História 16 - História de Mariana - "Onde o sol e a lua brilham mais"
Diz que era uma vez, uma mulher chamada Mariana, sempre grávida de suas mulheres. Das mulheres todas de sua família, sua mãe, sua vó, sua tataravó. Mas quem ela pariu mesmo foram gêmeos, uma menina e um menino, Carmen e Leon. Uma menina e um menino, equilibrando e misturando, o masculino e o feminino, permitindo aos homens serem um pouco "lua'' e às mulheres, um pouco "sol". Liquefazendo fronteiras. Saboreando muitos papéis. Afinal de contas, Mariana guarda a vontade de estar no palco, como atriz. Esse sonho, ela vai colhendo, em tantos cantos do mundo. Depois de ter feito a vontade do pai, de ter estudado publicidade e ser muito bem sucedida, logo mais, chegará ao ponto de fazer a sua, como um dia fez sua avó, mãe de sua mãe. A avó separou-se de seu avô, o rei da Sucata e foi estudar geografia na Usp, até dar-se conta, de que seu caminho era a psicologia. Formou-se e foi morar em Olinda, trabalhando no CAPS. Acompanhar essa sua avó, mãe da mãe, coloriu a sua vida. Desmanchou fronteiras. Nas férias, Mariana viajava para estar com a avó e os primos, acompanhando-a em seus trabalhos no CAPS. Assim, ia tocando os fios da vida, por diversos pontos de vista. A avó experimentava o sol que toda mulher também é. Iluminava a vida dos netos, para além da sua força de ser mulher, naturalmente lua. Confundindo os netos, em bonitos eclipses. Nascida numa família privilegiada, de um país tão desigual, a avó, ajudava Mariana a compreender as difíceis realidades. Nascida em Roma, porque um dia, o pai colocou uma mochila nas costas e foi parar na Itália. Quando lá chegou, a mãe vendeu o seu piano e foi encontrá-lo. Assim, nasceu Mariana. O pai era jornalista e trabalhou na rádio Vaticano, até que voltaram para o Brasil, quando Mariana tinha três anos. Os pais mais tarde separaram-se. Ela foi morar com a mãe e a tia. Mariana sempre rodeada de suas mulheres. Das alegrias, das dores e da intensidade do cuidado da noite e da lua, tão profundamente femininos, depois quis experimentar também, a intensidade do sol e do universo masculino e foi estar com o pai. Talvez os pais tivessem passado a vida, cada um, enraizado num lado da ponte, nos extremos, do que é ser lua e do que é ser sol. Mariana parecia querer passear pelos dois lados e também, experimentar o meio, aquele ponto, onde não há margem e tanto o sol como a lua, parecem brilhar mais. É no meio da ponte, que costumamos parar e finalmente olhar para o céu. Talvez a vida tenha lhe dado de presente, a força de carregar "dois", em menino e menina, em Carmem e Leon, para unir as pontas e estarem todos no meio, olhando mais para o céu. Na imensidão ensinada pelo céu, uma mulher pode ser mais masculina, um homem mais feminino. Todos esperando a lua ou o sol chegarem. Foi quase que no meio da ponte, que numa noite, Mariana conheceu seu companheiro, Jean. Aos 31 anos, ela havia decidido estudar artes cênicas, teatro de improviso, caminhando mais perto do seu sonho. Ávida por conhecer a arte que estudava foi assistir a uma peça de teatro. Enquanto esperava o sinal, para o espetáculo começar, viu entrar um homem com echarpe . Bem pouco comum - ela pensou - um homem usando uma echarpe. Ela o tinha notado tanto, por esse pequeno detalhe, que para ela, tinha muita importância. Para sua surpresa, o tal moço, de echarpe, caminhava em sua direção. No teatro, os lugares são marcados e o dele, quis o seu mapa, que fosse bem ao lado de Mariana. Quis o mapa de Mariana, que se sentasse bem ao seu lado, um moço de echarpe, com um pouco de lua. Logo, começaram a namorar e logo, vieram dois, de uma só vez. Quando Mariana engravidou, a primeira coisa que o médico disse brincando, só para descontrair foi a pergunta: "são dois?" Eram dois. Dois movimentos bonitos da vida, o do menino e o da menina. O sol e a lua. Duas forças que movem tudo em nós e que Mariana, parece querer brindar em pequenos sinais e mapas do caminho, sem jamais deixar de engravidar de todas as suas mulheres. O companheiro de Mariana nascido na França, sempre carregou consigo, que a escola pública é o melhor lugar, pois assim acontece em seu país. No Brasil, a rede pública de ensino carece de confiabilidade, em parte pela realidade precária, noutra, porque requer intensa participação de toda a comunidade de pais e educadores, o que talvez ainda precisemos aprender. Quando Carmem e Leon chegaram à época de ir à escola, Mariana e o companheiro, matricularam os filhos, primeiro numa creche, sempre sonhando com a EMEI Monteiro Lobato e seu grande e gostoso quintal. Mariana ficava sempre a namorar a escola, pelas grades, sonhando em ver os filhos correndo por ali. Assim foi. Carmem e Leon estudam na EMEI Monteiro Lobato e como mãe, ela participa, cuida da horta, conta histórias e sente que foi a melhor escolha. De novo, parece uma escolha que faz a família parar no meio da ponte, olhar, só esperando o momento quando o sol e a lua brilham mais. Essa espera também é cheia de trabalho junto, de mãos dadas, com toda a comunidade escolar. Crianças vão para a escola, mas são os pais, que aprendem a girar a roda, de mãos dadas, outra vez. Quando nascemos, não somos nem como o pai e nem como a mãe. Somos os dois e ao mesmo tempo, nenhum dos dois. No entanto, vamos carregar a força de em algum momento, ter sido "dois", por toda a vida. Mariana experimentou duas vezes essa força. Carregou Carmem e Leon e os dois, o sol e a lua, da família, estarão sempre sendo "dois" e ao mesmo tempo, "um". Misturando as duas forças, descosturando e embaraçando as pontas do sol e da lua, em bonitos eclipses e pondo a família e Mariana, a olhar mais o céu, bem no meio da ponte. Mariana sabe bem como é, pois quando amamentava os dois, as mãozinhas deles encontravam-se bem no meio do seu peito e o seu sorriso nessa hora, talvez devesse ser como um eclipse, onde o sol encontra a lua, onde a lua encontra o sol.
História de vida de Mariana
Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk
Link para escutar a história de vida de Mariana:

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