História 15 - História de Leninha - "Manto estrelado - Para dar asas a quem precisa voar"





Diz que era uma vez uma moça chamada Gilvanice. Até hoje ela não sabe a história de seu nome, muito menos por que, um belo dia, ela foi chamada de Leninha. Só o que ela sabe, é que se sente muito bem como Leninha. Então, sendo assim, essa é a história de Leninha, nascida em Pernambuco. Leninha carrega consigo um manto estrelado. O céu que ela vê em São Paulo, pode estar apagado de brilho, mas ela sabe que as estrelas ainda estão lá, como em Pernambuco. A beleza de sua infância é assim, apesar de apagada de seu brilho, por uma grande dor, ainda é um manto estrelado. Não é uma noite escura entre dois dias, que irá tirar de Leninha, o céu que acalentava as noites de sua família e que hoje, esquenta suas memórias. Algumas dores não devem ser esquecidas. Devem ser decoradas, para que não se repitam. Leninha era menina e teve que ganhar asas e voar  longe. Foi embora, voou alto, querendo apagar sua dor. Mas hoje sabe, que sua vida não é apenas essa dor e que ela precisa decorá-la bem, pois outras meninas e mulheres precisam escutá-la. Algumas, porque precisam aprender sobre os perigos e outras, para que se abracem numa grande roda, onde uma cura a outra. Mulheres contam suas histórias para que outras meninas e mulheres cresçam alertas. Mulheres contam suas histórias para que meninos e homens sejam outros meninos e outros homens e o mundo assim, seja diferente para outras meninas e mulheres. Conta-se portanto, e dou fé nesse conto, pois assim falou nossa querida Leninha, que estava ao alcance dela e dos seus, o mais lindo céu. Eram quatro casas e um só pátio, um só quintal e um só banheiro para todas as casas. Como se fosse uma vila da família, viviam primos, tias, tios, irmãs, irmãos, avó, divididos em quatro casas. E num quadrado, no meio do encontro das quatro casas, um pátio aberto e um céu pernambucano. Numa das casas, morava Leninha, seus irmãos, a mãe e o pai. Era uma vida tão boa, tão simples. Como gostava de brincar de boneca. Vestia as bonecas com as suas roupas de bebê, que sua mãe, carinhosamente, havia guardado O mais gostoso era a rádio Tupã. Na verdade, um radinho mesmo, que ficava na praça, avisando aos quatro cantos da pequena cidade, tudo o que acontecia, sem deixar de tocar os grandes sucessos. Ao meio dia e ponto, Tupã tocava Fábio Júnior. Todos os dias era assim. Dessa forma, Leninha sabia que era hora de ir à escola, quando escutava o cantor Fábio Júnior. Nas noites mais quentes, todas as famílias, das quatro casas, pegavam seus colchões e iam dormir no pátio, debaixo do céu estrelado. Cozinhavam milho, canjica e era uma festa. Dormiam com a benção dos céus. Colchão no chão e aquele manto estrelado, numa piscadela bonita para adormecer e jamais esquecer. Essa foi a grande bênção da menina. O manto estrelado foi o brilho quando a dor apagou a sua infância. Pois essa sua família era de muitas festas e um dia, saíram todos da vila, para um grande festejo, em pleno dia. Leninha chegou atrasada da escola e não foi junto com todos. Pretendia ir logo que percebeu que faltava só ela. Não havia ninguém nas quatro casas e juntar-se aos seus, era tudo o que ela queria. No entanto, o filho de um grande amigo de seu pai estava ali, na vila de sua família. Para a dor de cada mulher que agora escuta essa história, Leninha, aos doze anos, sofreu a grande violência, que as mulheres mais temem. De tão menina, nem teve voz para contar. Nem voz para gritar. Nem voz para entender. Calou-se. Soube, mesmo menina, que tinham lhe arrancado seu tempo, da mulher que ela ainda se tornaria. Guardou consigo o crime. Tinha medo e lhe faltavam palavras para entender. Mas na escola, as notas eram baixas, a menina emagrecia, não comia. A professora percebeu. A mãe notou. Passados sete meses de agonia, a menina contou o crime e o nome de quem o havia cometido. O pai o queria matá-lo. A mãe o segurou. Na cidade, os homens quando viam a menina passar, a olhavam como se ela, por tal fato, que não viam como crime, já fosse uma mulher. A menina não podia com aqueles olhares. Ela ainda era uma menina. Crescer ainda não podia. Ninguém da cidade olhou para o acontecido como crime e nada aconteceu, com aquele que havia marcado sua família com a dor. Era como se a menina culpada fosse. A tristeza caiu sobre ela. Quando isso acontece é preciso voar para longe, antes que a dor queime tudo. O céu do pátio era largo, mas andava apertado de tantas lágrimas. Foi assim vivendo, até que, ao completar 14 anos, viu chegar de São Paulo, um moço, hoje seu marido, que lhe chamou a atenção, nascido ali mesmo. Arrumou um jeito de namorar o tal moço, com permissão de sua mãe e sem esperar que o amor amadurecesse, que o tempo construísse ninho, pois já tinham lhe arrancado todas as esperas, Leninha casou-se com ele. Rumaram para São Paulo, onde ele já morava. Pronto, as asas que lhe faltavam para fugir daquele lugar, ela tinha arrumado, do jeito que foi possível. Voava para bem longe. Mas levava com ela o seu manto estrelado, das noites no pátio, junto dos seus. Esse manto ninguém lhe arrancaria. As histórias que a mãe, que jamais deixava a filha ir brincar na casa das amigas e que por isso, vinham todas para a porta da vila brincar com Leninha, ela também levaria consigo. Eram 14 meninas na porta de sua casa, querendo brincar junto e ouvindo a sua mãe, contar histórias de assombração. A bênção de suas mulheres, o manto estrelado das noites de dormir fora de casa, só porque o céu era bonito, deram a força de voar. O casamento, as asas. Mais tarde, com o tempo podendo ser vivido de verdade, no seu ritmo, Leninha percebeu no marido, um grande companheiro. Aos 17 anos, ela teve sua primeira filha, mas sem saber muito sobre a vida e longe da mãe, não sabia se cuidava da filha ou se estava a brincar de boneca. A vida era difícil e guardava Leninha, uma vontade imensa de criar asas para estudar. Criar asas só para fugir não era apenas o que ela havia sonhado. O tempo seguiu no cuidado com sua família e na luta para sobreviver. Quando sua filha tinha 13 anos, Leninha pensou que, finalmente, teria asas para estudar, mas engravidou mais uma vez. Nasceu outra menina. Era para ser a alegria de mais um nascimento. No entanto, para se dar esse parto, Leninha passou por uma noite assustadora e terrível, entre dois dias. Violências aconteceram no seu parto, dentro do hospital. Sua filha teve 3 paradas respiratórias, ficou muito tempo sem respirar e só por um milagre, nasceu e sobreviveu, depois de muitos dias internada. Leninha já havia começado a trabalhar na cozinha da EMEI Monteiro Lobato e foi essa, a âncora que a segurou nesse turbilhão de medos e desafios. Medo de perder a filha, medo de todas as sequelas que poderia se abater sobre sua bebezinha, depois de um parto tão traumatizante e de tantos erros médicos e violência obstétrica. Leninha ainda carrega seu manto de estrelas. Portanto, uma noite sem brilho é só uma noite entre dois dias. Sua menininha venceu todas as batalhas e aos três aninhos, carrega todas as estrelas do céu de Pernambuco e do mundo todo, na vivacidade dos seus olhinhos. Ela perdeu o movimento do braço esquerdo, mas nada a impede de ser um redemoinho de vento, ligeiro. Se lhe faltou o ar, quando nasceu, agora falta ar para que sua mãe, Leninha, corra atrás de toda sua gana de viver. A família de Leninha vive feliz, mas numa luta muito grande, como é a de tantos trabalhadores e trabalhadoras desse Brasil, injusto. Depois de morarem numa casa de madeira, que nem banheiro tinha, agora desfrutam, finalmente, de uma casa de tijolos. Recentemente foi que Leninha, ganhou num sorteio, o banheiro tão sonhado. A família vive bravamente. Um pássaro ferido Leninha já foi, mas guardado num ninho bonito, que é a sua família, ainda pretende esticar voo para estudar pedagogia. Enquanto isso, cozinhar na EMEI Monteiro Lobato, aquece de vida, suas mãos. Em São Paulo, as estrelas nem podem ser vistas, mas Leninha, carrega seu manto estrelado próprio, colecionado nas noites pernambucanas e tem brilho para alumiar qualquer noite escura. Uma noite sem luz é só uma noite, entre dois dias e as asas de Leninha, agora mulher, são para lutar para que ninguém mais lhe roube o tempo de plantar, de semear, de regar, de ver florescer. Para que ninguém mais lhe roube uma só estação. Seu caminho há de brilhar, nos mais doces frutos, amadurecidos em tempos de delicadeza. São os votos de toda mulher, de toda menina-mulher, que cruzarem as linhas dessa história. Assim foi e assim será, não só para Leninha, mas como para suas filhas e todas as filhas das filhas de toda mulher.






História de vida de Leninha

Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk


Link para escutar a história de vida de Leninha:

https://youtu.be/WAd1AamdoCU





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