História 8 - História de Taize - Um conto de raízes
Esta é a história de uma mulher, que desde menina, carrega duas fotos, duas mulheres, duas avós, que já foram carregadas pelas suas bisavós e que foram carregadas pelas suas tataravós. Nessa dança do tempo, quem foram essas mulheres? Essa é a grande pergunta de Taize e por isso, ela vive a olhar as fotos de suas mulheres, como quem olha para o espelho do rio, tentando enxergar o fundo. Quais foram suas histórias, seus lugares de nascida, seus sonhos de menina? Taize até conheceu suas duas avós, a que carregou seu pai e a que carregou sua mãe. Mas elas eram apenas a "vó", mãe do pai e a"vó", mãe da mãe. Taize ainda lembra, a "vó", mãe do pai, descendia de indígenas. Seus cabelos lisos, seu silêncio comprido, como compridos eram seus cabelos. Vó indígena? Vó "bugra", como dizia sua mãe. Mas é um sonho de Taize, saber de que etnia teria feito parte sua vó, sua bisavó, sua tataravó. Taize só sabia que o pai tinha vindo, aos quinze anos, para São Paulo, de Jequié, na Bahia, sem RG, apenas no braço e nas mãos, o seu ofício: sapateiro. Na família do pai de Taize, cada um tinha um ofício, um era marceneiro, o outro sapateiro, a outra costureira e assim, seu pai chegou à Carapicuíba, e, conhecendo a mãe de Taize, foram morar na Cohab. Agora, a "vó", mãe de sua mãe, era mineira, negra, fazia cocadas numa cozinha de chão vermelho e encerado, verdadeiro espelho para Taize se olhar e dançar ao som do pandeiro, que o tio tocava e também lhe ensinava. Mas e as histórias dessa vó? E da mãe de sua vó? E da bisavó de sua vó? Se tinham vindo da África, teriam vindo de que país, que língua falavam? A "vó" da mãe e a família da mãe, viviam o dia a dia, de todo dia, mas e o que tinha ficado para trás? De quem eram os olhos, a sobrancelha, o cabelo, o nome que cada um carregava, sem saber a origem daquele fio? A quem espelhar-se? Era assim, o espelho de Taize, só mostrava as águas escuras de um rio caudaloso. Ela percebeu isso, foi na quinta série, quando a professora de história, pediu que cada um montasse sua árvore genealógica. Quando bem menina, Taize, morando na Cohab, em Carapicuíba, vivia brincando na rua e lá, o esgoto era à céu aberto. Ela pegou uma virose e quase morreu. Os médicos chegaram a dizer que nada podiam fazer para que ela sarasse. A menina achava mesmo, que podia brincar no rio, como toda filha de Oxum naturalmente faz. Acho que não foi dito que Taize é filha de Oxum, porque nessa parte da história, ela ainda nem sabia. Porém, já foi dito, que muitas vezes, Taize olhava seu espelho, as fotos das avós, como quem procurava pelo fundo de seu rio. Mas as águas da Cohab não era rio, era só esgoto, nascente do descaso com a população de qualquer periferia, desse Brasil. O pai e a mãe de Taize foram embora dali, com medo da filha morrer. Vieram morar no centro de São Paulo, próximo à Consolação, onde seu pai montou sua loja de conserto de sapatos. Taize se curou. Foi crescendo feliz e dançadeira, estudando como bolsista, numa escola católica. Foi bem nesse fio da história, que havíamos parado, quando a professora de história, da quinta série, pediu aos alunos, que trouxessem suas árvores genealógicas. Taize tinha o nome das avós, mas os nomes vinham quase que esvaziados de suas histórias e quanto mais ela puxava o fio, menos ela sabia. Sobre as bisavós? Sobre as tataravós? Ninguém mal tinha ouvido falar delas. No entanto, quando chegou o dia de apresentar a árvore da família, todos estavam em polvorosa, na sala de aula. E era um tal da bisavó que tinha vindo da Itália e do bisavô, que conhecera a bisavó no navio, vindos de Portugal, "redescobrir" o tal do Brasil. E era um tal dos avós japoneses, que aportaram em Santos e dos alemães, que aportaram no Rio de Janeiro. Era tanta história e cada um se reconhecendo nos seus velhos ancestrais, se vendo repetir um fio que não parava de ser tecido e todos queriam ver as fotos que cada um carregava, encontrar nos seus, uma sobrancelha, um sorriso, um nariz, um jeito. Taize, não tinha muita coisa para contar e torceu para que não fosse escolhida pela professora. Mas foi e disse que nada sabia. Não tinha seus velhos e velhas para se encontrar. Seu espelho era um rio fundo. Ela não tinha história? Nessa época, escola nenhuma reconhecia e não acolhia história nenhuma que tivesse sido apagada, silenciada, roubada. Não se legitimava na grande história, a história exterminada de cada um dos povos originários e nem dos negros todos, que aqui forçados, chegaram, e que ganharam nomes que não os acordavam e que não os punham para dormir. Essa era a hora, da menina Taize ser acolhida, mas não foi. Então, aquela menina, que tinha um pai que sabia consertar sapatos, consertou esse seu caminhar. Seus pais a colocaram numa aula de dança, para corrigir os pés. Ela usava aquelas botas ortopédicas. A dança era uma tentativa de não precisar usar mais as botas. Não precisou mesmo. Seus pés eram de rio, daqueles que sabem pisar com cuidado e esperteza, nas pedras redondas de Oxum. Talvez fossem seus ouvidos que precisassem escutar uma outra história. Taize precisava das suas raízes. Taize precisava ouvir a verdadeira história desse nosso país, que os livros não contam, mas contam os quilombos, os terreiros, os indígenas, que escoram toda árvore que podem, manchando de vermelho, não só o rosto pintado de urucum, mas as mãos, com o sangue da luta, pois o Brasil está descoberto, do pano verde das florestas que lhe cobriam o chão. São os ainda "Senhores de Engenho", que arrancam nossas árvores e florestas inteiras, que hoje, sabemos, são o nosso verdadeiro ouro e mancham de sangue, nossa pátria, mais uma vez. A dança, então, consertou seus passos. Colocou Taize no compasso das suas raízes. Se Taize não podia contar a história dos seus ancestrais, ela começou a dançar a sua vó, a dançar seu bisavô, a dançar sua tataravó. Se não podia ver o fundo do rio, ela mergulhou nas águas e viu tudo, pelo espelho de Oxum. Saiu das águas, filha de santo, de um terreiro de candomblé. Dentro do terreiro, ela ganhou uma árvore genealógica, que tem nome de vó, de vô, de bisavó e tem a história de cada um dos orixás, que abençoaram seu "ori", sua cabeça. Taize tem uma religião onde ela pode dançar, porque a dança é a palavra dos seus, que ela não sabe contar. Mas ela ainda carrega aquela foto, da "vó" mãe da mãe e da "vó" mãe do pai e não apaga a pergunta e não nega a árvore da família, vazia de nomes nos galhos. Esses galhos vazios, ela carrega consigo e neles, ela vem dançando a sua história, que é sinuosa, como as águas de Oxum. Uma história para ser dançada, pois nada aconteceu no tempo mais natural de acontecer e no entanto, dançando, ela chegou antes do tempo, de muita gente de compasso certo e seguro. Foi mãe adolescente e teve que sair da escola. Esperou o tempo dos filhos mais crescidinhos e foi fazer um supletivo, à noite, numa escola da zona leste, de São Paulo. Sentiu a diferença, pois tinha estudado, ainda que como bolsista, numa escola particular. Ela sentia que sabia mais que os colegas e por isso, os ensinava. Foi assim que descobriu o caminho da educação e dançou a arte de ensinar e de aprender. Como filha de Oxum que era, mergulhou tão fundo nos estudos e assim, por meio de um cursinho popular e poucas noites dormidas, passou na Usp, universidade pública, que aluno de escola pública, só passa mesmo, para conhecer e sonhar. Ela passou e entrou e ficou, até formar-se educadora. Hoje, Taize é uma das professoras da Emei Monteiro Lobato e também, bailarina e arte-educadora. Ela segue vivendo com dois "abebés", dois espelhos, que são as fotos da "vó", mãe da mãe e da "vó", mãe do pai, que estão carregados dos seus ancestrais e eles dançam. Taize é uma variação do nome "Taís", que significa, aquela que nasceu para ser contemplada. Quando contemplares a dança de Taize, contemple também, os galhos vazios de sua árvore, sem os nomes de suas avós e bisavós, para que não se esqueças, de que uma história não foi contada, apenas porque alguns não quiseram que ela fosse contada e só por isso, ela agora, Taize, que soa bem com raízes, dança.
História de vida de Taize
Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk
Link para escutar a história de Taize:

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