História de Vida 32 - História de Marta: "De asas e afetos passarinheiros"

 




Diz que era uma vez, uma menina chamada Marta. O pai e a mãe tinham vindo do sul para tentar novas possibilidades. Compraram uma casa na periferia da zona leste e tiveram sete filhos. Seis mulheres e um homem. A sétima era uma mulher, a Marta, dessa nossa história. Ela queria brincar na rua e os pais não deixavam. Então, a rua toda vinha para dentro de sua casa. Marta é uma criadora de possibilidades. Ela aprendeu a ler sozinha. Com cinco anos queria muito ir à escola para escrever, já que lia tudo, desde os quatro anos, talvez por influência de sua irmã mais velha, que fazia magistério. Mas seu primeiro dia de aula foi uma grande decepção. Tentou fugir cinco vezes. Então, era aquilo, a escola? Ninguém ainda sabia ler e muito menos, iriam aprender a escrever, no tempo que Marta sonhava. No tempo de quem já lia tanto. No entanto, sua professora foi bastante paciente e a ajudou a compreender que a escola era aquilo, mas nem tudo ficava perdido, porque os nossos sonhos sempre podem acontecer. Por vezes, nem cabem no mundo. Então, trata-se sempre, de nos encher de coragem e criar esse mundo. Foi o que Marta fez, logo aos treze anos. Seus irmãos, sendo mais velhos, já tinham até se casado. Assim, no quarto que sobrava, ela fez uma espécie de brinquedoteca e biblioteca e ali, dava aulas para crianças  de idades diferentes e com dificuldades na escola. Formou-se no magistério, porém, a vida que nos é impingida e que também, não era aquela que Marta sonhava, a fez esquecer de que é preciso criar o mundo sonhado, ainda mais, em se tratando de uma menina negra da periferia, como ela. Marta aceitou a vida que diziam ser a única possível. Esqueceu-se daquelas impossibilidades, que são as mais gostosas de serem cultivadas. Esqueceu-se, do quanto amava estar em sala de aula, porque o mundo da produtividade insana, assim o deseja. É preciso ser criador de mundos, daqueles bem teimosos, para fugir dessa falta de compasso com o que sentimos. Marta foi trabalhar e deixou o amor pelo ofício de ensinar guardado. Seu primeiro trabalho foi no McDonald 's. Depois, em muitas outras empresas, como Net e Eletropaulo. Mas nem por isso, deixou de lutar pelo seu direito de estudar. Estudou num cursinho para vestibular, por meio de bolsa e passou na primeira fase da Fuvest. Na segunda fase ficou doente e não pôde comparecer. Mesmo assim, a possibilidade de cursar pedagogia apareceu, quando no governo Lula foi criado o programa PROUNI. Pronto, aquele gosto pelo conhecimento foi alimentado e Marta continuou sua busca. Até que uma amiga, a lembrou de que poderia sim, prestar concurso para ser professora na prefeitura. Por que, não? Marta fez as provas e passou. Assim, entrou para sala de aula, como quem toma conta de um ninho alto, feito uma "Maria-de-Barro". Foi voar  a uma CEI na periferia, onde ficou por treze anos. Passou por uma segunda CEI, também na periferia, e nesse lugar encontrou colo e incentivo para alçar voos maiores, como decidir ser coordenadora, que veio, e muito, do apoio de Bartira, diretora na época. Marta estudou bastante, em todos anos de sua caminhada, pois numa CEI, as crianças costumam chegar com poucos meses de vida e a sua luta foi sempre, criar um ninho seguro o bastante para acolher e livre, o suficiente, para não cortar as asas bonitas dos pequeninos. Foi depois dessas experiências, que decidiu tornar-se coordenadora, plantar em equipes de educação, o cuidado amoroso para com a infância. Nessa jornada, Marta foi cada vez mais se empoderando dessa sua mão para criar mundos. Casou-se com um companheiro que é apoio firme para seus passos e voos. Teve três filhas. A mais velha já está com treze anos e as caçulas são gêmeas e estão com nove anos. As meninas lhe ensinam tanto, como por exemplo, aceitar que nem sempre damos conta de criar os melhores mundos, mas se não cortarmos as asas dos filhos já teremos dado a eles um grande céu. As meninas a ensinam a ser mãe. Porém, quem lhe deu o melhor e mais bonito exemplo foi a sua própria mãe, amorosa e paciente, uma força que ela carrega consigo. Marta é criadora de possibilidades que só ela enxerga, porque mira do alto de um ninho seu, bem bonito, onde ela sempre repousa suas asas cansadas de tanto assovio. Também conta com árvores grandes que lhe emprestam galhos fortes, onde repousa e avista mais. Pela sua vida, muitas foram as amigas, as mulheres alimentando o seu "sonhar". De uma professora resolveu ser coordenadora. De uma escola na periferia foi para uma escola no centro da cidade. Uma escola que ela gostaria de ter estudado quando criança. Marta foi coordenadora da EMEI Monteiro Lobato e segue agora, para outros rumos, levando muitas histórias e afetos. Levando o grande quintal que é a EMEI Monteiro Lobato e guardando-o no seu coração. Segue com suas perguntas cheias de asas e ninhos. Recentemente, perdeu seu pai. Ficou uma saudade e uma lembrança forte, de que quando ela decidiu mudar sua carreira, de professora para coordenadora coincidiu com o tempo, em ele ficou muito doente. Ela o acompanhava no hospital e era ali, também, que estudava para ser coordenadora. Marta segue aceitando a vida e suas dores, pois quem tem asas, sempre voa em busca das boas estações. Não tendo medo de deixar os ninhos para trás, ela segue para outra EMEI, também como coordenadora, buscando para as crianças das escolas públicas, pelas quais passa, uma infância segura e passarinheira. 


História de vida de Marta

Escuta e escrita literária: Elaine Dauzcuk

Link para escutar a história de vida de Marta:

https://youtu.be/diHMrS6SKEM


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