História 27 - História de Cláudia Rosa - "Às mulheres, que muito me amaram"
Essa é uma história que narra, algumas das linhas da vida de uma mulher. Conquanto, essas linhas vêm entrecortadas, como veios de rio, de tantas outras linhas da vida, de outras mulheres. São as mulheres de Cláudia Rosa. Brota no coração de Cláudia Rosa, como uma nascente, uma grande vontade de honrar, cada uma delas. A personagem central dessa história, como já foi dito, chama-se Cláudia Rosa. Nascida em São Paulo, mas filha de uma mãe carioca, de Natividade e de um pai nordestino, de Atalaia, sertão de Alagoas. Dessa união, nasceram três filhas. Cláudia Rosa é a caçula. Nascida, quando suas irmãs já eram maiores, numa outra fase de vida, de sua mãe. Sua mãe era uma mulher que sustentava sua família, a mãe e os irmãos. Trabalhou na indústria da Colgate, como chefe de uma seção. Compreendia o inglês, mesmo tendo frequentado bem pouco a escola e amava o conhecimento. Gostava de cinema e de ler. Era uma mulher considerada muito bonita, vaidosa e inteligente. O pai de Cláudia Rosa foi separado de seus irmãos. Uma história que ele mesmo não sabe contar direito. Ao que se sabe, sua mãe entregou cada um dos sete filhos para uma família e alguns para a avó. O pai de Cláudia viveu junto de sua avó, mas ele não se submetia a nenhum adulto. Vivia às margens do Rio São Francisco, fazendo amizade com os pescadores, ajudando-os, para ganhar um pouco de peixe e não passar fome. Frequentou a escola até o terceiro ano. Depois de uma briga, com um aluno rico e tendo sido chamado à diretoria, percebeu o quanto não seria escutado, só por ser um menino pobre. Então, fugiu da escola e nunca mais voltou. Veio para São Paulo, ainda muito jovem, num caminhão, num "pau de arara". Trabalhou como faxineiro, para o banco Itaú. Assim, ele conseguiu trazer para São Paulo, seus irmãos e sua avó, que até conseguiu tratar-se do alcoolismo. Essas duas histórias se encontraram e Cláudia e as irmãs, até se perguntam, como e por quê? Afinal de contas, a mãe era tão independente e apesar de amarem o pai, sempre se deram conta, de que ele ainda é um homem muito machista. Logo, proibiu sua mulher de trabalhar, de usar um simples batom. Acho que já é possível notar, que essa é a história de uma mulher e suas irmãs feministas, que entendiam que a mãe estava à frente de seu tempo, querendo trabalhar, vestir-se como queria. As filhas também haviam observado, que a mãe havia se casado, por volta dos 30 anos, uma idade limite, para que a sociedade aceite uma mulher ainda solteira e sem filhos. As filhas, nas suas rodas de discussões feministas, chegaram à conclusão de que a mãe havia se casado com o pai, por uma grande pressão da sociedade. Elas não tiveram tempo de crescer e conversar abertamente, com a mãe, sobre todas essas histórias e escutar dela, a sua versão. A mãe era muito brava, com as duas filhas mais velhas, pois talvez, acreditam Cláudia Rosa e as irmãs, que ela nem quisesse ter filhos. Pois, que mal há, no fato de uma mulher desejar não ter filhos? Para a sociedade, no Brasil, por exemplo, até hoje, em 2022, é inaceitável. Não tiveram esse tempo de conversar com a mãe, porque quando, mais tarde, ela engravidou-se, de Cláudia Rosa e tornou-se mais amorosa, parecendo ter feito as pazes com a maternidade, infelizmente, ela desenvolveu uma grave doença autoimune, que lhe tirou o movimento das pernas e trouxe-lhe imenso desgosto. Suas pernas não queriam andar naquela vida, onde ela nada podia. Ela precisava de cuidados constantes. Cláudia Rosa era só uma menina, de nove anos. Bem na idade limite, entre a infância e a adolescência, ela foi perdendo a mãe, ainda em vida. Ela teve sua mãe até os nove anos, depois, muito doente, era como se a mãe nem estivesse mais, junto dela. O pai trabalhava muito e só pensava nas coisas mais práticas. Cláudia Rosa teria ficado numa solidão, com suas bonecas, livros e desenhos. Mas isso, não permitiram suas irmãs mais velhas. As duas já faziam faculdade, namoravam e com todo amor, aprendido com a mãe mesmo, dessas três bonitas mulheres, elas cuidaram de Cláudia Rosa. A menina Cláudia passou a ter uma vida vibrante. As irmãs faziam parte do diretório do PT, na Freguesia do Ó. Era a época das "Diretas Já", movimento que lutou pelo fim da ditadura e para que acontecessem novamente, as eleições presidenciais. Cláudia Rosa, mesmo criança, lembra-se muito bem, do tanto de esperança que havia nas ruas, nas pessoas, no Partido dos Trabalhadores, que estava nascendo e se fortalecendo. As irmãs não se importavam em sempre levar a caçula, junto com elas. Cláudia Rosa não sentiu nunca, que ela fosse uma obrigação para as irmãs, ou um fardo, nem mesmo, quando elas estavam com seus namorados, que também adoravam a caçula. Todos a mimavam e aquela menina, que carregava a dor e a tristeza de ver a mãe, sem poder andar, morrendo, aos poucos, enchia-se de vida, de juventude, do carinho imenso das irmãs. Aquele amor era um abraço diário, em sua dor. Era um colo, em dobro, fazendo jus aos colos todos, que Cláudia Rosa teria recebido da mãe. Com as irmãs, participando ativamente do movimento das "Diretas Já", Cláudia assistiu ao show do grupo MPB 4-, dos artistas, Arrigo Barnabé, Tom Zé e tantos outros. Toda essa movimentação política foi envolvendo os olhos e a alma de menina, de Cláudia Rosa. Mais tarde, já crescida, toda aquela efervescência política, transformou-se num caminho, dentro da educação e a trouxe, depois de tantas voltas, para junto, da diretoria da EMEI Monteiro Lobato. Todo esse caminho foi feito com extrema amorosidade, gentileza e muita consciência política, na busca de mais equidade social, no fortalecimento da escola pública. Uma grande força amorosa é a presença de Cláudia, que não é apenas Cláudia, mas é Rosa, também. Toda rosa tem espinhos, para proteger a sua delicadeza. Assim é Cláudia Rosa, seus espinhos foram espadas de alfinete, isso nem importa, de todo modo, fincam a luta das palavras e ideias, que um dia, sempre se transformam em direitos. Foi essa luta, aprendida numa roda de irmãs, num abraço bonito de três irmãs feministas, que reconhecem as dificuldades do pai, que muito se orgulha das filhas, pelo tanto, que elas, sozinhas, estudaram. Primeiras mulheres da família, a conquistarem o ensino superior e um caminho bonito na vida, por si mesmas. O pai foi a contradição encarnada, tão machista com a mulher e tão feminista, com as filhas. Cláudia Rosa se curva e agradece, a esse imenso amor, que recebeu das irmãs e que permitiu a ela despedir-se da mãe, para sempre, aos 17 anos. Essa menina, aprendeu a ser leve e criou de forma solta e bonita, seus dois filhos, uma menina e um menino. Esse menino, seu filho, assim como os filhos-meninos, de suas irmãs mais velhas, estão crescendo na delicadeza, podendo sentir e manifestar suas fragilidades e sendo cordatos e justos, com as mulheres, ao redor: irmãs, primas, tias e mães. A filha de Cláudia, assim como as filhas, de suas irmãs, crescem muito sabidas de suas asas. Cláudia Rosa e suas irmãs, as três irmãs feministas, também têm muito orgulho da mãe, mulher que não tinha uma roda de irmãs para a abraçar e assim, lutar contra o machismo. Talvez por isso, ela tenha permitido que essa sociedade machista lhe arrancasse as asas e qual pássaro ferido, tenha sucumbido à vida, assim tão cedo. Porém, as filhas honram essa mulher que ela foi e nunca vão deixar de contar a história, da primeira vez, que essa mãe foi votar. Pois, tratava-se da recente conquista feminina, que era poder votar. O voto, apenas permitido para as mulheres, a partir de 1931, foi encarado pela mãe de Cláudia Rosa, como uma grande solenidade, para a qual ela muito se preparou, pois sabia da importância da conquista, realizada por tantas mulheres feministas. Cláudia Rosa é a mãe que sua mãe, com certeza gostaria de ter sido. Cláudia estudou e muito, trabalha no que mais gosta, sendo gestora da rede pública municipal, já há muitos anos e ainda assim, sentindo paixão por esse ofício. É uma mãe amorosa, sempre presente. Casou-se com um companheiro, ciente do espaço da mulher, de luta e igualdade, pois nascido na França, vem de uma família de mulheres empoderadas e feministas, já que nesse país, a luta da mulher, segue muito mais à frente, se comparada ao Brasil. Assim, chega ao fim essa história, mas não, sem antes deixar as palavras que querem sair do coração nobre e grande, de Cláudia Rosa, às suas queridas, irmãs:
- "Às mulheres, que muito me amaram"
História de vida de Cláudia Rosa
Escuta e escrita : Elaine Dauzcuk
Link para escutar a história de Cláudia Rosa:

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