História 22 - História de Dilma: "Será um rio? O que ela segue?"
Debaixo de tanta rua desta cidade de São Paulo tem rio. Rios silenciados por toneladas de concreto e diz que nessa grande cidade, mora uma mulher, de nome, Dilma. Filha de migrantes nordestinos, trabalhadores rurais de Alagoas. Essa mulher sempre acreditou que seus pais tinham vindo para São Paulo, como tantos outros nordestinos o fizeram, na tentativa de melhores empregos ou para fugir de uma das grandes secas. O nordeste é regido por rios e principalmente pelo velho Chico. É difícil para um nordestino chegar em São Paulo e andar por cima de um rio amordaçado por concreto. Sem canoa, sem travessia é preciso inventar um sentido. No caso de Dilma, mais um outro sentido, porque sua família não veio para São Paulo em busca de uma vida melhor. Seu pai veio para fugir de um grande conflito, em sua família, e, que na verdade, é a grande contenda do Brasil. Porém, Dilma, apenas descobriu isso, depois de mulher feita, depois da mãe já ter partido dessa vida, depois de fazer uma travessia pelo velho Chico, ao lado de seu velho pai. Só depois de navegar pelo rio São Francisco e cruzar o fio das memórias da família é que seu velho pai lhe contou, o verdadeiro motivo de ter deixado "sua" Alagoas. A mãe de seu pai, avó de Dilma, não aceitava o casamento dele com sua mãe, por ela ser uma mulher negra. A avó paterna era mestiça, de origens indígenas, mas ela não se via como tal. O avô paterno era um homem branco e o filho, o pai de Dilma, também havia nascido branco. A contenda foi ficando muito triste para todos. Seus pais, carregando sua irmã mais velha, no colo, vieram para São Paulo, ocupar um bairro da periferia, que ainda guardava o clima do interior, onde as crianças brincavam livremente pela rua, ainda de roda e ainda faziam seus próprios brinquedos. Na rua, sempre na rua, mas buscando o sentimento da travessia, Dilma tem paixão pelos cortejos, pelas procissões. Será porque essa mulher-menina, cheia de silêncio nas palavras, quer fazer caminho de rio? Pois as ruas de São Paulo, não correm por cima de tantos rios? Pois São Paulo não é um cruzamento de tanto veio, de tanto braço? Dilma demorou para se ver como uma menina, uma mulher negra, pois a tal história, o pai só lhe contara tão mais tarde. Somente já sendo mulher feita é que viu a casa de taipa, onde sua avó materna deu à luz à sua mãe, mulher negra. Ah, se Dilma soubesse que também era uma mulher negra, assim, ainda menina. Ah, se Dilma ouvisse contar as histórias de seus antepassados e pudesse olhar-se no espelho de qualquer água, como essa mulher negra, tudo teria sido mais brilhante e com mais sentido. Os antepassados de Dilma, quando foram escravizados, corriam para a liberdade, seguindo curso de rio. Dilma segue pelas ruas de São Paulo fazendo uma travessia silenciosa e sem canoa. Ela desliza, porque escuta ao longe, um toque de tambor. Bem longe, para lá dos seus antepassados. Por ser tão longe, o toque, ela nunca pára de atravessar a cidade. Ela desliza, porque passou a infância, ainda que numa periferia de cidade e de São Paulo, a escutar as fantásticas histórias de sua mãe, todas na beira, no fundo e nas águas do Velho Chico. Ela desliza, porque escuta a cantiga longínqua da mãe, a fiar numa voz de acalanto, os versos:
"Leva, eu, sodade. Se me leva eu vou"
Quanto mais Dilma escuta os versos, os tambores e as histórias do Velho Chico, mais longe ela vai. Para mais longe, ela chega. Essa é uma mulher que espalha cortejo, que tem veios. "Se me leva, eu vou" esses versos ninaram seu sono e deram-lhe essa vontade de viajar, de conhecer paisagens. De reparar nesse Brasil, no quanto as estradas vão mudando, à medida que se corre por elas e no quanto uma só cidade coleciona diferentes paisagens. Por isso mesmo, Dilma, um dia foi estudar geografia. Mas antes, começou pela educação. Um tanto desconfiada, mas foi apaixonando-se, à medida que o curso de magistério, ela fazia, principalmente, pelas aulas de filosofia da educação, sociologia, porque as reflexões todas contribuíram para que ela pensasse sobre o lugar em que morava. De menina, morava na periferia com cara de interior e sua casa era um lugar de passagem. Um pontinho de acolhimento na imensidão dessa São Paulo. Os pais abrigavam todo conhecido ou desconhecido, que vinha do nordeste, tentar a vida em São Paulo. As pessoas ficavam só até encontrar seu parente, achar um canto. Era só uma passagem, que tornava a casa cheia, embora fosse pequena. Dilma e as irmãs ficavam só escutando as notícias, as conversas e colhendo um tanto de informações sobre o grande nordeste. Iam bebendo um tanto de sertão, que aquelas pessoas todas traziam no olhar, na fala, na dor. Juntando com as histórias da mãe, o tal do sertão ganhou um lugar de importância, tornou-se quase uma entidade, que ela passou a carregar, talvez no silêncio, talvez até na dor, de ter perdido sua mãe, ainda jovem. Em dado momento, por causa do trabalho do pai foram morar, sem precisar pagar aluguel, num bairro de classe média. Dilma foi estudar numa escola pública, que na época era considerada de muita qualidade. Morando até então, na periferia, Dilma se via nas crianças que conviviam, a maioria mestiças e negras. Ali, naquela escola, foi a primeira vez que percebeu o que era ser uma menina negra, numa escola de brancos. Na sua sala eram 35 alunos brancos e apenas 4 alunos negros. Porém, Dilma não considera um momento negativo, pelo contrário, permitiu-lhe pensar na diversidade e a escola era muito boa. Tinha uma sala de leitura abastada. O pai sempre comprava gibis, para ela e as irmãs. Toda semana, ele trazia um gibi novo. Mas livros, elas nunca tiveram. Pela primeira vez, Dilma deslumbrou-se com uma sala repleta de livros, bebeu do cheiro de todos eles. Novos, amarelos, antigos. Amava as cores, a maneira como ficavam arrumados. Apesar da época ser a da ditadura, foi nessa escola que ela menina, aprendeu por meio das chapas do grêmio, a organizar-se politicamente. Quando chegou a hora de escolher uma profissão, um trabalho, depois de um curso de datilografia, Dilma pensou em ser secretária, mas acabou, por sugestão de uma amiga, matriculando-se no magistério e foi nascendo sua grande paixão, lecionar, coordenar, estar à frente da educação. Quando iniciou as aulas desse curso, ela e a família voltaram para o antigo bairro. Mas agora, o bairro já não tinha mais o jeito de interior. Havia crescido muito e desordenadamente. A violência era muito grande, principalmente, a cometida pela própria polícia, que ao invés de proteger, ameaçava. As aulas de filosofia e sociologia foram ajudando na reflexão sobre todo esse contexto. A escola, a educação fazia toda diferença em sua vida e ela queria fazer a diferença na vida de tantas outras crianças. Começou pela escola particular, que lhe deu um sentido de organização, mas a padronização matou a sua alma de exploradora. Foi para a escola pública, aí permanecendo até aposentar-se, bem agora. Nesse final de carreira, participou do projeto das escolas de educação infantil do centro, que propunha levar as crianças para a rua. Fazer passeios em cortejo, explorando e tomando conta da cidade, que sufocada pelos carros, nem parece nossa. De novo, as ruas. Foi um jeito bonito de aposentar-se, em cortejo, pois não foi e será sempre assim? "Se me leva, eu vou". Pois não desliza, Dilma, pelas ruas? Desde menina, sua brincadeira preferida era caminhar pelas ruas do bairro, no fim da tarde e olhar as casas, os comércios. A rua enfeitada de cortejos e procissões tornou-se, então, devoção. Por isso, fazer parte do Ilú Obá de Min, bloco de mulheres negras, que desfila pelas ruas do centro de São Paulo é uma solenidade, uma felicidade, que a recoloca, no compasso dos tambores por ela sempre sentidos, ao longe, nas histórias do Velho Chico e nos versos da mãe. Quase nada, Dilma sabe sobre seus ancestrais. Seus pais vieram para São Paulo sem RG. Pesquisando, ela pouco descobriu, pois como poderia, se pessoas negras escravizadas tinham seus nomes trocados e a data de nascimento era quase sempre, na verdade, a data de batismo? Como buscar esse fio tão cortado e despedaçado? Talvez, a única maneira seja correr pelos rios silenciados de concreto, sobre as ruas de São Paulo, gritando esses nomes todos, apagados da história do Brasil, no toque dos tambores do Ilú Obá. Talvez outra maneira, seja fazer o que Dilma fez. De braço dado com o pai, subiu o rio São Francisco, cortou velhos quilombos e chegou à casa de taipa da velha avó materna. Mulher negra, como a mãe, ela e as irmãs e as sobrinhas, que ainda meninas, já têm plena consciência de suas ancestralidades e com certeza, não irão crescer sem o sentido da raiz e do chão. Vão saber por onde pisam. Quando Dilma perdeu sua mãe, na adolescência, perdeu mais um pouco desse seu chão, o que o sustentou foram as memórias afetivas, as cantigas e as histórias, que de alguma forma, ela espalhou no cortejo das travessias, enquanto educadora da rede pública, enquanto degustadora e pesquisadora das ruas de São Paulo e suas tantas paisagens. Nessa vida de correr veios quase invisíveis, Dilma encontrou o amor de um companheiro, Francis, que tem sempre uma palavra, um gesto para que ela jamais desista de seus sonhos. O casamento nem estava em seus planos, mas aconteceu e o amor veio em cortejo fazer parte de sua história. "Se me leva, eu vou". E Dilma foi e vai com os tambores a ecoar. Esses, bem perto estão. Mulheres negras nas ruas, a desfilar um grito coletivo, sobre rios silenciados pelo cimento. Correm veios e Dilma junto, segue deslizando feito canoeira. No coração, palpita o sertão dos pais e os versos da mãe:
"Leva eu, sodade, se me leva eu vou". E Dilma vai. Por descaminhos, desliza por um Brasil que não deixaram nascer, mas nem com cimento se apaga um rio, pois há os que contam histórias, os que registram a história, há os que estudam as paisagens, mas há também, os que espalham essas histórias, esses registros, essas descobertas. São os educadores. Pois siga, Dilma, em sua canoa, pois o Brasil precisa de mais educação, para que nenhum rio silenciado seja esquecido e para que toda rua seja ocupada. Travessias não lhe faltarão, Dilma.
História de vida de Dilma
Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk
Link para escutar a história de vida de Dilma:

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