História 28 - História de Agostinho: "Mãe, o Brasil chegou atrasado, mas nós, chegamos juntos!"
Diz que era uma vez, um menino das Minas Gerais, da roça, lá das beiradas do Rio Preto, que um dia chegou a São Paulo, na década de 1970. Vinha junto da mãe, dos irmãos e avós. Vinha com sua mala. Uma mala de brinquedos. Na época, a rodoviária de São Paulo ficava na Duque de Caxias. O menino nunca tinha visto luz elétrica. A rodoviária tinha um teto colorido, que iluminado pelas luzes fez o menino andar de olhos para cima e no encantamento dos vitrais, de uma beleza nunca vista antes, esquecer do tesouro seu. E aquele encantamento do menino, logo virou uma tristeza, com sua mala de criança esquecida pelo caminho. Esse menino, um dia cresceu e nunca deixou de olhar para os lados e ver se por um acaso, sua mala de brinquedos, estaria ainda, pelo caminho. Caminhar para fazer caminho. Num Brasil tão desigual, a caminhada pode nem começar, por tanta falta. Mas quem sabe, se na sorte do destino, tu encontrares um professor, que lhe mostre a injustiça da mala vazia, talvez o caminho comece a se fazer. Essa história, que assim começou, é a narrativa de Agostinho. Nascido na roça, em Vargem Alegre, perdeu o pai com 23 dias de vida. A mãe trabalhava na roça e a avó costurava peneiras feitas de taquaras. Eram uma família de meeiros. Não eram donos de terra. Tudo que produziam precisavam dividir com os donos. Já era tão pouco para sustentar os seis filhos, mas ainda assim, era preciso entregar esse pouco. O menino, Agostinho, brincava de vencer a fome pescando o peixe do rio. Era brincar de trabalhar. Quando passava um avião, ele pasmava de olhos vidrados para o alto, até o caminho das nuvens se desmanchar, perdendo-se, no correr das horas. E foi assim, que chegou na cidade de São Paulo, com os olhos vidrados no alto e nas luzes. A família chegava para trabalhar. A mãe já tinha preparado o caminho, encontrando um trabalho como doméstica, para que então, viessem os filhos e seus pais. Foram morar na periferia. Num barraco. Um quarto para comer. Um quarto para dormir, compartilhado com roedores e baratas. Demoraria ainda, dois anos, para que conseguissem se mudar para uma casa de alvenaria. Até lá, o menino Agostinho cozinhava para os avós. O avô cego pela catarata. Não havia escola. Em Minas, Agostinho também não frequentava a escola. Havia uma menina que brincava de escolinha, em sua casa de tijolos e dava aulas, para ele e outras crianças. Foi como o menino, aprendeu as primeiras letras. Para chegar até à casa dela, Agostinho e as outras crianças, passavam por vacas, atravessando pastos. Na cidade grande, só aos nove anos, Agostinho foi para a escola e havia uma certa cobrança, de que ele, sendo maior do que as outras crianças do primeiro ano, se saísse sempre muito bem. Pela primeira vez, o menino sentiu a discriminação pela cor da pele e pelo seu sotaque. Sentia saudades da mãe, pois ela precisava dormir na casa dos patrões e apenas, quinzenalmente, vinha estar com os filhos. Mas havia seu cachorrinho e aquela sensação de que ele era um caminhante, pois ainda tinha uma mala perdida no caminho. Foi quando um dia, se mudaram dali, para um apartamento na Cohab. Teve que deixar seu cachorrinho. Lá era proibida a presença de animais. Mas que vida era aquela, onde sempre havia uma dolorosa separação? Partiram. Muitas famílias foram chegando naquele bairro da periferia, localizado na zona leste. Nem havia escola para todo mundo. Foi preciso construir. Foi preciso estudar em outras escolas, como um aluno emprestado, até que tudo se firmasse. Os apartamentos eram tão cinzas e iguais, que todos entravam na casa errada. Aos poucos, os moradores foram se apoderando daquela espaço, que disseram ser deles e com a organização de mutirões foram pintando e trazendo um pouco de vida. O bairro foi se modificando e Agostinho foi vivendo a dura realidade dos estudantes, que trabalham durante o dia e estudam à noite. Nem foi narrado ainda, que Agostinho, tornou-se mais tarde, um professor de História, também por causa de um professor de História. São muitas as pessoas, que guardam em suas memórias afetivas, a história de um professor de história, que lhes marcaram vida afora. Professores que tiravam os véus da realidade, que mostravam sem gorjeios de nossa terra, a desigualdade social do Brasil e dos trabalhadores e trabalhadoras, das zonas rurais e das grandes cidades. Agostinho descobriu que havia caminhos, embora não fosse permitido para todos escolher. O professor Ênio foi um desses professores de história. Ensinou que existiam outras possibilidades. Era estudar e agir. Estudar e lutar. Se não fosse esse professor de história, Agostinho não teria se tornado educador. O professor Ênio transformou a sua relação com a escola. E foi assim, que em 1991, Agostinho foi estudar História na Puc, por meio de crédito educativo. Em 1993, já estava numa sala de aula. Mais tarde, os concursos foram enfim reabertos e Agostinho passou a fazer parte oficialmente, da rede municipal e estadual. Ajudava a mãe, que ainda trabalhava como doméstica. Ajudava os sobrinhos. Trabalhava em dois cargos. De professor de história, um dia, acabou se aventurando como diretor de uma escola da periferia, na Penha. Sua mãe sentia imenso orgulho, pois o sonho dela, tinha sido sempre, ser uma professora. Um dia, a mãe quis estudar, para não ser mais doméstica. Era Agostinho quem levava a mãe para a escola. O Brasil chegou atrasado. Mas Agostinho e a mãe chegaram juntos. A mãe conseguiu passar numa prova para ser ascensorista no Hospital das Clínicas. A vida sempre havia conduzido a mãe de Agostinho e aquele trabalho, permitiu a ela, pela primeira vez, conduzir as pessoas. Era uma sensação bonita. Deu um gosto diferente para a vida e mais uma vez, as palavras do professor de História, Ênio. Havia outras possibilidades. Era estudar e lutar. Era estudar e agir. Agostinho, na sua experiência como diretor, propôs uma gestão democrática e teve uma relação muito próxima dos alunos e familiares. Foi quando quis experimentar outro caminho. Havia sempre aquela mala de brinquedos. Era preciso caminhar. Foi tornar-se supervisor na área da educação infantil. Ele nunca tinha passado pela educação dos pequenos, não tinha filhos e nada sabia. Mas assim como havia crescido, na força de suas mulheres, mãe e avó, mais uma vez, ele pôde sentir a sabença e o apoio das mulheres, na força das tantas professoras e diretora de uma EMEI, na Capela do Socorro, que muito lhe ensinaram. Quando fez a escolha de ser supervisor foi quando pisou pela primeira vez, numa escola de educação infantil. O tempo girou e Agostinho chegou à EMEI Monteiro Lobato, cuja diretora na época era Iara Rosa. Uma mulher que abriu os caminhos para a discussão de gênero e racismo. Quando chegou a próxima diretora, Maria Cláudia, que instituiu uma gestão democrática, sem jamais abrir mão dos direitos das crianças, Agostinho, ainda estava ali, para escutar e apoiar o trabalho de todos. O Brasil chegou atrasado e ainda chega, para muitas famílias, para muitas crianças, mas sempre haverá um professor e uma escola, para que ninguém esqueça de que caminhos há. Agostinho, como supervisor, compreende que é seu trabalho escutar e acolher cada comunidade escolar, respeitando as suas peculiaridades e fortalecendo-as ainda mais. Chegando junto. Sempre junto, para que ninguém fique para trás.
História de vida de Agostinho
Escuta e escrita : Elaine Dauzcuk
Link para escutar a história de Agostinho:

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