História 9 - História de Alexandre - "Festa no portão, nos menores gestos"

 


     

  Diz que era uma vez, um menino nascido em ninho único, rodeado por suas duas árvores, mãe e pai, no bairro da Liberdade, morando mesmo, na Vila Maria e depois, em Itaquera, zona leste de São Paulo. A mãe de Alexandre, esse era o nome do menino, dizia-lhe que uma mãe e um pai serviam para dar asas, aos filhos. Alexandre teve seus filhos e eles têm asas, mas também gostam de viver bem juntinho das asas do pai, da família, assim como ele mesmo, que possui aquela incoerência dos pássaros, que sabem procurar seus ninhos sozinhos, mas fazem questão de se juntar ao bando. Seu bando, seu pai e sua mãe, parecem duas grandes árvores, de troncos largos, que a vida toda de alguma forma, ofereceram galhos altos para empurrar Alexandre. Desde pequenininho, ele gostava tanto de olhar para os pais. Tem viva em sua memória, ele, deitado no berço, ao lado da cama dos pais, só sentindo o café espalhar-se pela casa e as ondas do rádio. Enquanto o pai e mãe, suas árvores, começavam o dia e ele, só namorando os dois. Alexandre gostava de admirar aquele quadro cheiroso das suas manhãs de passarinho no ninho, junto das suas grandes árvores. Quando seus pais envelheceram e tornaram-se avós dos seus filhos, ficou ainda mais gostoso estar com eles. Ele e o pai, então, nem se fala, ficaram parceiros. O pai, às vezes, parecia estranho no ninho, quando, na sua infância e adolescência. Mas depois que seu primeiro filho nasceu, Alexandre e o pai, redescobriram-se. Seu pai já faleceu, mas Alexandre, ainda teve tempo, de apagar a sua ausência, quando ele era criança, aproveitando, na vida adulta, da sua sombra e dos galhos, que o pai ofereceu aos netos. Sua mãe foi sempre uma presença sábia, em sua vida e constante. E aquela frase da mãe, que ela dizia sempre, sobre soltar os filhos, parece que ficou verde e viva foi no trabalho, que Alexandre realiza, todos os dias. "Tio Alê", como as crianças gostam de lhe chamar, ajuda no primeiro grande voo, para longe do ninho. A grande separação que se dá no portão da escola, entre mães e filhos, pais e filhos é uma passagem, um ritual, que Alexandre contribui para que seja leve. É um vento que ele sopra, é a frase da mãe que ele sempre diz e assim, mães e crianças, pais e crianças, vão ficando um pouco mais corajosos, para saírem do ninho. Alexandre era um menino que brincava muito sozinho, com seus carrinhos, seu futebol de botão. Na adolescência, vivia na biblioteca com seus melhores amigos, Eduardo e Lieuce. Cursou o colegial, depois foi trabalhar como garçom, o que lhe deu mais ginga. Logo em seguida, trabalhou numa padaria. Até que prestou concurso para agente escolar, e, em 1998, chegou à EMEI Monteiro Lobato. Primeiro, ele trabalhou na faxina e na cozinha, depois esses serviços foram terceirizados e mais tarde, é que de fato, Alexandre começou a trabalhar no atendimento e apoio às crianças, e, à equipe pedagógica. Nesse início, na EMEI Monteiro Lobato, Alexandre sentiu duramente o racismo, mas aos 24 anos de idade, ele ainda não sabia direito identificar e acabou por relevar. Assim como, ele ainda se lembra que na sexta série, lhe deram um apelido racista, que o afastou mesmo, da escola. Ele passou a faltar muito, até repetir de ano e assim, poder cursar em outra turma e não seguir mais, com a antiga, onde havia sofrido racismo, que nessa época, nem sabia denominar. Outras situações, desse tipo, surgiram nesses 24 anos, dentro da educação, sendo 19 anos, apenas na EMEI Monteiro Lobato e ele sabe, que sempre podem se repetir, mas agora, é mais possível lutar por um espaço de respeito. Alexandre acha que a escola mudou bastante, mas ainda precisa mudar mais. Há também, dentro de uma sociedade machista, o estranhamento de um homem, como parte da equipe pedagógica. O mundo machista toca suas arestas em todas as asas, e, assim como, não quer uma mulher realizando trabalhos, considerados masculinos, também não quer, um homem na educação infantil. São as lutas diárias, que perpassam a escola e as pessoas que a constroem. Alexandre, ainda trabalhou na DRE, Diretoria Regional de Ensino, na EMEI Alberto de Oliveira, na EMEI Gabriel Prestes, mas acabou, voltando para a Monteiro Lobato, onde continuou a sua tarefa de escutar o chamado das crianças: "tio Alê"! Duas palavrinhas que lhe acordam o coração. Receber as crianças é contribuir para o desenvolvimento delas, nos menores gestos. Cada criança, que atravessa o portão da escola, ganha mais liberdade no voo e Alexandre, gosta de avistar todas as asas batendo, revivendo sempre, as palavras de sua mãe. E agora, que seus filhos também voaram alto, Alexandre sente que chegou a hora tão esperada, de finalmente, poder estudar psicologia e aprofundar caminhos, porque a estrada é longa. 




História de vida de Alexandre

Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk



Link para escutar a história de Alexandre:

https://youtu.be/9uIoqrWU444



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