História 25 - História de Aline: "Para quem teve asas, sem tirar os pés do chão"
Diz que era uma vez, uma mulher chamada Aline, que desde menina, sabia bem o que gostaria de ser: uma professora. Assim aconteceu e não poderia ser diferente. Afinal de contas, Aline tinha uma mãe, que pedalava contra o tempo, para estudar. Há algumas décadas passadas, já no mundo contemporâneo, ainda assim, as mulheres só estudavam mesmo, muitas delas, até o quarto ano. A mãe de Aline, com três filhos e um marido que trabalhava como caminhoneiro, o que a deixava muito sobrecarregada, pelo tanto que ele viajava, mesmo assim, queria terminar os estudos. Era isso o que a Aline via quando era menina: uma mãe que deixava os filhos na escola e de bicicleta, também ia estudar. Essa mãe fazia de tudo para os filhos estudarem. Os irmãos de Aline não puderam frequentar a educação infantil, antigamente chamada de "prezinho", porque eles moravam muito longe. Porém, quando chegou a vez de Aline, a caçula, sua mãe encontrou uma maneira, até porque ela também queria estudar. Na ida, a mãe a levava em sua bicicleta e na volta, contratou um charreteiro, pois o horário da escola da filha acabava antes da sua. Qualquer criança adoraria, depois da escola, dar essa volta de charrete. Mas um dia, esse charreteiro teve um problema e simplesmente, não foi buscá-la. A mãe percebeu que ela não chegava e junto com seu marido, foram correndo até a escola. Aline não estava lá. Seus pais já estavam desesperados, quando o pipoqueiro contou, que vendo a menina sozinha, conseguiu que um cliente seu, de bicicleta, a levasse até à Madeireira Primavera, que a menina havia indicado, como sendo o trabalho do pai. De fato, era ali, o escritório da empresa, para qual seu pai trabalhava. O pai e a mãe de Aline, a encontraram tomando café, com o chefe de seu pai, muito tranquila. O pai não queria mais que a menina fosse para a escola, pois o obrigatório mesmo seria frequentar o primeiro ano. A professora de Aline deu um jeito, pois se não era ela, a única, que sabia todos os versos da festa junina, como noivinha da quadrilha? O pai de uma aluna da escola, passou a levar Aline e sua filha, de fusquinha, e sua mãe ajudava no pagamento do combustível. Pronto, longe da escola, essa menina jamais ficaria. Aline aprendeu a andar de bicicleta, naquela que era de sua sua mãe. No entanto, guardava consigo, aquela imensa vontade de ter uma bicicleta do seu tamanho. Por isso, passou a colecionar as figurinhas de um álbum, que nos idos, da década de 1970, sorteava prêmios, dentre eles, uma bicicleta. Pois não é que essa menina ganhou a tal bicicleta, a do sorteio? Quando essa bicicleta chegou, na cidade de Araçatuba, interior de São Paulo, Aline mudou-se. Seus pais se separaram e a mãe de Aline, aproveitou e pediu transferência para uma escola estadual, na cidade de São Paulo. A mãe havia conseguido terminar os estudos, prestando concurso e tornando-se funcionária pública de uma escola estadual. A vida trouxe Aline para São Paulo, na rua Barra Funda e no começo, parecia uma grande aventura. Mas depois, o que parecia temporário, tornou-se a vida mesma, de todo dia. Morar num apartamento, sem quintal e separada de sua bicicleta. Ela precisou esperar o natal, para ver o pai e a bicicleta. Ninguém nunca esquece como se anda de bicicleta. Aline andou na bicicleta que era de sua mãe e aprendeu com ela, a equilibrar-se, em duas rodas, pois só assim, é possível sentir um pouco o vento. Andar de bicicleta faz a gente ter asas sem ter. Voar, mesmo sem sair do chão. Assim fizeram, ela e a mãe. Foram pedalando e ganhando vento e voo. Depois de um tempo, morando em apartamento, apareceu a oportunidade da mãe tornar-se zeladora, na escola estadual em que trabalhava. Aline e sua família poderiam ocupar a casa da zeladoria, que ficava dentro da escola. Mas que menina danada, essa, foi morar dentro da escola. Ela e os irmãos ganharam um pátio inteiro, só para eles, nos finais de semana, brincarem à vontade. Era só descer as escadas e Aline já estava em casa, quando terminavam as aulas. Por isso mesmo, ela estudava de manhã e estudava à noite e estudava todo o tempo que podia. Fez o magistério e o ensino médio, ao mesmo tempo. Gostava de estudar. Apaixonada pelo cheirinho dos livros, dos cadernos, do estojo de madeira. Cresceu dentro de uma escola e depois, ainda por cima, ao tornar-se mulher, casou-se dentro da escola. Sendo professora, do Liceu Sagrado Coração de Jesus, por muitos anos, acabou também, casando-se na igreja da escola. Uma vida dentro da escola, na certeza do amor pela educação. Quando tornou-se professora da rede pública municipal, ministrou aulas, em escolas periféricas da zona norte. Aline lembra-se bem, de dar aulas, na educação infantil, numa escola longe, em que o bairro mais parecia um sítio, o que a fazia sentir-se em casa, como no interior. Levava seu filho junto dela e uma senhora, que morava ao lado da escola, cuidava dele, enquanto Aline trabalhava. Ela corria para amamentá-lo, nas horas de intervalo. Sempre assim, abrindo espaços para sua vida pessoal, caminhar no compasso da escola. Por muitos anos, Aline ministrou aulas nas periferias, até que embarcou na aventura de dar aula numa escola, bem na Praça da República. O desafio de trazer encantamento, com a realidade colada nas grades da escola, à mostra, diante de crianças tão pequenas. Até contar histórias, embaixo das árvores da praça da República, Aline contou. Até que chegou à EMEI Monteiro Lobato, onde aposentou-se, não sem antes, espalhar o seu sorriso e os ventos todos, colecionados numa vida, a equilibrar, as tantas desventuras e aventuras, de ser educador e educadora, nesse país e nessa São Paulo. Sua mãe, aos 78 anos, ainda lhe pede para ir andar de bicicleta. Lá vão as duas, mãe e filha, a voar. Aline, assim aprendeu e assim viveu, equilibrando-se e criando asas, mesmo sendo o caminho, de asfalto. Não faltam árvores e vento, para quem acredita na educação e fez de sua profissão, uma coleção de bonitas histórias, que Aline agora, poderá sempre contar.
História de vida de Aline
Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk
Link para escutar a história de vida de Aline:
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