História 29 - História de Lucimeire: "Nas linhas-surpresas do caminho, uma mãe e um menino"
Diz que era uma vez, uma mulher chamada Lucimeire, que quando menina, viu passar o cometa Halley. O pai a levou em outra cidade, para observarem esse grande acontecimento. Ela e suas amigas combinaram de ficarem vivas, até os seus 89 anos, para olharem mais uma vez, o cometa passar pela órbita da terra. Lucimeire só por causa do cometa, até sonhou em ser astronauta. Isso não aconteceu porque seu sonhar no mundo, não seguiu as estrelas, mas as linhas e sinuosidades, que o ser humano constrói, até mesmo inspirando-se na geometria do universo. Formou-se em arquitetura. Ela nem se preocupa se de fato, ainda estará viva para ver o cometa passar. Ela já considera que o cometa passou duas vezes em sua vida, pois recebeu um presente, com o qual ela não contava: seu filho, Dante. Foi quase uma carona na cauda do cometa, quando seu menino nasceu e ele tem mesmo, um brilho diferente nos olhos e a faz olhar para o "além" das coisas. Ele não estava nos planos da vida de Lucimeire, pois ela sempre preferiu, na sua caminhada, olhar para as suas ideias no mundo, que vinham da paixão pela arquitetura. Uma menina que estudou em escolas públicas, na periferia do Campo Limpo e que conseguiu estudar na USP, formar-se e ainda fazer mestrado e agora, segue nos caminhos do seu doutorado. A única mulher da família a estudar tanto. Lucimeire quando era criança ficava cansada com tantas brigas, entre seus pais, que por fim, separaram-se, quando ela tinha oito anos. A mãe ficou morando na mesma rua que o pai, assim, ela viveu sempre junto dos dois. Mas deu gastura diante de tanta briga. O pai e a mãe eram da mesma cidade, que ficava no estado de Pernambuco. O pai era bem mais velho que a mãe. Um dia, cansado de não ter trabalho, veio para São Paulo, atrás de seu irmão. Não o encontrando, vagou sozinho e acabou sendo acolhido por um laboratório. Foi nesse lugar que acabaram lhe oferecendo também, um trabalho, como faxineiro noturno. Dessa forma, ele foi galgando a sua vida. Sempre estudou muito, por conta própria. Conseguiu passar nas provas da marinha, mas não foi escolhido pela baixa estatura. Por isso, guardou consigo a vontade de ter filhos altos e assim, casou-se com a mãe de Lucimeire, descendente de holandeses misturados com pernambucanos, de uma família de mulheres muito altas. A mãe de Lucimeire por sua vez, só queria casar- se para sair de casa, pois naquela época, quase nada uma mulher podia fazer. Pois Lucimeire, apaixonada pelas linhas, ultrapassou todas elas. Para uma mulher que estuda e segue senhora de si, casar-se e ter filhos vai ficando incompatível, mesmo quando ela assim o deseja. Dessa forma, a chegada de Dante foi quase pegar carona na cauda de um cometa. Não que tenha sido o ideal, pois o relacionamento de Lucimeire com o pai de seu filho foi bastante confuso, talvez, diante do posicionamento das mulheres hoje em dia, poderia ser considerado abusivo. É recente o ato consciente de nomear as violências. Tal mudança é de extrema importância, pois para desbravar os caminhos acadêmicos e o mercado de trabalho é preciso também, ter conhecimento sobre os relacionamentos disfuncionais, que acabam sendo uma forma de silenciar as mulheres, tanto sua palavra, quanto sua vida amorosa Agora que as mulheres conquistaram tantos direitos é preciso aproveitar esse espaço, com muita saúde no coração. Lucimeire, como tantas mulheres, não teve apoio para criar o filho. Mas ela soube desenhar caminhos bonitos. Amamentou o filho bravamente, mesmo trabalhando sempre e muito, como professora do ensino superior. Com um mês de nascido, ela foi com o filho sentir as árvores e o vento, no Parque Buenos Aires e avistou a Escola Emei Monteiro Lobato. Disse, então, para seu bebê: "ah, é nessa escola bonita e cheia de árvores que você irá estudar". Assim foi. Lucimeire considera que a EMEI Monteiro Lobato foi uma passagem na vida do filho, cheia de muito acolhimento e amorosidade. Ele, agora, segue no ensino fundamental, ainda na rede pública, pois Lucimeire acredita que o ensino público é um direito, em todos os níveis. Lutar pela qualidade desse ensino também. Seu menino tem olhos claros como o céu de verão. Muitas pessoas que cruzam com Lucimeire e o filho, adoram perguntar, por causa desses olhos claros de seu menino, se eles são descendentes de europeus. Lucimeire gosta sempre de dizer: "somos descendentes, sim, de migrantes nordestinos". São cabras da peste, os dois, mãe e filho. Lucimeire é mais uma mãe solo, mas que ainda assim, com toda luta para maternar e trabalhar, acredita que pegou carona na cauda de um cometa e pariu esse menino. E Dante, por sua vez, não lhe deu de presente um horizonte, mas a amplidão do universo. Parece que Lucimeire nem vai precisar pensar nos seus 89 e tantos anos, para esperar outro cometa passar. Ele já passou duas vezes. E parece também, que depois de muita estrada, Lucimeire ainda abriu espaço para outra história bonita acontecer na sua vida, agora no saudável perfeito, de um humano querendo o bem de outro humano, fora de contornos abusivos. Uma história nova de amor, para uma mulher sempre na lua nova de Dante, que segue sendo amado e acolhido, em qualquer parte de sua história, que sempre será como Dante, um dia claro de verão ou um sol bonito de sertão.
Link para escutar a história de Lucimeire:

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