História 17 - História de Eliane - "Tornar-se a mulher que se quer ver nascer"
Essa é uma história de coração comprimido e assustado, justo um coração nascido largo. Mas a vida, sempre guarda muitos finais, para melhores começos, pois são infinitas as possibilidades de mais uma vez, o dia raiar. Algumas vidas ficam muito perto do fogo. Queimadas, quase viram cinzas. Não aprenderam que o fogo precisa ser vigiado. É tão bom sentar-se em volta do fogo, observar todos os seus tons de laranja e sangue, todo o intenso calor. Mas hai que vigia-lo, para que não queime e para que não se apague. Nem toda mulher aprende cedo, com outra mulher, que o mundo ainda não é um lugar seguro para as mulheres. Nem toda mulher tem a companhia de outras mulheres, para serem abraçadas, diante da violência e da morte, de tantas outras mulheres. O feminicídio é uma realidade. Mas quem fala assim tão abertamente, como fato e não como algo, que jamais irá acontecer? Quem fala sobre a violência psicológica, sem antes culpar as mulheres? Quem reafirma que nunca se trata de ciúmes ou brigas de casal, mas apenas e somente, de abuso e violência? Eliane viveu com suas mulheres, mãe e irmã. O pai, logo, abandonou as três. A mãe teve que trabalhar muito, para criar as filhas. Desde cedo, Eliane foi quem cuidou da irmã. Mesmo sendo criança foi a mãe dela. Eliane não teve infância. Nem sabia o que era brincar e sonhar. Eliane, a mãe e a irmã eram quase uma pequena roda de mulheres, mas nem sabiam que podiam nutrir a alma uma da outra. Procuravam sempre fora, o alimento que elas mesmas podiam se dar. Um amor que elas mesmas podiam aumentar. Mas isso acontece com toda e qualquer mulher, em maior ou menor grau, dada também, sua realidade social. As mulheres aprendem a buscar no mundo, o amor, quando ele mora dentro. Mulheres têm até dois corações. O útero pulsa como o coração. No entanto, as mulheres tantas e tantas vezes, buscam amor, onde ele nem passou perto. Quando podiam sair para buscar a própria lenha, naquilo que mais sonham, acendendo grandes fogueiras. Bem, mulheres ainda estão aprendendo a colocar cada violência em seu lugar. Isso é muito novo para todas. Separar o amor do que é abusivo. Encontrar o amor por si mesma, que mais parece uma agulha perdida num palheiro. Para quem nem teve infância. Para quem nem teve adolescência. Não, isso não foi nada fácil. Aos 19 anos, Eliane conheceu o pai de seu primeiro filho, sem saber que ele seria o seu agressor. Até sua própria mãe ele agrediu. A sua vida ele quase cortou o fio. Medida protetiva era pouco. Ela teve que ir morar na Bahia, com a tia, por um tempo. Quando voltou, saía para trabalhar, sempre escondida. Seu crime? Acreditar que esse homem era o seu amor, pois não era o pai de seu filho? Envolvido no crime foi ele quem morreu. Morreu duas vezes, porque Eliane só quer esquecer tudo o que se passou. No entanto, como pode a vida ser tão difícil e ao mesmo tempo tão bela, como foi receber seu menino Kauã, hoje, com 16 anos. Ele também não teve infância. Infelizmente, revive as dores da mãe, da mãe da mãe. Mas cada geração, acrescenta algo um pouco mais bonito, à próxima. Como Kauã já é muito, irá soprar a sua ternura, como homem e como pai, acrescentando muito mais do que muito, às próximas gerações. Seus dois irmãos já conhecem esse menino pai, que cuida deles, com tanto amor. Eliane ainda teve dois outros relacionamentos e um filho, em cada um deles, Abraão e Isabelly. Infelizmente, reviveu nessas histórias, com esses dois outros homens, mais violência. Todo o seu tempo de vida, como mulher, só conheceu a violência. Todo o seu tempo de vida, como mãe, passou sozinha, sem apoio nenhum. Até mesmo quando um deles passa mal, ela precisa ir com os três até ao hospital. Não conta com nenhuma rede, nem ao menos, uma mão. Sempre vai à Santa Casa, quando um deles não está bem. As enfermeiras já conhecem sua história, sua família de mãe solo e providenciam um lugar bom, para os filhos que não estão doentes, esperarem. Por isso, Eliane gostaria de estudar enfermagem. Cuidar da saúde e da vida, como um todo. Eliane ainda conseguiu terminar os estudos, mesmo presa numa teia de violência contínua. Falta ainda, fazer uma faculdade, o seu sonho. Conseguiu que os filhos estudassem sempre, em boas escolas. Mas é uma luta por cada centavo, por cada grão, por cada dia. Ela sempre diz a si mesma: "mãe passa fome, os filhos, não". E assim tem acontecido. Mas em cada trabalho por que passou, acabou ficando muito pouco com os filhos. Dói, quando Abraão, de oito anos, olha o dia bonito e seu único pedido seria ir ao parque. Mas como deixar as crianças saírem sozinhas? No entanto, é melhor não se lamentar, pois muito pior, ficariam as coisas, se não houvesse trabalho, como já aconteceu. Foi assim, antes de chegar à EMEI Monteiro Lobato. Finalmente contratada, depois de tanta procura, por meio de uma rede terceirizada, num programa, o POT, que teve início na pandemia. Eliane chegou para higienizar as mãos das crianças, medir a temperatura, reforçando o trabalho da equipe escolar, no combate ao COVID. O programa durou um ano e foi renovado. Uma grande oportunidade para Eliane e sua família de três filhos. Mas não foi somente isso. Chegar à EMEI Monteiro Lobato, com seu quintal cheio de árvores, sua horta, balanços e brinquedos, devolveu à Eliane, a infância que ela nunca teve. Nem olhar as árvores houve tempo em sua vida. No entanto, agora tem sido bom trabalhar, acompanhando o vento balançando as folhas. Como são belas as árvores, vergam e não caem. Sentar na terra, balançar. Nunca houve tempo para balançar. Balança a menina que a Eliane já foi um dia. Balança, toma vento e respira. A horta que toda a comunidade da EMEI Monteiro Lobato tanto cuida, ensinou Eliane a plantar. Sua casa já tem vasos e plantinhas. São brotos vicejando em sua vida. No entanto, o verde que nasce, brota de dentro de sua alma de mulher, que finalmente, respira. A seiva que circula em sua vida, chega do amor por si e pelos filhos. Compreendeu a grandeza do fogo, o tanto que queima e apaga. Sua lenha e seu fogo são acesos por suas mãos. Podem ser apenas uns poucos gravetos, mas é ela quem aquece a si mesma, para que o coração volte a ser largo, como um dia que apenas nasceu. A grande feminista Bell Hooks, um dia escreveu uma frase, que parece um presente para Eliane:
"A luz do amor está sempre em nós, não importa quão fria esteja a chama. Ele está sempre presente, esperando uma fagulha que o inflame, esperando que o coração desperte e nos leve de volta para a primeira lembrança de ser a força da vida dentro de um lugar escuro esperando para nascer — esperando para ver a luz".
Vá, mulher, torne-se o que você quer ver nascer.
História de vida de Eliane
Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk
Link para escutar a história de vida de Eliane:

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