História 21 - História de Marineide - "Brasil, você guarda as suas crianças? A história de quem foi criança sem direito de Ser"

 





A história de quem foi criança sem direito de ser


Essa é uma história que começa na Bahia, na cidade de Senhor do Bonfim. Marineide era só uma menina, dos sete filhos de sua mãe e de seu pai. Sua mãe trabalhava todo santo dia, do escuro do dia ao escuro da noite. O pai só sabia chegar, junto com a bebida, e, colocava os filhos, todos de cara para a parede. Num castigo, que só terminava, quando a mãe chegava. Que felicidade dessas crianças, quando essa mãe abria a porta. O pai morreu, quando Marineide tinha 4 anos, ela ainda se lembra do dia em que a mãe a levou, junto de todos os seus irmãos, para ver o pai no hospital, com derrame, já não falando mais. Foi uma triste despedida. Aos 5 anos, ela foi enviada para São Paulo, na casa da madrinha. Porém, nessa casa, ela não conheceu uma segunda mãe e sim, uma madrasta. A violência parte dos homens e termina nas crianças. Hoje, essa madrinha, mais velha, trata bem os seus filhos, mas naquela época sua, de criança, ela judiava. O que salvou Marineide foi o padrinho. Por fim, voltou para casa. A mãe mandou-a buscar. Com dez anos, ela foi trazida de novo para essa cidade de pedra. Aqui, ela foi trabalhar numa casa em São Miguel, como doméstica. Mas ela era somente uma criança. Acabou sendo acusada de comer um queijo que ela não havia sequer chegado perto e ficou tão brava, que fugiu. Encontraram Marineide e foi aí, que acharam mesmo, que ela tinha de fato, por causa da fuga, comido o tal queijo. Mandaram ela outra vez para a Bahia. Mas a menina, inteligente, quis saber do dinheiro do seu árduo trabalho infantil, realizado naquela casa, durante dois anos. Disseram que tinha sido usado para comprar a passagem de volta. Sozinha, ela retornou. O que pode uma criança diante dos adultos? O que pode uma criança negra no Brasil? De volta à Bahia foi trabalhar como doméstica, nos seus 12 anos, numa casa onde moravam três meninas. Marineide se via com a idade igual ou aproximada delas. Por que ela, então, cuidava das meninas? Ela começou a desconfiar de tudo aquilo. Voltava desse trabalho de madrugada, sozinha, pela linha do trem. Tão criança, Marineide, que um dia, ainda escuro, chovendo, um homem ofereceu carona, no guarda-chuva. A menina aceitou. O homem veio para agarrá-la. Mas nessa vida, ninguém agarra Marineide. Um corisco nos pés, com a santa providência de todas as crianças, ela escapou. Porém, viver escapando, cansa. Que coragem essa menina poderia ter para estudar? O irmão até comprou um estojo. Para quê? Roubaram sua infância e ainda queriam um diploma? Escapou para Juazeiro, aos 14 anos. Trabalhando em outra casa, como doméstica, numa noite, seus patrões começaram a brigar. Ela fugiu e foi para a beira do Rio São Francisco. Nas águas do Chico, sem eira nem beira, roubaram seu chinelo e com os pés descalços, encontrou uma mulher. Deu-lhe um trabalho, mas quando o marido dessa mulher morreu, Marineide não lembra se de tiro ou não, ela quis ir embora. A mulher pagou-lhe as passagens. Trabalhava e tanto, essa menina, sem nunca receber. Foi para Salvador, aos 17 anos. Trabalhava para morar. Na época, sua alegria de adolescente era gostar dos Menudos, seguir os sósias e um dia, quando eles passaram por Salvador, ela foi ao show, na Fonte Nova. Alguns acontecimentos valem todas as dores de uma vida. Aos 18 anos, mudou de patroa e com registro. Primeira vez na sua vida. Começou a namorar o Manoel. Um dia, ele foi-se embora para São Paulo e não a levou. O namoro ainda continuou pelo orelhão, aos finais de semana. Mas um dia, Manoel chamou Marineide, para junto dele, em São Paulo. Marineide, então, foi pegar sua carteira de trabalho com a patroa. Pois não era de ficar pasma? A patroa disse-lhe que tinha perdido sua carteira. Não recebeu nada, mais uma vez. Partiu, sem carteira e sem registro e sem dinheiro e sem endereço. Lá veio, Marineide, descendo para a cidade de pedra, encontrar Manoel, que ainda por cima, tinha engravidado outra mulher. Ele arrumou um trabalho para ela e essa foi a primeira patroa boa, segundo as experiências passadas. Já o namoro, com o Manoel, ia de mal a pior, por causa de sua traição, o que seria mais do que lógico. Essa nova patroa foi para os EUA. Marineide, ainda dormiu dois dias no apartamento vazio, até que uma amiga de sua patroa, lhe arranjasse outro trabalho. Marineide tinha 21 anos e ficou dois anos nesse novo emprego. Ela morava no apartamento e à noite, estudava. Foi quando ela conheceu uma amiga na escola, que a levou aos bailes e pela primeira vez, pôde curtir um pouco a noite paulistana e a sua juventude. Até então, ela nem conhecia a cidade de São Paulo. Nem saía. Só trabalhava. Deu-se então, o encontro com o pai de seu primeiro filho. Ela trabalhou até os oito meses de gravidez e viajou para a casa de sua mãe, em Senhor do Bonfim, com aquela barriga enorme e o filho perto de nascer. No parto, ela ainda sofreu violência obstétrica, nessa sua primeira experiência de parir, que poderia ter sido um desabrochar bonito. Mas de novo, a vida pesando. Teve que deixar o filho com a mãe e voltou para São Paulo, indo morar numa invasão, na casa improvisada de sua amiga. Aguentou 15 dias, apenas. Era muita gente. Depois, ainda foram cinco anos entre casas de patrões. Em casa de patrão você tem hora para acordar e começar a trabalhar, mas nunca tem hora para descansar e dormir. Até conseguir morar de aluguel, e, logo, comprar um cômodo naquela ocupação. Esgoto à céu aberto, rato, barata, tudo tão difícil e outro filho e mais uma vez, sem pai. Teve três filhos nessa casa e nenhum pai ficou. Os homens só sabiam ir embora. Sempre parindo sozinha e numa luta sem fim, para aumentar aquele cômodo, para pagar pessoas que olhassem os filhos e assim,  trabalhar. Só um desses homens ficou, mas trouxe tanta violência e amargor, que foi um alívio ele ter partido. Família, para Marineide são seus filhos. Ela fez e faz pelos filhos, o que nunca fizeram por ela. Sua vida poderia ter caminhado para lá, do fim de si mesma, pois todos à sua volta a empurraram para esse lugar, o fim, mas ela nasceu em Bonfim. Tem um bom, antes do fim. Ela diz que não sonha mais, ganha tão pouco para sobreviver, que não sonha mais e tinha tanto sonho, essa Marineide. Depois de tantos patrões, ela passou a trabalhar em empregos terceirizados, faxina em hospital e hoje, na cozinha da EMEI Monteiro Lobato. Ela leva muito tempo para chegar ao trabalho, mas tem sempre aquela energia e vigor, desse "bom" que vem antes do "fim", das entranhas da sua terra, de Senhor do Bonfim. Mas ela sabe se mover mesmo é em São Paulo. Um dia, Manoel lhe procurou pelo Facebook. Estava morando na Alemanha e como pretendia passar pelo Brasil, queria vê-la. Marineide, de novo ficou feliz, com essa promessa toda. Mas ele não teve coragem, nem tutano, para firmar o pé nos erros todos, porque como todos os outros homens foi-se, assim que a responsabilidade apareceu-lhe. Deixou-lhe um presente caro e nunca deu uma explicação. Apareceu só para arrancar mais uma lasquinha do seu coração. Marineide é Marineide, ela tem um "bom" antes do "fim", valendo-se de Nosso Senhor do Bomfim e o que ficou para trás, ficou fincado. Marineide gestou sozinha, pariu sozinha, criou sozinha. Pai na sua história existiu para morrer ou ir embora. De novo, foi colocando um bom fim em tudo. Só o que ela não deixa para trás é a sua criança. Marineide tem brinquedos, ursinhos, gosta de doce, chiclete, bala. Alguns dizem que ela não cresceu. Os que assim falam, não sabem de sua história. Não sabem que nela mora uma criança, que nunca pôde ser criança. Uma criança, uma menina negra, obrigada a trabalhar nesse Brasil, onde famílias se dizem "sagradas famílias", mesmo contratando trabalho de criança. Toda criança é nossa responsabilidade. Sendo nossa ou não, devemos protegê-las. Por isso, pela sua menina, que um dia ela foi, ela quer andar de bicicleta, comer muito doce, bala e vive assim,  rodeada de passarinhos, que cantam das suas gaiolas. Marineide a vida toda, cantou, ainda que dentro de tantas gaiolas, gaiola-trabalho sem salário, gaiola infância sem escola e esperança, gaiola-casa de ocupação sem saneamento e condições. Gaiolas foram muitas. Mas o canto e a beleza da sua alma, isso ninguém nunca agarrou. Ela diz que não sonha, mas sonha todos seus sonhos de criança. O Brasil racista permite que uma criança negra não tenha infância, mas a escola hoje, a que ela trabalha, a EMEI Monteiro Lobato, quer escutar a voz de Marineide, para que a sua história seja contada e cada família de patrão lembre-se bem, que uma nova geração, já se sabe cidadão e cidadã, de direitos nas mãos e nos pés, abrindo gaiolas para todo o nosso povo voar. 


História de vida de Marineide

Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk


Link para escutar a história de vida de Marineide:

https://youtu.be/80WheboRw1w


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

História 1 - História de Jaci - "Jaci, a que encontrou o seu sol"

História 24 - História de Regina : "Uma professora anunciada"

História de Vida 34 - História de Cema: "Se o mar eles pudessem dar, eles dariam"