História de Vida 33 - História de Maria Cláudia: "De quem é feita de chão"

 


Para conhecer a história que agora começo a narrar, guarde bem esta paisagem. A personagem principal dessa história bebe, vive e é nutrida, como um retrato dessa terra. Mulheres atravessam uma capoeira de algodão. Mulheres colhem o algodão, entre elas, uma menina de nove anos, parida do ventre de Maria do Socorro, a segunda, de seis meninas. Nascida no Ceará, na Fazenda de Cajazeiras do Ivos, no Anel do Algodão, Maria Cláudia, nesse começo da nossa história, vive com sua família na Paraíba, numa vila de Uiraúna chamada Quixaba. Se fecharmos os olhos, poderemos ver as casas simples. Não existe cerca. As casas se comunicam com as outras casas, com as estradas, com a plantação. O trabalho, a vida familiar, a natureza, tudo corre, vive, seca, nasce, morre como um todo. Os rios enchem, secam e vazam. Nas secas, as crianças correm pelos leitos. Nas cheias, meninos e meninas fazem barcos de folha de bananeira, para soltarem nas correntezas. Os homens entram nos brejos e colhem feixes de arroz. Batem os feixes no jirau para soltar os grãos de arroz. Comungam com as mulheres, no mesmo quintal, a feitura da pamonha e do curau. É colheita de milho e arroz. Os homens e mulheres dividem o quintal. Cantam para aliviar o cansaço. O pai arrendava as terras, até que o dono da fazenda as pediu de volta. O pai comprou um sítio e começaram todos a erguer a casa. Uma família cede os braços para a outra. Colocam lenha na caieira. Tijolo por tijolo, eles são moldados, assados, e, todos, adultos e crianças passam noites em claro, a trabalhar. As paredes aparecem pelas mãos de crianças e adultos. A casa é feita de barro. A casa é feita de chão. Tudo é terra. Tudo sem cerca faz parte do trabalho e da plantação. Toda essa paisagem era guardada em retrato, quando as tias, irmãs da mãe de Maria Cláudia vinham de São Paulo para visitá-los. Essas tias viajavam sozinhas e trabalhavam fora de casa. Elas eram motivo de olhos grandes das meninas, como Maria Cláudia. Faziam o que mulher não podia fazer. A mãe era uma das três costureiras, daquele pedaço de chão. A casa então vivia cheia, principalmente, na festa da padroeira. Os retalhos serviam para brincar. E as meninas também brincavam de costurar com espinhos de mandacaru e batizavam suas bonecas embaixo do pé de Juá. Até que se mudaram daquela vida tão junta dos ciclos da natureza e foram para a cidade, para que os filhos continuassem a estudar. Um tio já morava na cidade e trabalhava como pedreiro. Na roça era tanta coisa sabida para poder viver. Mas tanta sabença do campo, de nada valia na cidade. A vida era outra. A mãe de Maria Cláudia fazia cocadas e ela, ainda menina, entregava nos bares. Também vendia os cachos de bananas, que traziam do sítio. O pai foi trabalhar como pedreiro e vendedor de doces, num carrinho que ele comprou. A mãe acelerava a roda da máquina de costura. E assim foi, até que um tio de sua mãe, convidou toda a família para morar e trabalhar em suas terras, em Maioba, em São Luís do Maranhão. Esse foi outro tempo, em que a família de Maria Cláudia, aprendeu muita coisa. A fazer polpa, licor de jenipapo, queijo, a tirar a Jussara da palmeira. A tia de Maria Cláudia a levou para morar na cidade e trabalhar no comércio da família, para que ela mesma pagasse a escola particular em que foi estudar. Mas como tudo um dia gira e finda, aconteceu que seu pai, se desentendeu com o veterinário da fazenda, genro do tio de sua mãe e eles tiveram que ir embora dali. Sua mãe estava grávida da sexta filha. O pai foi para São Paulo e a mãe pariu sua filha. Com um mês de vida, seguiram as mulheres todas da família. Sete mulheres cruzaram o Brasil. Em três dias, saíram do nordeste para São Paulo. No quintal da casa dos irmãos de sua mãe ergueram uma nova casa. O pai trabalhava na fábrica. A irmã também foi trabalhar nessa fábrica. Um dia, Maria Cláudia também foi funcionária dessa fábrica. Era quase um jeito de repetir o trabalho coletivo, sempre em família. Mas cada um trabalhava num setor e nada era aquele organismo único, vivo e cíclico. Maria Cláudia começou como auxiliar de compras e logo assumiu o cargo de compradora. Namorando um moço de esquerda, lia muito e começou cada vez mais, a pensar sobre a terra, sobre a migração nordestina. Morando em Guarulhos, com uma população imensa de nordestinos, em um bairro nordestino, ela questionava as estruturas sociais, o trabalho, o preconceito contra o migrante. Fez parte de um grupo de jovens, da igreja, embasados na Teologia da Libertação e tudo isso, a influenciou a decidir por estudar História. Entrar para uma faculdade era um passo inovador demais, dentro de sua família. Mulheres só estudavam no máximo, até o ensino técnico. Sua mãe dizia-lhe que ela precisava trabalhar em escritório e isso era muito. Mulheres jamais chegavam depois das dez da noite. Além do que, a família de Maria Cláudia estava construindo um sobrado e todas as filhas tinham que dar metade do dinheiro recebido no trabalho, para a casa. Maria Cláudia procurou a sua mãe, para lhe contar que havia passado no vestibular de uma faculdade particular e não poderia mais fazer a contribuição. A mãe aprovou e as irmãs todas, de alguma forma, financiaram seus estudos, porque continuaram contribuindo para que a casa da família fosse construída. Ergueram o sobrado e a irmã ergueu o alicerce de novos caminhos para as mulheres da família. Quebrou a regra das dez da noite. Quebrou regras mais que as tias todas, que iam visitar a família, lá na sua infância na Paraíba. Na faculdade, os colegas da sua sala formavam um grupo forte e questionador e promoviam eventos com a presença de pensadores, como Florestan Fernandes, Frei Beto. Nessa época, também entrou para uma organização que apoiava movimentos sociais. Tornou-se professora de História da escola pública municipal e estadual de São Paulo. Continuou o trabalho na fábrica. Casou-se com um colega da faculdade de História, com quem teve suas filhas gêmeas, Júlia e Luiza. A vida seguia sempre com as discussões sobre a terra, num país que escolheu não fazer a reforma agrária e deixava órfãos tantos nordestinos e tanta terra sem produção e tanta gente sem comer. Quando o PT assumiu a prefeitura de Guarulhos, ocupou a Secretaria de Cultura, no setor das bibliotecas. Modernizou as bibliotecas e chegou a ganhar pela cidade, o prêmio "Amigo da Leitura", em 2005. Foi em 2006, que Maria Cláudia começou a trilhar um caminho novo, como diretora de uma escola pública, levando consigo, a ideia de que ocupar cargos públicos era uma forma de garantir direitos e democratizar a escola pública. Nos anos seguintes, como diretora, buscou alianças com as universidades públicas e com a comunidade. Quando sua filha, Fernanda nasceu em 2012,  Maria Cláudia escolheu a educação infantil pública, sendo diretora da EMEI Epitácio Pessoa, em São Miguel. Tanta coisa já acontecida e ainda existia dentro dela, um não-pertencimento, porque não era de São Paulo, mas não era mais da roça do algodão e ao mesmo tempo, nunca poderia deixar de ser. Mas um dia, viajando pelos lençóis maranhenses, viu uma árvore no mangue, cheia de muitas raízes e compreendeu a si mesma. Sair de sua terra tinha sido uma dor. Chegar em outra terra, que recebia com dureza e preconceito quem chegava, não tinha sido fácil, mas ao mesmo tempo, permitiu que ela se transmutasse numa árvore de muitas raízes. De muitas terras. De muitos chãos. Tomou a resolução de pela primeira vez, morar mais perto do trabalho e ocupar uma escola pública que tivesse área verde, terra, onde pudesse fazer como seus ancestrais: revolver o chão, plantar, ensinar o gosto pelo que se come das próprias mãos. Tornou-se diretora da EMEI Monteiro Lobato, onde inclusive, vai aposentar-se, em breve e eis que algo aconteceu, mais dentro do que fora: sentiu-se também, parte de São Paulo. E de novo, depois de uma vida atravessando e cortando a cidade, morar perto do trabalho transformava tudo num só território, como quando na sua terra natal. Na sua gestão foram realizadas muitas travessias, um projeto que tirava as crianças de dentro da escola para ocuparem as ruas, numa parceria com outras escolas do centro de São Paulo. Era a Maria Cláudia da infância querendo trazer à tona, a sua paisagem, aquela, do começo da história. A paisagem sem cerca, onde plantação, estrada e casa, tudo comunga do mesmo sol sem muro. Porque aquela menina e aquelas mulheres todas, nascidas em meio à capoeira de algodão, moram dentro e até vivem num quadro na sua sala. Pois a paisagem da infância é uma janela para o mundo.

História de Vida de Maria Cláudia
Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk

Link para escutar a história de Maria Cláudia:

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