História de Vida 31 - História de Anita : "Licença para voar"
Diz que era uma vez, uma menina que chegou ao mundo, mas logo perdeu-se de sua mãe-ventre. Mas Anita, esse é o seu nome, compreendeu a história de sua mãe e sua difícil trajetória e deu-lhe em troca do ventre, todo o seu coração. Ela ainda espera que um dia, haja um encontro entre mãe e filha. Ao menos, um encontro da filha para com a história da mãe-ventre. Quisera poder saber mais sobre ela. A mãe de Anita, antes dela nascer foi trabalhar como doméstica, na casa de uma família, que hoje é a sua, que morava em Higienópolis. Perceberam que a mãe de Anita estava grávida e quando foram lhe perguntar, souberam que colocaria seu bebê para adoção. Essa família então, para qual sua mãe trabalhava, resolveu adotar Anita. Depois disso, nunca mais souberam de sua mãe-ventre. Anita ganhou uma mãe e uma família. Ganhou uma irmã e um irmão. Quando Anita era criança, sendo uma menina negra e estudando em tantos colégios, onde só estudavam brancos, vendo seu irmão e irmã brancos, ela achava que era vermelha. Não tinha sua mãe-ventre para embalar sua linhagem de mulheres. Não tinha corpo de mãe, para embalar seu corpo de filha. Não tinha um espelho, no corpo da mãe-ventre. Mas Anita, logo percebeu todos os conflitos que o Brasil ainda tão colonizador insiste em replicar. Constatava, que nos colégios todos que estudava, como o Salesiano, o Mackenzie só havia ela mesma, como aluna negra. O irmão e a irmã, a mãe e o pai adotivos sempre a protegiam de qualquer embate. No entanto, ela mesma, era um corisco, para se defender. E hoje, ela é mãe de uma menina e um menino. Seus filhos têm a mãe para embalar a sua linhagem, que mesmo com capítulos cortados de suas histórias, mesmo sem a história da avó e da avó da avó, eles têm a mãe-ventre, Anita, um corpo de mãe espelho para o seu. Tem uma mãe-ventre para alertar sobre o perigo de um Brasil muito racista. Sua filha estudou na EMEI Monteiro Lobato, uma escola pública que pretende garantir direitos e a diversidade, o que também contribui para mais pertencimento. Anita, na época de colégio, ganhou medalhas como atleta. Ela é feita de tempestade. Gosta de samba, de vida, da noite e quer voar. Estudou para ser comissária de bordo e tem licença para voar. Espera ser contratada em breve e ganhar o céu. Enquanto isso, ela voa no tempo. No tempo dos seus ancestrais fazendo parte do Candomblé. Quando os tambores tocam, não existe mais nenhum capítulo cortado de sua história. É como se estivessem todas as mães das mães, das mães. Todas as avós das avós, das avós. É como se nenhum Brasil racista tivesse cortado os cordões umbilicais de tantos brasileiros. Sonhando saber mais da sua mãe-ventre, Anita segue, com o coração grande, que cabe sua menina e seu menino, sua mãe adotiva e sua mãe-ventre e o seu sonho de voar. Voe, Anita.
História de vida de Anita
Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk
Link para escutar a história de Anita:
https://www.youtube.com/watch?v=V2qUq0L0X_A

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