História 18 - História de Bruna - Inaugurar começos, como gosto bom de sorvete



Diz que era uma vez uma mulher chamada Bruna. Sua história será contada num começo leve e bom, de uma menina que tinha o melhor pai do mundo. O aniversário do pai acontecia no dia primeiro de janeiro. Inaugurava o ano. Anos sempre gostosos, de uma família trabalhadora, que morava num prédio antigo, no centro de São Paulo. Uma mãe mineira e um pai baiano. A mãe trabalhava como diarista e cuidadora de idosos, dia e noite. O pai, então, cozinhava e passava muito tempo com as três filhas. Sexta era o dia da pizza. Sorvete no centro da cidade começava primeiro tentando avistar o horizonte, embaçado de prédios. Da janela do apartamento, ela e o pai olhavam o prédio do Banespa. Bruna, dizia, "pai é muito longe". O pai baiano dava um de mineiro, "imagine, só, é pertinho". Os dias de sorvete ficaram no gosto da memória de Bruna. Era a procura do longe, primeiro, e depois, o gosto bom. Sorvete de mãos dadas com pai? Esses são inesquecíveis. Era uma menina danada e levada, essa, junto com suas duas irmãs, mais um tanto de meninas que moravam no prédio, elas ferviam. Menina brinca de boneca? Que nada. No primeiro andar desse prédio antigo, havia um hall bem grande e era ali, que elas brincavam correndo pelas escadas, até de bola. Quando iam brincar de boneca demoravam tanto para montar a casinha, que ficavam cansadas. Pois se não é assim, mesmo, na vida real, das tarefas domésticas? Foi uma infância boa demais. Bruna guardava o sonho de ser veterinária. Cuidar de bicho grande, boi, cavalo. Num dia triste, o pai cozinhou uma feijoada baiana das mais gostosas. Era um sábado bom. Porém, o pai  passou mal e logo avisou as filhas, pois ele soube que estava morrendo. De fato, deu-se a triste partida. A dor foi tão grande que Bruna nunca falou sobre isso, por muitos anos. Os seus doloridos quatorze anos se passaram. Ela pretendia ainda ser uma cirurgiã veterinária, mas seguindo o rumo das irmãs foi para a área da saúde e há muitos anos, segue como auxiliar de enfermagem na maternidade da Santa Casa. Parece que Bruna gosta de estar presente nos começos de tantas vidas. Quem sabe assim, recriar aquela emoção do primeiro dia do ano, quando seu pai tinha chegado ao mundo? Toda aquela esperança! Toda a felicidade e beleza em recomeçar um ano está para a esperança grande de começar a fazer parte da vida de uma criança. Todo dia, Bruna pode reviver junto com tantas famílias, a emoção de um começo, de uma chegança. Pelo hospital, às vezes passa a morte e ela vai aceitando essa condição humana, que anda colada à vida. Um dia, a vida que é tão bela, deu à Bruna a emoção de um começo de vida, dentro de seu ventre e ela tornou-se mãe da Sarah. A Sara estuda hoje na EMEI Monteiro Lobato e eis que, puxando o fio, chegamos à vida de Bruna, que  facilita e inaugura a passagem de outra tantas vidas, na mesma força de começo, do pai, o melhor do mundo, embelezador de quatorze bonitos anos de sua vida. Bruna quer ser também, a memória boa, de gosto bom de sorvete, para sua menina, Sarah.


História de vida de Bruna

Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk



Link para escutar a história de vida de Bruna:

https://youtu.be/y5Zr6p4rEZQ


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