História 30 - História de Rosemary: "De uma cartilha do ABC, um caminho para a vida"
Diz que era uma vez, uma mulher chamada Rosemary, que vivendo em São Paulo desde sempre, achou que fosse paulistana. Mas que nada, tinha nascido em Goiás, onde seus pais também haviam nascido. Os pais se conheceram em São Paulo, trabalhando e muito, o pai em uma padaria e a mãe como faxineira e manicure. Quando o pai conseguiu alugar uma kitinete, Rosemary veio com um mês de vida, morar em São Paulo. Durante a gravidez, a mãe de Rosemary foi para Góias ter o bebê e só depois veio encontrar o marido. Rosemary adoraria saber mais, dessa parte da história de sua vida, lá para as bandas de Goiás e saber de seus avós e de todos. Mas pouco ela sabe, pois ninguém quer contar mais. Os que sabiam contar se calaram, talvez porque ninguém mais tivesse perguntado ou deixado o coração aberto para escutar. Toda família tem seu contador de histórias, aquela pessoa que ouvindo bem, o que diziam os mais velhos e guardando bem os acontecimentos, sabe contar os feitos da família. Mas é triste quando esse contador ou contadora de histórias resolvem se calar. Os fios vão se embaraçando. Rosemary, que hoje é mãe, quer que seus filhos escutem as histórias dos seus pais, da família toda, que bebam das aventuras acontecidas. Que não percam o fio. Se o hábito de narrar as histórias de vida tem se perdido, ao mesmo tempo também, ele nunca se finda, pois assim que alguém começar a contar, já estará revivendo esse bonito e necessário elo. É o que faz agora, Rosemary, conta sua história, para que ela e o seu fio narrativo não se percam. A sua vida passou sempre nessa kitnete no centro da cidade. Estudando em escolas públicas foi vivendo e brincando muito na rua, pois era outra época, a década de 1980. Aos onze anos os pais se separaram, mas a mãe resolveu continuar morando no centro da cidade, para que Rosemary ficasse perto do pai. Foram morar próximo à biblioteca Monteiro Lobato. Rosemary foi estudar na Caetano de Campos. Quando formou-se no ensino médio escolheu estudar enfermagem na Santa Casa, mas logo viu que não tinha o dom de andar por entre tantas histórias de dor. Porém, como gosta de terminar tudo o que começa, concluiu o seu curso. Aos 15 anos começou a trabalhar como office girl. Sempre trabalhando bastante, um dia já nos seus vinte e poucos anos, arrumando os papéis, em sua casa, ela encontrou um objeto, daqueles carregados de memórias, que exalam cheiros e vida. Uma pasta com folhas mimeografadas e dentro, a sua cartilha do primeiro ano de alfabetização, a "Caminho Suave". Foi como uma lâmpada que se acendeu e mostrou que era aquele o seu caminho, ensinar e aprender. Sentiu vontade de dar as mãos aos pequenos e guiá-los nas suas descobertas.. Mas nem sabia por onde começar. A faculdade não poderia pagar. Foi quando uma amiga convidou-a para assistir sua irmã jogar handebol na Universidade Mackenzie. Ela descobriu que a irmã de sua amiga estudava ali, como bolsista. Essa foi então a jornada: conseguir uma bolsa e estudar pedagogia. Assim aconteceu. Rosemary foi a primeira da família a cursar o ensino superior. Um grande feito. Formou-se em pedagogia na Universidade Mackenzie, como bolsista. Depois, abandonou o trabalho administrativo para trabalhar numa escola particular, que tinha uma proposta que tocou o seu coração. Ela nunca tinha estado numa escola cujo ambiente por si só era tão educativo. Horta, pomar, cores, vida. Um dia, saindo da escola, após o trabalho, reencontrou num barzinho, um namorado de adolescência, pois não é que eles se casaram e dessa história, nasceu sua filha, Helena, hoje com seis anos de idade. Rosemary, mais tarde separou-se, mas ela e o pai de Helena tornaram-se amigos e muito parceiros, na educação da filha. Antes de engravidar, Rosemary prestou concurso na Prefeitura de São Paulo e passou. Fez uma travessia por muitas escolas municipais de educação infantil, de Paraisópolis, Vila Madalena ao Brás e foi achando que talvez, não fosse aquele, o seu caminho, pois era sempre enorme, o número de professores afastados por motivos de doença, sendo que muitos nem conseguiam voltar à sala de aula. Até que Rosemary chegou à EMEI Monteiro Lobato, que trouxe-lhe esperança numa escola pública de qualidade. Assim, ela conheceu uma escola muito viva, cercada de natureza e nas pessoas, uma vontade de que a escola fosse verdadeiramente democrática. Sua filha estuda na EMEI e Rosemary brinca que poderia passar a vida toda nessa escola. Mas agora, a vida vai abrindo novas possibilidades e nem Rosemary sabe onde elas vão chegar, pois casou-se novamente e seu filho Teodoro vem chegando ao mundo, ao passo que Helena só cresce. Nesses fios todos, Rosemary quer buscar o tempo de parar e contar as histórias todas da família, dos nascimentos, das andanças, das tristezas e alegrias, para que nenhum fio se perca. Quer sempre ter ao alcance dos filhos, aqueles objetos cheios de memórias, que são desculpas para contarmos as histórias todas, como aquela pasta, que sua mãe um dia guardou, que sua professora um dia preparou e que ela, um dia completou, e, que ao ser aberta acendeu uma lâmpada. Ah, como são guardadores de memórias e afetos, os educadores e tantos pais e mães!
História de vida de Rosemary
Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk
Link para escutar a história de vida de Rosemary:

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