História 20 - História de Aline - "Nascida mãe e sempre feminista"




Diz que era uma vez uma menina chamada Aline, que já nasceu feminista. Sua mãe jamais alisou seu cabelo e nunca o deixou amarrado. Nada de saia, vestido e princesa. Shorts e liberdade no parque, esse era o lema. Seu sonho de menina era ser bancária, porque queria ser independente e ter um dinheiro bem seu, fruto de seu trabalho. Era o que sua mãe sempre aconselhava. Vocês, por favor, estudem, dizia, às duas filhas, e, não dependam de homem nenhum". Mas tudo na sua vida mudou e muito, quando ela tornou-se “a mãe”. Quando a maternidade é uma escolha e acontece num tempo bom, ainda que em meio à dificuldades, ela é grandiosa e muda todas as faces de uma mulher, de forma leve e certeira. Aline, quando menina, detestava ir à escola. Chorava, deitava-se no chão e inventava mil e um motivos para jamais ir. Era um sofrimento. Ela cresceu e tornou-se professora, por um acaso da vida. Aos 17 anos, já cursava pedagogia. Tudo, no entanto, ganhou um sentido bonito, mesmo, para sua prática diária, como educadora, quando teve a experiência de ser mãe. Um véu lhe foi desvelado. Sendo feminista, desde menina, seu casamento aconteceu num grau de maturidade, pouco comum. Nada de envolver-se em relacionamentos tóxicos. Aline, certa de quem era, encontrou um companheiro para lhe apoiar e a quem, ela também apoia, cultivando uma relação de confiança e amorosidade. Quando engravidou, leu muito sobre o parto, seu companheiro fez o mesmo, os dois queriam cuidar dessa hora tão grandiosa. Aline queria um parto normal e humanizado. Mas as pessoas diziam-lhe coisas terríveis, contando-lhe histórias, onde o parto normal era quase um risco. Aline escutava e ficava aterrorizada, mas em silêncio, guardava como ouro, sua resolução. Contratou uma doula que a acompanharia ao hospital público, pois não tinha convênio e seu marido estava desempregado. Trabalhava em dois empregos e até o fim de sua gestação, dirigiu na companhia de uma barriga que só crescia, guardando e velando seu pequeno, Theo. No entanto, absurdamente, em nossa sociedade, quando uma mulher engravida, as chances de sofrer violência obstétrica são tão grandes, que esse medo vira um fantasma, assustando os sonhos das mulheres gestantes. Quando era criança,  Aline chorava demais e a mãe até chamava-lhe de "chorona". Por chorar tanto, ela até se achava fraca. Era muita água em seus olhos, sempre. Com vinte semanas de gestação, Aline teve uma perda de líquido amniótico. No hospital, fazendo o ultrassom, o médico disse que não havia líquido nenhum, em sua barriga. O médico foi lhe assustando, ao dizer que o pulmão de seu bebê, não se formaria. Sem água, o bebê não iria respirar. Diziam que sua bolsa estava rompida, pois ela não aparecia no ultrassom. No entanto, Aline não sentia líquido nenhum escorrer e, inclusive, sentia-se muito bem. Toda a equipe dizia sentir muito, pois davam como certa, a perda de seu bebê e falavam em salvar sua vida. Ela não entendia como isso podia estar acontecendo, quando se sentia tão bem. Parece que, de fato, as mães não são olhadas. Quem sabe, se tivessem olhado melhor, teriam percebido que Aline era uma mãe saudável? Depois de uma semana internada, abismados, os médicos escutaram o coração de seu bebê. Eles ainda se perguntavam como ele podia estar sobrevivendo sem água? Pois eles não sabiam que Aline tinha água e muita água? Ela era de desaguar, porque água nunca lhe faltaria e nunca faltará, para toda mulher que se der o direito de sentir. Trabalhar, colocar-se no mundo, mas não prescindir do "sentir". De ficar com o que se sente. A maternidade mostrou a Aline que ela não era chorona, apenas deixava suas águas fluírem e por isso, era muito forte. Suas águas se manifestaram e seu filho cresceu saudável. Os médicos nunca cogitaram um erro, preferiram considerar um milagre. Para toda mãe, seu filho será sempre um milagre. Na hora de nascer, mais uma vez, para evitar qualquer tipo de violência, Aline, que já tinha aprendido com sua doula a identificar cada fase do parto, ia sentindo as contrações e continuando em casa. Esperando a melhor hora. Foi até caminhar no parque. A vontade de ter um parto normal era tão grande e a coragem fluía, como suas águas, que a dupla, Aline e Theo, fizeram um bonito trabalho. Theo nasceu dentro do carro e na porta do hospital. Chegou pronto para entrar, na hora mais que certa. A vida permitiu acontecer o desejo dessa mãe, pelo tanto que ela tentou se proteger de um sistema, que ainda violenta as mães. Theo ficou muitos dias no hospital e mais uma vez, esse sistema que diz cuidar das mães, parece mais colocá-las em sofrimento. Mãe e filho só poderiam ir embora se Theo mamasse. Como se fosse fácil amamentar, equipes de saúde colocam esse desafio para as mães, num momento tão delicado e num espaço nada acolhedor. Em casa, no aconchego da família, tudo poderia ser mais fácil, levando em consideração, que a amamentação por si só, será sempre um grande desafio, fazer a vontade das mães seria um bonito caminho. Aline, que jamais saía de perto de seu amado, Theo, estava exausta. No entanto, juntou o resto de suas forças, que hoje, ela sabe serem volumosas e ensinou Theo a mamar e aprendeu também, para fugir dali e finalmente, cuidar de seu filhote, em paz, junto de seu companheiro, que soube guiar as estradas, abrindo junto com Aline, o caminho da vida, para Theo. Depois de nascida mãe, Aline sente que pode fazer qualquer coisa. Sua empatia para com seus alunos hoje é grande. Ela tornou-se uma professora mais humana. Aline, em sua infância e adolescência já foi evangélica e hoje, percebe o quanto a ideia do pecado acabou lhe sufocando de preconceitos, impedindo que tantas experiências bonitas acontecessem, justo numa época da vida, em que estamos descobrindo o mundo. Ela não quer que isso aconteça ao Theo, cujo nome, aliás, significa "Deus presente". Nada de religião, essa família deseja, apenas, um lugar dentro de si, para cultivar o mistério da vida, lembrando sempre, o quanto o ser humano é  pequeno, diante da imensidão do universo. Honrar essa força misteriosa, que cada um nomeia ao seu modo, será o caminho dessa família. Até porque, Aline não quer fazer parte de uma religião, que permite que um genocida, como Bolsonaro, também faça parte. Embora ela saiba que não são todas as pessoas dessa religião, que concordem com as atitudes desse fascista, em sua opinião, ele jamais poderia ser admitido. Falou e disse, essa nossa Aline, feminista e contestadora, desde menina. Nascida mãe e sempre feminista.

História de vida de Aline

Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk


Link para escutar a história de Aline:

https://youtu.be/ktwxkFfwKg0




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

História 1 - História de Jaci - "Jaci, a que encontrou o seu sol"

História 24 - História de Regina : "Uma professora anunciada"

História de Vida 34 - História de Cema: "Se o mar eles pudessem dar, eles dariam"