História de Vida 35 - História de Fernanda: "Minha voz"
No encontro entre dois rios, em terras baianas, um português deu as terras como sendo suas, nomeando-as de "Barra do Mendes", hoje uma cidade. Desde sua origem, quer dizer, desde o carimbo dos brancos, num papel inventado por brancos, numa lei de brancos, aconteceram muitas brigas de coronéis, pela posse dessas terras. Na zona rural de Barra do Mendes existe um povoado chamado Melancia. Neste lugar nasceu Fernanda. Sua tataravó materna tinha sido escravizada, numa fazenda de Salvador. Ela e o filho do dono fugiram para essa região, num tempo longínquo. Os ancestrais de seu pai e de sua mãe, também tiveram um tronco indígena, os verdadeiros donos de todas essas terras. Da mãe, ela sabe que descendem dos tapuias, embora esse termo, também não especifique corretamente, a nação do povo de sua mãe. Fernanda, também não sabe a nação dos povos indígenas, do qual descende seu pai. Ela tem amor pela História. Gosta de saber os começos, para compreender o desenrolar das coisas, no agora. Não olha a paisagem e aceita tudo, como dado. Entende, que mãos escreveram sobre aquela terra, à custa de sangue, de muitos outros. Apenas duas famílias detinham todo o dinheiro, em sua terra natal. O resto do povo trabalhava e muito, na roça. Quando era jovem, ela e o pai não se entendiam, nesse ponto, porque ele não percebia a desigualdade. Por isso também, Fernanda valorizou com o coração cheio, as iniciativas sociais, nos governos de Dilma e Lula, pois o programa "Bolsa Família", por exemplo, tirou o poder das duas famílias, em sua cidade, tanto o político, quanto a hegemonia, em relação ao comércio, fazendo a economia girar de forma um pouco mais equânime, embora ainda não seja a ideal. Outra iniciativa, que lhe trouxe uma sensação de justiça social foi o Programa "Luz para todos", pois a maioria dos brasileiros nem sabe, que em muitas terras, até hoje, não chega a luz elétrica. No seu povoado, a luz só chegou quando ela tinha seis anos, mas na sua casa, não, pois ela ficava muito afastada. Um governo que priorize diminuir as desigualdades faz justiça, para lugares que simplesmente foram invadidos por coronéis e suas famílias. Em Melancia, a vida é muito boa também. Tem muita manga. Ali, se come muita fruta, nas cheias dos rios. Os rios são periódicos. Precisa chover e muito, para a água dos rios correrem. Na época das cheias, tudo segue muito abundante. Fernanda, gosta de dizer e repetir, sem medo, que valoriza e muito um governo, como o de Lula e Dilma, que investiu nas pessoas, sem a ideia de de caridade, mas de direito, como aconteceu, com a construção das cisternas, algo que não é necessário em São Paulo, por exemplo, mas que para o povo do sertão, é fundamental. É preciso guardar a água da chuva. Essa é a história que Fernanda quer contar e é bem isso, o que ela quer dizer. Sua família descende de negros e indígenas e sua vida, é o chão de terra e sua voz, portanto, não é a do coronel e nem, a do dono da terra. Ela acredita, que um trabalhador da roça, não precisa morrer trabalhando na roça dos outros. Ele também tem direito à terra, e à uma vida melhor. Ainda mais, que seu pai e sua mãe, já passaram muita fome, nessa vida. Sua avó, mãe de sua mãe, foi abandonada pelo marido, com seis filhos, para criar sozinha. A mãe era menina ainda, e descia ao meio-dia, para o rio, pois era quando as traíras subiam para respirar, e assim, era mais fácil pegá-las, para matar a fome. Já Fernanda cresceu rodeada de primos. Ela nunca nem soube o que era tédio. Quando voltavam da escola brincavam tanto. Nunca teve uma boneca. As pedras eram as vacas e as crianças faziam cerca para esse gado de pedra. O pai era trabalhador da roça e tinha um bar. Ele colocou uma televisão nesse bar, a única por ali e todo o povoado, vinha assistir, todos juntos. A vida também tinha suas alegrias. Quando terminou o primário precisou cursar a sexta série, na cidade, pois na roça não tinha. O pai comprou-lhe uma bicicleta. A ida para a escola era boa demais. Mas a volta era difícil. Sol muito quente e muita fome. No magistério tinha transporte de caçamba, para ir à escola. Formada no magistério, foi para Porto Seguro, trabalhar como garçonete. Depois, veio para São Paulo. Trabalhou aqui, primeiro como recepcionista e em seguida, como babá. Engravidou de seu filho, Bernardo. Infelizmente, nunca teve apoio do pai. Ele nem sequer registrou o filho. Fernanda é mãe solo, mas sempre contou com o apoio de sua irmã. Vivem, ela e o filho, na Brasilândia. Antes, moravam com primas, irmãs, dividindo o aluguel, mas elas voltaram para o nordeste. Fernanda sente tristeza e nem quer sonhar mais, porque quando pensava em São Paulo, via muitas oportunidades. Lembra de quando os parentes, que moravam aqui, iam para o nordeste, levando tanta coisa, chocolate e tanta história, que parecia que a vida era mesmo muito boa. No entanto, a vida é dura demais. Mais do que no sertão, porque lá tem a seca, mas sempre cai a chuva e a vida viceja. Em São Paulo é sempre seca para alguns e sempre chuva boa, para outros. Morar em sua cidade, também não é possível, hoje em dia, porque não tem trabalho. Fernanda não é um trabalhadora da roça e de onde tiraria seu ganha pão? Um grande dilema, que faz sofrer tanta gente, nesse Brasil. Como sair de uma grande cidade? Ela diz que não sonha, mas seus olhos brilham, quando fala em estudar história. Quando conta do gosto que tem, em saber quantos caminhos guardam um só caminho. Quais pessoas traçaram aqueles caminhos, quais foram impedidos de traçar aqueles caminhos? Quais os silêncios de uma história? Quem escolheu o que seria dito? E isso não é sonhar? Tudo o que brilha os olhos, tudo o que guardamos no coração é feito de sonho. Bernardo, seu filho é sua grande alegria. Nascido em São Paulo, ele gosta mesmo é do sertão. Ele passou pela EMEI Monteiro Lobato e aproveitou bastante, do quintal que a escola é, porque ele gosta do chão de terra. Essa é a voz de Fernanda. Ela é uma migrante nordestina, que busca um lugar ao sol, para ela e o filho. E bem lá no fundo, para o seu sonho. Que essa história, não lhe deixe esquecer, que poder estudar História, é uma outra história, que ela ainda há de nos contar.
História de Vida de Fernanda
Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk
Link para escutar a história de Fernanda:

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