenchia fichas e mais fichas. Só o que ouvia, no entanto, era que não estavam precisando de ninguém. Até que ela chegou a uma associação que trabalhava com crianças e adolescentes, com a intenção de começar a ter experiência com as crianças. A diretora disse que não tinha nenhuma vaga para trabalhar com as crianças, mas que ela poderia escrever uma carta de intenção. Rosivânia colocou nessa carta o seu sonho. Quando ela estava saindo, percebeu que a mulher já estava lendo o que ela havia escrito e de fato, ela foi mesmo contratada. De novo, sua história de vida era a chave para abrir caminhos. No dia em que conseguiu o emprego foi que se deu conta, de que era dali, que vinham as vozes de criança, que ela escutava enquanto trabalhava como empregada doméstica, no prédio de Dona Zeli, que ficava mesmo, por perto. O burburinho gostoso das crianças tinham feito a magia de trazê-la até ali. Seu coração delirava, pois iria realizar o sonho de começar a trabalhar com crianças. No entanto, a diretora da Associação fez uma proposta desafiadora, pois enxergou em Rosivânia e sua história de vida, a pessoa certa para semear novos frutos. Foi-lhe entregue uma turma de adolescentes, em situação de vulnerabilidade. Esse setor iria fechar se o trabalho com essa turma não desse certo. Rosivânia aceitou o desafio e conquistou esses adolescentes, com sua história de vida. A história da menina que quando queria comer, tinha que colher, que saía no mato para apanhar frutas e castanhas. Os adolescentes estalaram os olhos diante de suas histórias e um vínculo bonito, de história para história, de vida difícil para vida difícil foi construindo uma linda ponte.Foi assim, que realizaram bonitos trabalhos. Hoje, esses meninos são mulheres e homens. Rosivânia não perdeu o contato com eles. Foram anos, quase dez, trabalhando nessa instituição e tornando-se inspiração para outros arte-educadores e educandos. Nesse tempo, em que experimentava seus primeiros passos na educação, por volta dos 19 anos, engravidou de sua filha. Esperou que ela completasse dois anos e voltou a estudar, à noite, para terminar o ensino médio. Logo depois, com trabalhos extras e uma bolsa do governo do Estado, em que trabalhava aos finais de semana em escolas estaduais, para que sua faculdade fosse financiada, começou a realizar o seu grande sonho: estudar pedagogia. Acordava às quatro da madrugada, para ler os textos, trabalhava de segunda à domingo, sem descanso. Não podia aproveitar o almoço de domingo, em família, mas acordava às seis da manhã e deixava tudo pronto, antes de ir trabalhar em alguma das escolas estaduais, vinculadas à sua bolsa. Deixava uma comidinha carinhosa, como presença e lá ia, Rosivânia, tirar energia da terra, que já nem pisava mais,  mas que ela carregava no olhar, na alma, na labuta, na teimosia em continuar. Foi assim, que formou-se em pedagogia. A faculdade trouxe-lhe outros trabalhos, como ser contratada pela Unibes. Seus colegas nesse novo trabalho, gostavam sempre de escutar sua história de vida. Para todos, acalentava o peito, saber que na vida, a coragem é a força para dar voltas e mais voltas nas agruras. Um dia, quando souberam que Rosivânia e o seu companheiro Rodrigo iam participar de um casamento coletivo, tudo muito simples, apenas para ritualizar uma vida já, de muitos anos vivida, organizaram uma festa, arrumaram vestido e um bonito ciclo de vida de Rosivânia foi consumado e festejado, com merecida pompa. Seus pais vieram participar, sua filha foi a daminha. Depois, Rosivânia passou no concurso público, tornou-se professora da rede municipal, chegou à Emei Monteiro Lobato. Tudo isso levou anos de acontecimentos se desenrolando. Fios saindo de um colorido novelo. No meio desses fios, Rosivânia ainda engravidou de gêmeos, perdeu seus filhos e com o peito dolorido, ainda deu corda no caminho e a roda da vida foi girando mais um tantinho e seu menino, seu segundo filho, enfim nasceu. Lá estava seu novelo de vida, espalhando mais cor, num fio mais comprido. Rosivânia lembra-se sempre, que sua vida de menina tinha sido tão difícil. Crianças da roça trabalham feito gente grande. Brincam, vivem perto da natureza, mas os adultos botam nelas, medos grandes, achando que assim, lhes darão mais coragem. Porém, os adultos sempre esquecidos das crianças que já foram um dia, se esquecem da sensibilidade que os pequeninos carregam. Portanto, Rosivânia, desde sempre professora, segue a vida, com muita gratidão à mãe, que ensinou-lhe tanto, principalmente, a sede em saber, mas não quer ver crianças trabalhando. Nossa Rosivânia é quase uma zeladora da cultura da infância, de toda criança, pois a menina que ela foi está bem viva nos seus olhos. Ela quer escutar as crianças. Mas ela sabe ser grata à mãe, que nos seus oitenta anos, não podendo trabalhar na terra, faz fuxicos com retalhos coloridos e escreve suas memórias, em seus diários. A sede de ler e escrever o mundo, ela herdou da mãe. Agora é da sua alma mesmo, a luta por uma pedagogia da escuta, para que outras vozes ganhem "veios" para correr. Mas se antes vivia só a escutar, hoje também sabe que precisa falar, às vezes, até gritar, para se fazer compreender. Quem vem do mato precisa escutar. Tudo se sabe escutando. Pelos barulhos da noite já sabidos, muita coisa pode-se evitar. Quem anda no mato sem botar sentido, leva é picada de cobra. Quem cresce na cidade só sabe falar. Rosivânia vive então, aprendendo o equilíbrio dessas duas artes e a vida vem dando tempo e espaço, para que ela exerça cada uma dessas forças, ora falando mais, ora escutando mais, sem perder o chão e a sabedoria da terra. Uma semente fica sem valor, na mão de quem não tem conhecimento, mas na mão de quem sabe, vira plantação. Por isso, Rosivânia nunca desiste de aprender mais um bocadinho, zelando para que a semente vire fruto, na mão de toda criança que por ela passar. É gente da terra essa mulher e nasceu professora, pois quer a semente. "Não se contentem com o fruto", diz a mulher, pois é preciso fazer caminho. Escutando feito gente da roça, falando tanto feito gente de cidade, lutando para que todos, da cidade e do mato, tenham direito também, de ler e escrever e saber o mundo, para a vida acontecer numa justeza bonita.


História de vida de Rosivânia
Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk

Link para escutar a narração da história de Rosivânia:

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